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quinta-feira, 17 de julho de 2025

Conto Espírita — “A Última Lição do Sr. Sanson”

A Última Lição do Sr. Sanson (conto espírita)

 
A última lição do Sr. Sanson
 

Naquela tarde silenciosa de abril, as cortinas estavam semiabertas, permitindo que a luz suave do entardecer banhasse o aposento com tons dourados. O Sr. Sanson, deitado em repouso sereno, já pressentia o momento da travessia. Não havia dor em seu semblante, tampouco temor em sua alma. Apenas um silêncio que sussurrava paz.

Com o olhar voltado para o alto, ele sorriu, como quem reconhece ao longe um amigo querido. Sentia que o véu entre os mundos já se tornava tênue — como se os dois planos estivessem prestes a se tocar.

Ao seu lado, repousava uma carta já selada, endereçada ao presidente da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Era um pedido raro: que, após sua partida, fosse evocado para relatar, passo a passo, a experiência da morte. A curiosidade não era vaidade, mas serviço. Ele desejava ensinar, mesmo do outro lado da vida.

Dois dias depois, ali mesmo na câmara mortuária, Allan Kardec e alguns confrades estabeleceram comunicação com o Espírito do amigo. Ele viera — lúcido, sereno, com a mesma voz interior de quem nunca partira de fato. Descreveu sensações leves, visões sutis, e uma alegria difícil de traduzir. Não houve dor. Houve reencontro. Não houve vazio. Houve plenitude.

— “Senti como se tivesse me libertado de um casulo apertado… e reencontrado o céu da infância”, disse Sanson, entre os suspiros emocionados dos presentes.

Mas o que o tornara tão feliz? Por que, entre tantos, ele atravessara o umbral com tamanha lucidez e júbilo?

Ele mesmo respondeu:

— “Fiz da caridade minha estrada e da abnegação, meu abrigo. Não temia a morte, porque vivi de forma que minha consciência pudesse repousar em paz. Os bens materiais, tratei como ferramentas, não como donos. E a fé… ah, a fé… essa foi minha luz nas horas de sombra.”

O relato emocionou a todos. Não era um santo, tampouco um espírito elevado entre os maiores. Era apenas um homem comum… que escolhera, com humildade, viver de forma extraordinária. Ao final, Kardec disse, com os olhos marejados:

— “Um justo morreu. Mas ao mesmo tempo, nasceu para a verdadeira vida.”

No plano espiritual, os sinos não dobraram de luto. Tocaram de esperança. E, entre Espíritos amigos, alguém o recebeu com um abraço e disse: “Bem-vindo de volta, irmão.”

Autor: Ronald Sanson Stresser Junior

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

O Peso da Pedra


Dona Clarice, viúva de 72 anos, era conhecida na vizinhança pela sua pontualidade e palavra firme. Toda terça-feira, às oito em ponto, ela ia ao mercadinho da esquina buscar pão fresco e uma conversa rápida com o Seu Raimundo, o padeiro. Para ela, a vida era feita de pequenos compromissos que, por mais simples que parecessem, carregavam o peso de sua integridade.

Certa manhã, enquanto ajeitava os cabelos brancos no espelho, percebeu que estava atrasada. Não era comum. Tinha perdido a noção do tempo ao procurar o relógio de pulso, que sempre ficava no criado-mudo, mas naquele dia parecia ter evaporado. Resmungando consigo mesma, pegou a bolsa e saiu apressada.

Ao virar a esquina, tropeçou em uma pedra pequena no caminho. A queda foi brusca. Sentada no chão, com o joelho ralado, olhou para a pedra como se ela tivesse vida própria. "Ninguém tropeça em montanha", murmurou, esfregando o joelho. "É sempre numa pedra pequena." Um rapaz que passava parou para ajudá-la, mas Dona Clarice recusou com um gesto firme. 

— Estou bem, meu filho. Só tropecei na minha própria pressa.

Quando finalmente chegou ao mercadinho, já passava das oito e meia. Seu Raimundo, um homem calvo e sempre sorridente, a olhou com surpresa.

— Achei que não vinha hoje, Dona Clarice. Já ia ligar pra senhora.

— Pois é, Raimundo, tropecei numa pedra. Literal e metaforicamente.

Ele riu, mas percebeu o tom sério nas palavras dela. Clarice contou sobre o pequeno atraso que causara a pressa e, consequentemente, a queda. 

— É engraçado, Raimundo. A gente vive falando de grandes virtudes, mas esquece das pequenas. Ser pontual, por exemplo, é uma maneira de dizer que a gente respeita o tempo do outro. Hoje, ao me atrasar, senti que estava desrespeitando você, mesmo que só fosse por alguns minutos.

Raimundo colocou um pão quente na sacola dela e respondeu:

— Dona Clarice, a senhora já é um exemplo aqui. Um tropeço ou outro não apaga isso. Mas, sabe, ouvir isso da senhora me fez pensar. Acho que, às vezes, a gente também precisa tropeçar para lembrar de olhar onde pisa.

Clarice sorriu. A simplicidade das palavras do padeiro fez eco em seu coração. Voltou para casa caminhando mais devagar, reparando nas pedras pelo caminho, mas também nas flores que cresciam nas rachaduras do asfalto. 

Naquela noite, antes de dormir, encontrou o relógio perdido debaixo do sofá. Colocou-o no criado-mudo com cuidado, pensando em como as pequenas coisas – uma pedra, um atraso, uma conversa – têm o poder de moldar quem somos.

Ronald Sanson

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Conto espírita: "O Natal não é apenas uma data"

 

Era uma noite silenciosa, dessas que parecem guardar um segredo antigo no ar. Eu, médium de coração inquieto, sentei-me à mesa com papel e caneta em mãos, pronto para acolher as mensagens que, vez ou outra, os Espíritos de luz me traziam. Naquela ocasião, um perfume suave invadiu o ambiente, e senti que não estava só. Uma presença radiante, serena e acolhedora, aproximou-se. Era alguém que, embora não pudesse ver com os olhos da carne, senti com os olhos da alma. Então, as palavras começaram a fluir como um rio calmo.

"Filho, aproxima-se o Natal. Um tempo que, na Terra, deveria ser repleto de luz, mas que muitas vezes se perde em brilhos que não iluminam. Não permitas que essa celebração seja apenas troca de presentes ou mesa farta. O verdadeiro Natal é a oportunidade sublime de recordar o Mestre e, mais que isso, vivê-Lo.

Lembra-te de que Jesus não nasceu em um palácio, mas em uma manjedoura humilde, cercado pelo amor simples de Maria e José. Ali, entre o canto dos anjos e o silêncio dos campos, o Amor fez-se carne para nos ensinar a essência da vida: amar e servir.

Por isso, meu amigo, faz do Natal mais que um dia. Torna-o um estado de espírito. Convida o Cristo a nascer em teu coração, transformando-o em abrigo para os que sofrem e em consolo para os que choram. Amplia tua comunhão com os outros, mesmo aqueles que julgas distantes ou diferentes, porque a fraternidade verdadeira não exclui ninguém.

Jesus acredita em nós. Deposita em cada alma uma fé inquebrantável, como quem planta uma semente e confia no tempo para fazê-la brotar. E Ele nos chama, especialmente neste tempo, a responder a essa confiança com ações: abraçar, compreender, perdoar. Pois o Natal, filho, não é apenas um marco no calendário, mas a chance de renovarmos a alma e o mundo pelas bases do Amor, da Solidariedade e do Trabalho.

Ao erguer a prece na noite de Natal, lembra-te dos filhos da tristeza, mergulhados na aflição. Muitos, de rua em rua, buscam o abrigo de um coração disposto a ouvir, a acolher, a cuidar. E enquanto a mesa se enfeita e o bolo se corta, que tua lembrança leve o bálsamo da bondade àqueles que ainda esperam. Pois o Mestre, ainda hoje, caminha entre nós, procurando pelas manjedouras de corações dispostos a acolhê-Lo.

O Senhor não nos pede perfeição. Ele nos pede amor. Não um amor vaidoso, que busca retorno ou aplauso, mas o amor genuíno que se dá sem reservas, que ama por amar. Pois, somente quando nos tornarmos verdadeiros irmãos uns dos outros, é que viveremos plenamente o Natal eterno que Jesus nos oferece.

Assim, meu amigo, diante da luz desse Santo Natal, faz tua prece. Pede ao Mestre que te sustente e ilumine tua senda, não apenas nesse dia, mas em todos os outros. E que, em cada gesto de solidariedade, em cada sorriso compartilhado, em cada mão estendida, possamos ouvir, ao longe, o cântico celestial: 'Glória a Deus nas alturas, paz na Terra, boa vontade para com os homens.' Que assim seja.

Quando a mensagem terminou, senti meu coração inundado de uma paz indescritível. Compreendi, ali, que o Natal não é uma data, mas um chamado. E que, em cada pequena ação, podemos responder a esse chamado, transformando a vida — nossa e dos outros — em um incessante e divino Natal.

Ronald Sanson S. J., dezembro de 2024.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Contos da Nova Era: Transmutando a energia do dinheiro em prosperidade

A imagem em formato paisagem ilustra o conto, com a cena mística da Ilha de Itamaracá, mostrando o herói Lopes Conselheiro e seu mentor Alexander Lins à beira da praia no alvorecerm xom a energia criando a mística da trama por toda parte.
Imagem gerada por IA usando o texto como descrição / OpenAI
 

Lopes Conselheiro era um programador como qualquer outro, vivendo uma rotina apertada em São Paulo, quando decidiu tirar umas férias para relaxar na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco. Esperava apenas sol, mar e descanso, mas a vida tinha outros planos para ele. 

Alguns dias após chegar nosso herói saiu caminhar pela praia. Ele encontrou uma jovem que vendia ostras naturais, ela abria as ostras escolhidas, colocava uma pitada de sal, um fio de azeite de oliva e espremia uma banda de limão na iguaria, Lopes Conselheiro comeu cerca de uma dúzia daqueles moluscos deliciosos e não pode deixar de reparar na beleza da moça que o servia, então ouviu uma voz: "as ostras além de deliciosas também são afrodisíacas, então é bom que você saiba que a moça é casada".

Ele se virou e viu um logo atrás dele um homem de barba e cabelos grisalhos, que usava roupas simples, mas transmitia uma presença que o fazia parecer alguém importante, com autoridade. Então se apresentou.

— Meu nome é Conselheiro, Lopes Conselheiro, me desculpe, não entendi bem o senhor mas sou turista, cheguei há poucos dias — enquanto se desculpava, sem saber nem direito porque, Lopes sentiu uma conexão estranha com aquele homem que o tinha chamado a atenção, como se ele já conhecesse aquele homem há muito tempo.

— Você busca desculpas para coisas que nem fez e ainda nem sabe se vai fazer, — disse Lins, olhando diretamente nos olhos de Lopes.

— Como assim? — Lopes perguntou, confuso.

— O universo vibra, meu amigo, tudo é energia. O que você vê como matéria não passa de uma ilusão... uma aglutinação de forças que criam a aparência do sólido. Você quer entender o poder real? O poder de moldar a realidade?

Lopes, incrédulo e curioso, aceitou o convite do velho para uma conversa mais longa. Foi quando Lins o levou para um lugar ermo da ilha, onde em meio a uma clareira havia uma escada oculta em meio as pedras que levava a uma espécie de abrigo subterrâneo, feito de pedras lapidadas e encaixadas com perfeição. O lugar parecia uma espécie de abrigo subterrâneo, escondido sob os rochedos em meio à mata nativa da ilha. Ali, Lopes descobriu que Lins fazia parte de uma antiga ordem secreta trazida ao Brasil por Maurício de Nassau, no período colonial holandês.

— Nosso conhecimento foi preservado por séculos. A ciência moderna finge que sabe tudo, mas na verdade, perdeu o contato com a verdadeira natureza da realidade, — explicou Lins. — O holograma universal é a chave. Tudo é energia, e o magnetismo é a força que une essas energias. Quem domina o magnetismo, domina o próprio destino.

Com o passar das semanas, Lopes mergulhou de cabeça nos ensinamentos de Lins. Ele aprendeu que, através do magnetismo e da compreensão da energia universal, poderia moldar a matéria à sua vontade. Mas havia um preço: a caridade. Lins sempre reforçava esse ponto.

— O magnetismo é uma moeda cósmica. Você recebe o que doa. Se você só pegar e acumular, um dia será cobrado com juros pesados, — avisou Lins. — A prosperidade só faz sentido quando compartilhada.

Após sete semanas de ensinamentos e treinamento intensos, Lopes voltou a São Paulo. Sentia-se um novo homem, com um entendimento profundo do universo, o silêncio que tudo vê e tudo sabe habitava em seu interior. Após alguns dias de reconexão com a vida em uma grande cidade ele decidiu aplicar o que aprendeu no desenvolvimento de um aplicativo inovador, que permitia pagamentos via criptomoedas convertidas diretamente para o PIX, um sistema de pagamento online lastreado com cryptos.

Em pouco tempo, sua criação revolucionou o mercado financeiro, e Lopes ficou extremamente rico. Mas a riqueza não trouxe a felicidade que ele esperava. Na verdade, ele se sentia vazio, como se algo estivesse faltando. Foi então que lembrou das palavras com que mestre Lins lhe ensinou sobre a caridade.

— O poder sem compaixão é como uma árvore sem frutos, — ecoou a voz de Lins em sua mente.

Lopes, decidido a fazer algo a respeito, programou seu aplicativo para doar diariamente uma parte dos lucros para pessoas em dificuldades financeiras. E não foi uma doação qualquer: o sistema era completamente aleatório, distribuindo quantidades significativas de bitcoins para milhares de pessoas.

A mudança foi imediata. Ele começou doando cerca de 10 bitcoins por dia para pouco mais de 1.000 pessoas. Em pouco tempo, o aplicativo ganhou popularidade, e a quantia aumentou para mais de 1.000 bitcoins, beneficiando cerca de 100.000 pessoas diariamente. Em menos de uma década mais de 36 milhões de pessoas por ano passaram a receber essa ajuda inesperada, o que, aos poucos, começou a transformar a economia global.

— Você percebe? — disse Lins, durante uma visita surpresa a São Paulo. — O dinheiro também é energia. E energia que não circula, apodrece. Quando você faz o fluxo acontecer, cria abundância para todos. 

Lopes sorriu. Agora, ele entendia. O sucesso verdadeiro não estava em acumular riquezas, mas em usar essa energia para beneficiar o coletivo. Sem alarde, sem propaganda, ele criou uma revolução silenciosa, uma nova cultura financeira baseada na doação e na solidariedade.

Com o tempo, o Brasil se tornou uma potência, não pela força ou pelo poder, mas pela generosidade. O sistema de Alexander Lins criou um efeito cascata que eliminou a pobreza e trouxe prosperidade para todos. Muitas pessoas que receberam aqueles fundos de caridade ajudaram outras pessoas, criaram negócios, materializaram ideias, fizeram a economia global, outrora represada, circular.

A ganância, a avareza e a desigualdade perderam espaço, e a humanidade finalmente descobriu que, no fim das contas, somos todos irmãos, viajando juntos nessa grande nave chamada Terra. 

E Lopes? Ele viveu em paz, por muitos anos e com uma prosperidade que lhe dava a certeza de que sua alma estava imortalizada, pela caridade que o levou a habitar para sempre na mesma vibração que ele conseguiu ciar em seu trânsito pela matéria, a paz consigo mesmo e com o próximo, a fonte da alegria eterna.

Ronald Sanson, 15 de outubro de 2024.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Senhor, a luta é árdua e difícil


Era uma noite calma e estrelada, mas dentro do coração de Antônio, uma tempestade silenciosa se desenrolava. Ele estava sentado em sua pequena varanda, olhando para o horizonte distante, refletindo sobre a vida. As palavras que ressoavam em sua mente eram um eco de uma prece antiga, transmitida por gerações na sua família: "Senhor, a luta é árdua e difícil."

Antônio sabia bem o peso dessas palavras. Todos os dias ele enfrentava as tentações e distrações do mundo, e muitas vezes sentia que não estava à altura da batalha. "Devido ao nosso grau de desenvolvimento espiritual ser tão pequeno," continuava a prece, "sofremos influências, que para nós são gigantescas."

Essas influências, pensava ele, se manifestavam de tantas formas — orgulho, vaidade, e o desejo incessante pelos prazeres efêmeros da vida. Quantas vezes havia se deixado levar por essas tentações, esquecendo-se das verdades simples e profundas que sua avó sempre lhe ensinara?

Mas, por mais que caísse, uma luz persistente sempre surgia em seu caminho, guiando-o de volta. "Por sua infinita misericórdia, o Senhor nos tem enviado seus emissários de luz." Antônio acreditava nisso com todo o seu ser. Ele via esses emissários nas pessoas simples e sábias que cruzavam seu caminho, nos momentos inesperados de paz, e até nos desafios que o fortaleciam.

Ele sabia que a vinda de Cristo, aquele a quem chamavam Jesus, era o maior presente de todos. "Já nos deu todo o suporte que precisávamos para vencermos mais essa etapa em nossa caminhada." E ainda assim, ele sentia sua própria teimosia, sua resistência em abraçar plenamente esse caminho. "Nossa teimosia, nossa displicência... têm nos dificultado bastante."

Antônio suspirou, sentindo o peso de suas falhas, mas também a força de sua determinação. Ele sabia que a resposta não viria de fora. "Precisamos do esforço próprio, da perseverança." A luta para vencer os instintos e as tentações da carne era sua para travar. Mas ele também sabia que não estava sozinho. O suporte estava ali, sempre presente, esperando que ele tomasse a decisão de seguir na estrada do amor.

Agora, estava em suas mãos. Ele olhou para o céu, onde as estrelas pareciam brilhar mais intensamente, como uma lembrança de que ele já possuía o entendimento do bem e do mal. A escolha era dele: seguir adiante, mesmo que tropeçando, na estrada do amor e da luz, ou ficar parado, estagnado, esperando que a vida o empurrasse através do sofrimento.

"Que Deus nos abençoe," murmurou Antônio, levantando-se. Ele sabia que o caminho não seria fácil, mas, com cada passo, ele se aproximava mais do que realmente importava.

Stresser

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

O monge e o peregrino

Conta um conhecido peregrino, que várias vezes já fez o Caminho de Santiago ...

 
Um "Caminho de Outono", no trajeto para a cidade de Castrojeriz, Espanha. Foto: Lais Castro Trajano
 

Num dia de sol suave, um peregrino caminhava pela longa trilha do Caminho de São Tiago de Compostela. Seus passos ressoavam no chão de terra batida, e o murmúrio distante dos riachos e o sussurrar do vento nas folhas traziam uma tranquilidade incomum à sua alma. O peregrino seguia em silêncio, refletindo sobre as voltas da vida, quando avistou, ao longe, um monge franciscano sentado à sombra de uma árvore. Ao se aproximar, o monge sorriu com serenidade e fez um sinal para que ele se sentasse ao seu lado.

— Paz e bem, irmão — saudou o monge, com voz suave. — Como vão seus passos?

— Vão bem, Frei Ludovico — respondeu o peregrino, já conhecendo de histórias anteriores a fama do sábio monge que vivia em retiro naquelas paragens. — Mas meu coração, às vezes, se agita, como se algo dentro de mim buscasse despertar, mas eu não soubesse bem como fazê-lo.

Frei Ludovico olhou para o horizonte e disse, quase como se estivesse conversando com a brisa:

— Há um grande presente que Cristo nos oferece, um presente feito de compaixão e amor. É como uma chuva de bênçãos que nos alcança, mas nem sempre estamos atentos. No silêncio do nosso caminhar, precisamos abrir nossos olhos e corações, intensificar a busca pelo conhecimento e liberar os sentimentos mais puros que mantemos escondidos.

O peregrino franziu o cenho, atento às palavras.

— E como posso abrir esse caminho, Frei?

— Cada um de nós — continuou o monge — é um semeador. A terra da nossa alma está pronta, mas depende de nós ará-la. Espalhe nela o amor, a fraternidade, a benevolência e o perdão. São esses os adubos que farão suas sementes crescerem e florescerem. E os frutos, meu amigo, são aqueles dos quais todos poderão se alimentar.

O peregrino baixou os olhos, meditando sobre o que ouvira.

— Mas como saberei se estou plantando corretamente? — perguntou ele.

Frei Ludovico sorriu, seus olhos brilhando com uma sabedoria antiga.

— Todas as nossas necessidades verdadeiras são atendidas pelo Pai — respondeu. — Ele nos envia lições, oportunidades para aprender, crescer e evoluir como espíritos. Mas cabe a nós, com esforço, perseverança e vontade, assimilá-las e colocá-las em prática. A dádiva de participar desse processo de regeneração, não apenas em nós, mas no mundo ao nosso redor, é algo que Cristo nos concedeu. Ele nos dá tudo o que precisamos para vencer nossa resistência e permitir que o bem e o amor desabrochem em nossos corações.

O peregrino sentiu uma paz profunda invadindo seu peito e, por um momento, tudo pareceu claro como a luz do sol que banhava a estrada.

— Façamos, então, a nossa parte — concluiu Frei Ludovico, levantando-se lentamente.

Antes de partir, o monge colocou a mão no ombro do peregrino e disse:

— Deixe-me ensinar-lhe uma oração que lhe trará força em sua jornada.

O peregrino, reverente, baixou a cabeça e ouviu as palavras que Frei Ludovico lhe transmitia com suavidade:

“Senhor, guia meus passos no caminho da Tua paz.
Que eu semeie o amor onde houver desamor,
Que eu espalhe a fraternidade onde houver solidão,
Que eu leve o perdão onde houver mágoa.
Dá-me força para arar a terra do meu coração,
E coragem para acolher os frutos que virão.
Que o Teu bem floresça em mim,
E que o Teu amor me transforme.
Amém.”

Com o coração renovado, o peregrino continuou seu caminho, agora com a certeza de que cada passo era um plantio, e cada plantio, uma colheita para a alma.

O conto é uma ficção, mas a mensagem é verdadeira,
Ronald Stresser, 23 de setembro de 2024. Com a luz do Padre Pio.



Quero poder dedicar mais tempo a este meu meu trabalho autoral, que disponibilizo aqui de forma gratuita e democrática. Pelo número de visitas que tem o meu blog estou certo que você também quer ter acesso a mais material inédito, de minha autoria. Para isso seu apoio é essencial. Envie PIX de qualquer valor para: sulpost@outlook.com.br ou QR abaixo. Assim posso dedicar mais tempo à escrita.


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quarta-feira, 9 de junho de 2021

Suri Nagamma: 'O Ateu'

"Certa vez um ateu veio a Sri Ramana Maharshi e disse:  — Swami, onde está aquele que chamam Deus? Para mim, Ele não existe.  Bhagavan olhou para ele com simpatia e disse:  — Tudo bem. Vamos supor que não existe nenhum Deus. Você existe, não?  O ateu:  — Sim, eu existo. Como poderia ser diferente? Sim, eu sou.  Bhagavan:  — Sim, isto é suficiente. Você disse que ‘você’ existe. Quem exatamente é este 'você'? Onde está ‘você’? Onde 'você' se encontra, afinal? Primeiro faça essas perguntas.  O ateu:  — E quanto a Deus?  Bhagavan:  — Por que se preocupar com Deus? Se Ele existe ou não existe, você tem certeza de que ‘você’ existe. Descubra a origem do seu eu. Se buscar e encontrar seu eu, verá se a dúvida sobre Deus persiste.   O ateu nada mais tinha a dizer. Às vezes, quando pessoas de diferentes religiões vinham e elogiavam seus próprios líderes religiosos,  Bhagavan costumava dizer-lhes:  — Aquilo que É, é apenas Um. Alguns o chamam Shakti, alguns Shiva, alguns Vishnu, alguns Jesus e alguns Allah. As pessoas dão-lhe os nomes que gostam. O que importa se os nomes que dão são diferentes? Aquilo que É, é apenas Um."    Bhagavan Sri Ramana Maharshi
As religiões são muitas, mas Deus é um só

"Certa vez um ateu veio a Sri Ramana Maharshi e disse:

— Swami, onde está aquele que chamam Deus? Para mim, Ele não existe.

Bhagavan olhou para ele com simpatia e disse:

— Tudo bem. Vamos supor que não existe nenhum Deus. Você existe, não?

O ateu:

— Sim, eu existo. Como poderia ser diferente? Sim, eu sou.

Bhagavan:

— Sim, isto é suficiente. Você disse que ‘você’ existe. Quem exatamente é este 'você'? Onde está ‘você’? Onde 'você' se encontra, afinal? Primeiro faça essas perguntas.

O ateu:

— E quanto a Deus?

Bhagavan:

— Por que se preocupar com Deus? Se Ele existe ou não existe, você tem certeza de que ‘você’ existe. Descubra a origem do seu eu. Se buscar e encontrar seu eu, verá se a dúvida sobre Deus persiste.

 O ateu nada mais tinha a dizer. Às vezes, quando pessoas de diferentes religiões vinham e elogiavam seus próprios líderes religiosos,  Bhagavan costumava dizer-lhes:

— Aquilo que É, é apenas Um. Alguns o chamam Shakti, alguns Shiva, alguns Vishnu, alguns Jesus e alguns Allah. As pessoas dão-lhe os nomes que gostam. O que importa se os nomes que dão são diferentes? Aquilo que É, é apenas Um."


Bhagavan Sri Ramana Maharshi


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sábado, 8 de agosto de 2020

Os pais estão em idade crítica (Meditação Cristã)

"Filho meu, ouve a instrução do teu pai e não deixe a doutrina de tua mãe." 

(Provérbios 1:8)

"Filho meu, ouve a instrução do teu pai e não deixe a doutrina de tua mãe."   (Provérbios 1:8)


"O humorista Mark Twain, diretor de um jornal numa pequena cidade dos E.U.A, recebeu uma carta de um adolescente de 17 anos, que se queixava que seu pai era um ignorante atrasado e não compreendia as ideias e conhecimentos progressistas da juventude moderna. 'Não se pode ter uma conversa sensata com ele.'

'Eu te compreendo muito bem', respondeu Mark Twain. 'Quando eu tinha 17 anos o meu pai era uma toupeira, um ignorantão. Mas sabe de uma coisa? Com esses velhos a gente tem que ter paciência. Eles se desenvolveram mais lentamente, mas se recuperam. Aguarde!

Quando eu tinha 27 anos o meu pai já tinha progredido bastante. Já se podia conversar com ele sobre quase qualquer assunto.

Hoje, tenho 37 anos e, pasme se quiser, pois, quando não vejo saída sobre algum assunto vou ao meu pai e lhe peço conselhos. Veja como se desenvolveu! Tenha paciência!

Prezado jovem, pode ser que você tenha mais estudo, mais conhecimentos teóricos, científicos, mas em compensação os seus pais tem, em geral, uma longa experiência de vida, que vale a pena ouvir e aproveitar, principalmente se é que foi adquirida com orientação na palavra de Deus."
E.K.
____
Fonte: Do livreto 'O Mensageiro', de 2003, 20ª edição: 'O amor - A essência da vida'. (página 70) por E.K.
Imagem: Piqsels - piqsels.com/en/public-domain-photo-opsgt - Foto gratuita para uso pessoal e comercial (CC0)



       

quarta-feira, 13 de março de 2013

Sadhguru: 'Uma História sobre Shiva'


"Certa vez, um guiâni (jnani, que busca a verdade através do intelecto) foi a Shiva e disse:

— Aprecio muito seus ensinamentos, são científicos e logicamente corretos, mas muitos de seus devotos estão sempre gritando seu nome: Shiva Shambô! e andando por aí fazendo coisas malucas. Como você permite que essas pessoas fiquem gritando: Shiva Shambô! e pulando por aí? Que tipo de ciência é essa? Você não deveria permitir essas coisas!

Então Shiva disse:

— Você vê este pequeno verme se arrastando? Aproxime-se dele e diga: Shiva Shambô!

O guiâni respondeu:

— Sim, por que não?

E foi ao verme e disse: Shiva Shambô! O verme caiu morto. O guiâni ficou chocado:

— O mantra mata! Para que serve isso? Eu digo o mantra e a pobre criatura morre.

Shiva disse:

— Não se preocupe com isso. Veja aqui uma borboleta. Diga Shiva Shambô! para ela.

O yogue ficou hesitante.

— Não quero matar a borboleta.

— Não se preocupe. Diga Shiva Shambô para a borboleta.

O yogue disse: Shiva Shambô, e a borboleta morreu.

— O que é isso?! O que acontece com este mantra? Ele se parece a uma arma!

Então viram um jovem cervo pastando ao redor e Shiva disse:

— Olhe este cervo e diga: Shiva Shambô!

O yogue respondeu:

— Não, não vou fazer isto!

— Apenas diga pra ver.

O yogue disse Shiva Shambô! e o cervo caiu morto ali mesmo. Nesse momento um casal apareceu com uma criança para pedir a bênção de Shiva.

Shiva olhou para a criança e disse ao yogue:

— Diga Shiva Shambô para esta criança.

O yogue respondeu:

— De jeito nenhum! Você não vai me fazer matar esta criança!

A criança então olhou para o yogue e disse:

— Eu era um verme e você pronunciou o mantra e me tornei uma borboleta. Você pronunciou o mantra novamente e me tornei um cervo. Você pronunciou o mantra e me tornei humano. Por favor, diga de novo. Permita que eu me torne um ser divino!"

Sadhguru


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