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terça-feira, 7 de agosto de 2018

Calendário de Umbanda




A Umbanda é uma religião brasileira que sintetiza vários elementos das religiões africanas e cristãs, porém sem ser definida por eles. Formada no início do século XX no sudeste do Brasil a partir da síntese com movimentos religiosos como o Candomblé, o Catolicismo e o Espiritismo. É considerada uma "religião brasileira por excelência" com um sincretismo que combina o Catolicismo, a tradição dos orixás africanos e os espíritos de origem indígena.

O dia 15 de novembro, já considerado pelos adeptos como a data do surgimento da Umbanda, foi oficializado no Brasil em 18 de maio de 2012 pela Lei 12.644.

Em 8 de novembro de 2016, após estudos do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), a Umbanda foi incluída na lista de patrimônios imateriais, por meio de decreto. (Wikipédia)


 CALENDÁRIO DE UMBANDA 

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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Exú: O Orixá e seu sincretismo com o Diabo

Anciã africana mostra alguidar com imagem original do orixá Exu


Os primeiros europeus que tiveram contato na África com o culto do Orixá Exú dos iorubás, venerado pelos fons como o vodum Legba ou Elegbara, atribuíram a essa divindade uma dupla identidade: a do deus fálico greco-romano Príapo e a do Diabo dos judeus e cristãos. 

A primeira por causa dos altares, representações materiais e símbolos fálicos do Orixá; a segunda em razão de suas atribuições específicas no panteão dos Orixás e voduns e suas qualificações morais narradas pela mitologia, que o mostra como um Orixá que contraria as regras mais gerais de conduta aceitas socialmente. Atribuições e caráter que os recém-chegados cristãos não podiam conceber, enxergar sem o viés etnocêntrico e muito menos aceitar. 
Nas palavras de Pierre Verger, Exú “tem um caráter suscetível, violento, irascível, astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente”, de modo que “os primeiros missionários, espantados com tal conjunto, assimilaram-no ao Diabo e fizeram dele o símbolo de tudo o que é maldade, perversidade, abjeção e ódio, em oposição à bondade, pureza, elevação e amor de Deus”.
Assim, os escritos de viajantes, missionários e outros observadores que estiveram em território fom ou Iorubá entre os séculos XVIII e XIX, todos eles de cultura cristã, quando não cristãos de profissão, descreveram Exú sempre ressaltando aqueles aspectos que o mostravam, aos olhos ocidentais, como entidade destacadamente sexualizada e demoníaca. 

Um dos primeiros escritos que se referem a Legba, senão o primeiro, é devido a Pommegorge, do qual se publicou em 1789 um relato de viagem informando que “a um quarto de légua do forte os daomeanos há um deus Príapo, feito grosseiramente de terra, com seu principal atributo (o falo), que é enorme e exagerado em relação à proporção do resto do corpo”. De 1847 temos o testemunho de John Duncan, que escreveu: “As partes baixas (a genitália) da estátua são grandes, desproporcionadas e expostas da maneira mais nojenta”.

É de 1857 a descrição do pastor Thomas Bowen, em que é enfatizado o outro aspecto atribuído pelos ocidentais a Exú: “Na língua iorubá o Diabo é denominado Exú, aquele que foi enviado outra vez, nome que vem de su, jogar fora, e Elegbara, o poderoso, nome devido ao seu grande poder sobre as pessoas”. 

Trinta anos depois, o abade Pierre Bouche foi bastante explícito: “Os negros reconhecem em Satã o poder da possessão, pois o denominam comumente Elegbara, isto é, aquele que se apodera de nós”. E há muitos outros relatos antigos já citados por Verger, nenhum menos desfavorável ao Deus Mensageiro que esses.

Em 1884, publicou-se na França o livro Fétichisme e Féticheurs, de autoria de R. P. Baudin, padre católico da Sociedade das Missões Africanas de Lyon e missionário na Costa dos Escravos. Foi esse o primeiro livro a tratar sistematicamente da religião dos iorubás. 

O relato do padre Baudin é rico em pormenores e precioso em informações sobre o panteão dos Orixás e aspectos básicos do culto, tanto que o livro permanece como fonte pioneira da qual os pesquisadores contemporâneos não podem se furtar. Mas suas interpretações do papel de Exú no sistema religioso dos povos iorubás, a partir das observações feitas numa perspectiva cristã do século XIX, são devastadoras, e amplamente reveladoras de imagens que até hoje povoam o imaginário popular no Brasil, para não dizer do próprio povo-de-santo que cultua Exú, pelo menos em sua grande parte.

Assim é retratado Exú por padre Baudin:


“O chefe de todos os gênios maléficos, o pior deles e o mais temido, é Exú, palavra que significa o rejeitado; também chamado Elegbá ou Elegbara, o forte, ou ainda Ogongo Ogó, o gênio do bastão nodoso. 

Para se prevenir de sua maldade, os negros colocam em suas casas o ídolo de Olarozê, gênio protetor do lar, que, armado de um bastão ou sabre, lhe protege a entrada. Mas, a fim de se pôr a salvo das crueldades de Elegbá, quando é preciso sair de casa para trabalhar, não se pode jamais esquecer de dar a ele parte de todos os sacrifícios. 

Quando um negro quer se vingar de um inimigo, ele faz uma copiosa oferta a Elegbá e o presenteia com uma forte ração de aguardente ou de vinho de palma. Elegbá fica então furioso e, se o inimigo não estiver bem munido de talismãs, correrá grande perigo. É este gênio malvado que, por si mesmo ou por meio de seus companheiros espíritos, empurra o homem para o mal e, sobretudo, o excita para as paixões vergonhosas. 

Muitas vezes, vi negros que, punidos por roubo ou outras faltas, se desculpavam dizendo: ‘Eshu l’o ti mi’, isto é, ‘Foi Exú’ que me impeliu’. A imagem hedionda desse gênio malfazejo é colocada na frente de todas as casas, em todas as praças e em todos os caminhos. Elegbá é representado sentado, as mãos sobre os joelhos, em completa nudez, sob uma cobertura de folhas de palmeira. O ídolo é de terra, de forma humana, com uma cabeça enorme. Penas de aves representam seus cabelos; dois búzios formam os olhos, outros, os dentes, o que lhe dá uma aparência horrível. 

Nas grandes circunstâncias, ele é inundado de azeite de dendê e sangue de galinha, o que lhe dá uma aparência mais pavorosa ainda e mais nojenta. Para completar com dignidade a decoração do ignóbil símbolo do Príapo africano, colocam-se junto dele cabos de enxada usados ou grossos porretes nodosos. Os abutres, seus mensageiros, felizmente vêm comer as galinhas, e os cães, as outras vítimas a ele imoladas, sem os quais o ar ficaria infecto. 

O templo principal fica em Woro, perto de Badagry, no meio de um formoso bosque encantado, sob palmeiras e árvores de grande beleza. Perto da laguna em que se realiza uma grande feira, o chão é juncado de búzios que os negros atiram como oferta a Elegbá, para que ele os deixe em paz. Uma vez por ano, o feiticeiro de Elegbá junta os búzios para comprar um escravo que lhe é sacrificado, e aguardente para animar as danças, ficando o resto para o feiticeiro. O caso seguinte demonstra a inclinação de Elegbá para fazer o mal.

O texto termina assim, sem entrar em pormenores que certamente eram impróprios à formação pudica do missionário, há a vaga referência a Príapo, o deus fálico greco-romano, guardião dos jardins e pomares, que no sul da Itália imperial veio a ser identificado com o deus Lar dos romanos, guardião das casas e também das praças, ruas e encruzilhadas, protetor da família e patrono da sexualidade".


Não há referências textuais sobre o caráter diabólico atribuído pelo missionário a Exú, que a descrição prenuncia, mas há um dado muito interessante na gravura que ilustra a descrição e que revela a direção da interpretação de Baudin. 

Na ilustração aparece um homem sacrificando uma ave a Exú, representado por uma estatueta protegida por uma casinhola situada junto à porta de entrada da casa. (veja na imagem acima)

A legenda da figura diz: “Elegbá, o malvado espírito ou o Demônio”. Príapo e Demônio, as duas qualidades de Exú para os cristãos. Já está lá, nesse texto católico de 1884, o binômio pecaminoso impingido a Exú no seu confronto com o Ocidente: sexo e pecado, luxúria e danação, fornicação e maldade.

Nunca mais Exú se livraria da imputação dessa dupla pecha, condenado a ser o Orixá mais incompreendido e caluniado do panteão afro-brasileiro, como bem lembrou Juana Elbein dos Santos, praticamente a primeira pesquisadora no Brasil a se interessar pela recuperação dos atributos originais africanos de Exú (encontre aqui os livros dela), atributos que foram no Brasil amplamente encobertos pelas características que lhe foram impostas pelas reinterpretações católicas na formação do modelo sincrético que gabaritou a religião dos Orixás no Brasil.

Para os antigos iorubás, os homens habitam a Terra, o Aiê, e os deuses Orixás, o Orum. Mas muitos laços e obrigações ligam os dois mundos. Os homens alimentam continuamente os Orixás, dividindo com eles sua comida e bebida, os vestem, adornam e cuidam de sua diversão. Os Orixás são parte da família, são os remotos fundadores das linhagens cujas origens se perdem no passado mítico. Em troca dessas oferendas, os Orixás protegem, ajudam e dão identidade aos seus descendentes humanos.

Também os mortos ilustres merecem tal cuidado, e sua lembrança os mantêm vivos no presente da coletividade, até que um dia possam renascer como um novo membro de sua mesma família. É essa a simples razão do sacrifício: alimentar a família toda, inclusive os mais ilustres e mais distantes ancestrais, alimentar os pais e mães que estão na origem de tudo, os deuses, numa reafirmação permanente de que nada se acaba e que nos laços comunitários estão amarrados, sem solução de continuidade, o presente da vida cotidiana e o passado relatado nos mitos, do qual o presente é reiteração.

As oferendas dos homens aos Orixás devem ser transportadas até o mundo dos deuses. Exú tem este encargo, de transportador. Também é preciso saber se os Orixás estão satisfeitos com a atenção a eles dispensada pelos seus descendentes, os seres humanos. Exú propicia essa comunicação, traz suas mensagens, é o Mensageiro. 

É fundamental para a sobrevivência dos mortais receber as determinações e os conselhos que os Orixás enviam do Aiê. Exú é o portador das orientações e ordens, é o porta-voz dos deuses e entre os deuses. Exú faz a ponte entre este mundo e mundo dos Orixás, especialmente nas consultas oraculares. Como os Orixás interferem em tudo o que ocorre neste mundo, incluindo o cotidiano dos viventes e os fenômenos da própria natureza, nada acontece sem o trabalho de intermediário do mensageiro e transportador Exú. 

Nada se faz sem ele, nenhuma mudança, nem mesmo uma repetição. Sua presença está consignada até mesmo no primeiro ato da Criação: sem Exú, nada é possível. O poder de Exú, portanto, é incomensurável".

Exú deve então receber os sacrifícios votivos, deve ser propiciado, sempre que algum Orixá recebe oferenda, pois o sacrifício é o único mecanismo, no Candomblé, através do qual os humanos se dirigem aos Orixás, e o sacrifício significa a reafirmação dos laços de lealdade, solidariedade e retribuição entre os habitantes do Aiê e os habitantes do Orum. 

Sempre que um Orixá é interpelado, Exú também o é, pois a interpelação de todos se faz através dele. É preciso que ele receba oferenda, sem a qual a comunicação não se realiza. Por isso é costume dizer que Exú não trabalha sem pagamento, o que acabou por imputar-lhe, quando o ideal cristão do trabalho desinteressado da caridade se interpôs entre os santos católicos e os Orixás, a imagem de mercenário, interesseiro e venal.

Como mensageiro dos deuses, Exú tudo sabe, não há segredos para ele, tudo ele ouve e tudo ele transmite. E pode quase tudo, pois conhece todas as receitas, todas as fórmulas, todas as magias. Exú trabalha para todos, não faz distinção entre aqueles a quem deve prestar serviço por imposição de seu cargo, o que inclui todas as divindades, mais os antepassados e os humanos. 

Exú não pode ter preferência por este ou aquele. Mas talvez o que o distingue de todos os outros deuses é seu caráter de transformador: Exú é aquele que tem o poder de quebrar a tradição, pôr as regras em questão, romper a norma e promover a mudança. Não é pois de se estranhar que seja considerado perigoso e temido, posto que se trata daquele que é o próprio princípio do movimento, que tudo transforma, que não respeita limites e, assim, tudo o que contraria as normas sociais que regulam o cotidiano passa a ser atributo seu".

Exú carrega qualificações morais e intelectuais próprias do responsável pela manutenção e funcionamento do status quo, inclusive representando o princípio da continuidade garantida pela sexualidade e reprodução humana, mas ao mesmo tempo ele é o inovador que fere as tradições, um ente portanto nada confiável, que se imagina, por conseguinte, ser dotado de caráter instável, duvidoso, interesseiro, turbulento e arrivista.

Para um iorubá ou outro africano tradicional, nada é mais importante do que ter uma prole numerosa e para garanti-la é preciso ter muitas esposas e uma vida sexual regular e profícua. É preciso gerar muitos filhos, de modo que, nessas culturas antigas, o sexo tem um sentido social que envolve a própria idéia de garantia da sobrevivência coletiva e perpetuação das linhagens, clãs e cidades. 

Exú é o patrono da cópula, que gera filhos e garante a continuidade do povo e a eternidade do homem. Nenhum homem ou mulher pode se sentir realizado e feliz sem uma numerosa prole, e a atividade sEXUal é decisiva para isso. É da relação íntima com a reprodução e a sEXUalidade, tão explicitadas pelos símbolos fálicos que o representam, que decorre a construção mítica do gênio libidinoso, lascivo, carnal e desregrado de Exú-Elegbara.

Isso tudo contribuiu enormemente para modelar sua imagem estereotipada de Orixá difícil e perigoso que os cristãos reconheceram como demoníaca. Quando a religião dos Orixás, originalmente politeísta, veio a ser praticada no Brasil do século XIX por negros que eram ao mesmo tempo católicos, todo o sistema cristão de pensar o mundo em termos do bem e do mal deu um novo formato à religião africana, no qual um novo papel esperava por Exú.

O sincretismo não é, como se pensa, uma simples tábua de correspondência entre Orixás e santos católicos, assim como não representava o simples disfarce católico que os negros davam ao seus Orixás para poder cultuá-los livres da intransigência do senhor branco, como de modo simplista se ensina nas escolas até hoje.

O sincretismo representa a captura da religião dos Orixás dentro de um modelo que pressupõe, antes de mais nada, a existência de dois pólos antagônicos que presidem todas as ações humanas: o bem e o mal; de um lado a virtude, do outro o pecado. Essa concepção, que é judaico-cristã, não existia na África. 

As relações entre os seres humanos e os deuses, como ocorre em outras antigas religiões politeístas, eram orientadas pelos preceitos sacrificiais e pelo tabu, e cada Orixá tinha suas normas prescritivas e restritivas próprias aplicáveis aos seus devotos particulares, como ainda se observa no Candomblé, não havendo um código de comportamento e valores único aplicável a toda a sociedade indistintamente, como no cristianismo, uma lei única que é a chave para o estabelecimento universal de um sistema que tudo classifica como sendo do bem ou do mal, em categorias mutuamente exclusivas.


No catolicismo, o sacrifício foi substituído pela oração e o tabu, pelo pecado, regrado por um código de ética universalizado que opera o tempo todo com as noções de bem e mal como dois campos em luta: o de Deus, que os católicos louvam nas três pessoas do Pai, Filho e Espírito Santo, que é o lado do bem, e o do mal, que é o lado do Diabo em suas múltiplas manifestações. Abaixo de Deus estão os anjos e os santos, santos que são humanos mortos que em vida abraçaram as virtudes católicas, às vezes por elas morrendo.

Na imagem a representação do principais Orixás, em procissão, segurando um pano branco sobre Oxalá (reprodução/internet)


O lado do bem, digamos, foi assim preenchido pelos Orixás, exceto Exú, ganhando Oxalá, o Orixá criador da humanidade, o papel de Jesus Cristo, o Deus Filho, mantendo-se Oxalá no topo da hierarquia, posição que já ocupava na África, donde seu nome Orixalá ou Orixá Nlá, que significa o Grande Orixá. O remoto e inatingível Deus supremo Olorum dos iorubás ajustou-se à concepção do Deus Pai judaico-cristão, enquanto os demais Orixás ganharam a identidade de santos.

Mas ao vestirem a camisa de força de um modelo que pressupõe as virtudes católicas, os Orixás sintetizados perderam muito de seus atributos originais, especialmente aqueles que, como no caso da sexualidade entendida como fonte de pecado, podem ferir o campo do bem, como explicou Monique Augras, ao mostrar que muitas características africanas das Grandes Mães, inclusive Iemanjá e Oxum, foram atenuadas ou apagadas no culto brasileiro dessas deusas e passaram a compor a imagem pecaminosa de Pombagira, o Exú feminizado do Brasil, no outro pólo do modelo, em que Exú reina como o senhor do mal.

Foi sem dúvida o processo de cristianização de Oxalá e outros Orixás que empurrou Exú para o domínio do inferno católico, como um contraponto requerido pelo molde sincrético. Pois, ao se ajustar a religião dos Orixás ao modelo da religião cristã, faltava evidentemente preencher o lado satânico do esquema Deus-Diabo, bem-mal, salvação-perdição, céu-inferno, e quem melhor que Exú para o papel do demônio? 

Sua fama já não era das melhores e mesmo entre os seguidores dos Orixás sua natureza, que não se ajusta aos modelos comuns de conduta, e seu caráter não acomodado, autônomo e embusteiro já faziam dele um ser contraventor, desviante e marginal, como o Diabo. 

A propósito do culto de Exú na Bahia do final do século XIX, o médico Raimundo Nina Rodrigues, professor da Faculdade de Medicina da Bahia e pioneiro dos estudos afro-brasileiros, escreveu em 1900 as seguintes palavras:

"Exú, Bará ou Elegbará é um santo ou Orixá que os afro-baianos têm grande tendência a confundir com o Diabo. Tenho ouvido mesmo de negros africanos que todos os santos podem se servir de Exú para mandar tentar ou perseguir a uma pessoa. Em uma pelo motivo mais fútil, não é raro entre nós ouvir-se gritar pelos mais prudentes: Fulano olha Exú! Precisamente como diriam velhas beatas: Olha a tentação do demônio! No entanto, sou levado a crer que esta identificação é apenas o produto de uma influência do ensino católico".

Transfigurado no Diabo, Exú teve que passar por algumas mudanças para se adequar ao contexto cultural brasileiro hegemonicamente católico. Assim, num meio em que as conotações de ordem sexual eram fortemente reprimidas, o lado priápico de Exú foi muito dissimulado e em grande parte esquecido. 

Suas imagens brasileiras perderam o esplendor fálico do explícito Elegbará, disfarçando-se tanto quanto possível seus símbolos sexuais, pois mesmo sendo transformado em Diabo, era então um Diabo de cristãos, o que impôs uma inegável pudicícia que Exú não conhecera antes. Em troca ganhou chifres, rabo e até mesmo os pés de bode próprios de demônios antigos e medievais dos católicos.

Com o avanço das concepções cristãs sobre a religião dos Orixás, ao qual vieram se juntar no final do século XIX as influências do espiritismo kardecista, que também absorvera orientações, visões e valores éticos cristãos, Exú foi cada vez mais empurrado para o lado do mal, cada vez mais obrigado, pelos seus próprios seguidores sincréticos, a desempenhar o papel do demônio.

O preceito segundo o qual Exú sempre recebe oferenda antes das demais divindades serem propiciadas, e que nada mais representa que o pagamento adiantado que Exú deve ganhar para levar as oferendas aos outros deuses, acabou sendo bastante desvirtuado. Passou-se a acreditar que as oferendas e homenagens preliminares a Exú devem ser feitas para que ele simplesmente não tumultue ou atrapalhe as cerimônias realizadas a seguir. Grande parte dos devotos dos Orixás pensam e agem como se Exú devesse assim ser evitado e afastado, momentaneamente distraído com as homenagens, neutralizado como o Diabo com que agora é confundido. 

Seu culto transformou-se assim num culto de evitação. Isto pode ser observado hoje em qualquer parte do Brasil, na maior parte dos terreiros de Candomblé e Umbanda, e também na África e em Cuba.

Brasil, na maior parte dos terreiros de Candomblé e Umbanda, e também na África e em Cuba. Faz-se a oferenda não para que Exú cumpra sua missão de levar aos Orixás as oferendas e pedidos dos humanos e trazer de volta as respostas, mas simplesmente para que ele não impeça por meio de suas artimanhas, brincadeiras e ardis a realização de todo o culto. Exú é pago para não atrapalhar, transformou-se num empecilho, num estorvo, num embaraço. Como se não bastasse, é tido como aquele que se vende por um prato de farofa e um copo de aguardente.

É evidente que em certos terreiros da religião dos Orixás, sobretudo em uns poucos Candomblés antigos mais próximos das raízes culturais africanas, cultiva-se uma imagem de Exú calcada em seu papel de Orixá mensageiro dos deuses, cujas atribuições não são muito diferentes daquelas trazidas da África. Nesse meio restrito, sua figura continua sendo contraditória e problemática, mas é discreta sua ligação sincrética com o Diabo católico. 

O mesmo não ocorre quando olhamos para a imagem de Exú cultivada por religiões oponentes, imagem que é largamente inspirada nos próprios cultos afro-brasileiros e que descrevem Exú como entidade essencialmente do mal. A imagem de Exú consolidada por essas religiões, especialmente as evangélicas, que usam fartamente o rádio e a televisão como meios de propaganda religiosa, extravasa para os mais diferentes campos religiosos e profanos da cultura brasileira e faz dele o Diabo brasileiro por excelência.

A imagem de Exú, o Diabo, é fartamente explorada pelas religiões que disputam seguidores com a Umbanda e o Candomblé no chamado mercado religioso, especialmente as igrejas neopentecostais.

Como mostrou Ricardo Mariano, o neopentecostalismo caracteriza-se por “enxergar a presença e ação do Diabo em todo lugar e em qualquer coisa e até invocar a manifestação de demônios nos cultos” para humilhá-los e os exorcizar, demônios aos quais os evangélicos atribuem todos os males que afligem as pessoas e que identificam como sendo, especialmente, entidades da Umbanda, deuses do Candomblé e espíritos do Kardecismo, ocupando os Exús e Pombagiras um lugar de destaque no palco em que os pastores exorcistas fazem desfilar o Diabo em suas múltiplas versões. 

Em ritos de exorcismo televisivos da Igreja Universal do Reino de Deus, que representa hoje o mais radical e agressivo oponente cristão das religiões afro-brasileiras, Exús e Pombagiras são mostrados no corpo possuído de novos conversos saídos da Umbanda e do Candomblé, com a exibição de posturas e gestos estereotipados aprendidos pelos ex-seguidores nos próprios terreiros afro-brasileiros. 

Todos os males, inclusive o desemprego, a miséria, a crise familiar, entre outras aflições que atingem os cotidianos das pessoas, sobretudo os pobres, são considerados pelos neopentecostais como tendo origem no Diabo, identificado preferencialmente com as entidades afro-brasileiras, conforme também mostra Ronaldo Almeida. 

O desemprego, por exemplo, ao invés de ser considerado como decorrente das injustiças sociais e problemas da estrutura da sociedade, como explicariam os católicos das comunidades eclesiais de base, é visto pela Igreja Universal como resultante da possessão de alguma entidade como Exú Tranca Rua ou Exú Sete Encruzilhadas. "Neste caso, o exorcismo deve expulsar o Exú que provoca o desemprego".

Imagem de Exu Caveira, com a aparência que ele usa para trabalhar no Umbral


Os evangélicos se valem ritualmente do transe de incorporação afro-brasileiro para trazer à cena as entidades que eles identificam como demoníacas e se propõem a expulsar em ritos que chamam de libertação. Mariza Soares identifica outro paralelo muito expressivo entre o rito umbandista do transe e o rito exorcista pentecostal. 

Diz ela: “A sexta-feira é conhecida na Umbanda como o dia das giras de Exú que se dão geralmente à noite. A meia-noite, ‘hora grande’ de sexta para sábado é o momento em que os Exús se manifestam e trabalham. É justamente nesta mesma hora que nas igrejas “evangélicas” estão sendo realizadas as cerimônias onde esses Exús são invocados para, em seguida, serem expulsos dos corpos das pessoas presentes”.

Ao descrever um ritual exorcista presenciado em um templo da Igreja Universal no bairro de Santa Cecília, no centro de São Paulo, em que se expulsava uma entidade que foi incorporada através do transe e que se identificou como Exú Tranca Rua, Mariano registrou os versos do cântico então entoado freneticamente pelos fiéis: “Tranca Rua e Pombagira fizeram combinação/ combinaram acabar com a vida do cristão/ torce, retorce, você não pode não/ eu tenho Jesus Cristo dentro do meu coração”. 

Eles acreditam que há um pacto firmado entre as entidades demoníacas para se apossar dos homens e os destruir pela doença, pelo infortúnio, pela morte. É o que representa Exú para os neopentecostais, mas essa imagem está longe de estar confinada às suas igrejas.

Entre os seguidores do catolicismo, a velha animosidade contra as religiões afro-brasileiras, que parecia arrefecida desde a década de 1960, quando a igreja católica deixou de lado a propaganda contra a Umbanda, que chamava de “baixo espiritismo”, reavivou-se com a Renovação Carismática. Movimento conservador que divide com o pentecostalismo muitas características, inclusive a intransigência para com outras religiões, o catolicismo carismático voltou a bater na tecla de que as divindades e entidades afro-brasileiras não passam de manifestações do Diabo, que se apresenta a todos, sem disfarce, nas figuras de Exús e Pombagiras.

Está de volta a velha perseguição católica aos cultos afro-brasileiros, agora sem contar com o braço armado do estado, cuja polícia, pelo menos até o início da década de 1940, prendia praticantes e fechava terreiros, mas podendo se valer de meios de propaganda igualmente eficazes. Exú, o Diabo, mobiliza e legitima, aos olhos cristãos, o ódio religioso contra a Umbanda e o Candomblé, corporificado em verdadeira guerra religiosa de evangélicos contra afro-brasileiros.

Essa é a concepção mais difundida que se tem de Exú na sociedade brasileira, é o que se vê na televisão e o que se dissemina pela mídia. Na idéia mais corrente que se tem de Exú, ele está sempre associado com a magia negra, com a produção do mal e até mesmo com a morte, uma idéia que certos feiticeiros que se apresentam como sacerdotes afro-brasileiros fazem questão de propagar. 

É amplo o espectro da contrapropaganda que vitimiza o Orixá mensageiro, contra o qual parece confluirem as mais diferentes dimensões do preconceito que envolve em nosso país os negros e a herança africana. De fato, em vários episódios de magia negra ocorridos recentemente no Brasil, com o assassinato de crianças e adultos, Exú e Pombagira têm sido apontados pela mídia como motivadores e promotores do ato criminoso. 

Num desses casos, ocorrido na década de 1980, no Rio de Janeiro, um comerciante foi morto a mando da mulher por causa de sua suposta impotência sexual. Depois de ter fracassada a aplicação de vários procedimentos mágicos supostamente recomendados por Pombagira, ela mesma teria sugerido o uso de arma de fogo para que a mulher se livrasse do incapaz e incômodo marido. Os implicados acabaram condenados, mas a própria Pombagira, em transe, acabou comparecendo à presença do juiz. E lá estavam todos os ingredientes que têm, por mais de dois séculos, alimentado a concepção demoníaca que se forjou de Exú entre nós: sexo, magia negra, atentado à vida, crime.

No interior do segmento afro-brasileiro, podemos contudo observar nos dias de hoje um movimento que encaminha Exú numa espécie de retorno aos seus papéis e status africanos tradicionais. Em terreiros de Candomblé que defendem ou reintroduzem concepções, mitologia e rituais buscados na tradição africana, tanto quanto possível, especialmente naqueles terreiros que têm lutado por abandonar o sincretismo católico, Exú é enfaticamente tratado como um Orixá igual aos demais, buscando-se apagar as conotações de Diabo, escravo e inimigo que lhe tem sido comumente atribuídas.

No Candomblé cada membro do culto deve ser iniciado para um Orixá específico, que é aquele considerado o seu antepassado mítico, sua origem de natureza divina. Os que eram identificados pelo jogo oracular dos búzios como filhos de Exú estavam sujeitos a ser reconhecidos como filhos do Diabo e, por isso, acabavam sendo iniciados para outro Orixá, especialmente para Ogum Xoroquê, uma qualidade de Ogum com profundas ligações com o Mensageiro. Até pouco tempo, eram raros e notórios os filhos de Exú iniciados para Exú. Isso vem mudando à medida que avança o movimento de dessincretização e já há filhos de Exú orgulhosos de sua origem.

Hoje em dia, em muitos terreiros de Candomblé, concepções e práticas católicas que foram incorporadas à religião dos Orixás em solo brasileiro vão sendo questionadas e deixadas de lado. Quando isso ocorre, Exú vai perdendo, dentro do mundo afro-brasileiro, a condição de Diabo que a visão maniqueísta do catolicismo a respeito do bem e do mal a ele impingiu, uma vez que foi exatamente a cristianização dos Orixás que transformou Oxalá em Jesus Cristo, Iemanjá em Nossa Senhora, outros Orixás em santos católicos, e Exú no Diabo.

Nesse processo de dessincretização, que é um dos aspectos do processo de africanização por que passa certo segmento do Candomblé, Exú tem alguma chance de voltar a ser simplesmente o Orixá Mensageiro que detém o poder da transformação e do movimento, que vive na estrada, freqüenta as encruzilhadas e guarda a porta das casas, Orixá controvertido e não domesticável, porém nem santo nem demônio.

Axé!

O TEXTO ACIMA É PARTE INTEGRANTE DE UMA PESQUISA REALIZADA PARA ELABORAÇÃO DE UMA APOSTILA, CRIADA POR JOÃO LUIZ - AUTORES: VÁRIOS



sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Origem e desenvolvimento histórico da Umbanda


"Em fins do Século XIX, existiam, no Rio de Janeiro, várias modalidades de cultos que denotavam, nitidamente, a origem africana, embora já bem distanciadas da crença trazida pelos escravos. A magia dos velhos africanos, transmitida oralmente, através de gerações, desvirtuara-se mesclada com as feitiçarias provindas de Portugal onde, existiram sempre os feitiços, as rezas e as superstições.

As “macumbas” – mistura de catolicismo, feiticismo  negro e crenças nativas – multiplicavam-se; tomou vulto a atividade remunerada do feiticeiro; o “trabalho feito” passou a ordem do dia, dando motivo a outro, para lhe destruir os efeitos maléficos; generalizaram-se os “despachos”, visando obter favores para uns e prejudicar terceiros; aves e animais eram sacrificados, com as mais diversas finalidades; exigiam-se objetos raros para homenagear entidades ou satisfazer elementos da baixo astral. Sempre porém, obedecendo aos objetivos primordiais: aumentar a renda do feiticeiro ou “derrubar” os que não se curvassem ante os seus poderes ou pretendessem fazer-lhe concorrência. 

Os Mentores do Astral Superior, porém, estavam atentos ao que se passava. Organizava-se um movimento destinado a combater a magia negativa que se propagava assustadoramente; cumpria atingir, de início, as classes humildes, mais sujeitas às influências do clima de superstições que reinava na época.
“Enquanto isto, no plano terreno surge, no ano de 1904, o livro Religiões do Rio, elaborado por "João do Rio", pseudônimo de Paulo Barreto, membro emérito da Academia Brasileira de Letras. No livro, o autor faz um estudo sério e inequívoco das religiões e seitas existentes no Rio de Janeiro, àquela época, capital federal e centro socio-político-cultural do Brasil. O escritor, no intuito de levar ao conhecimento da sociedade os vários segmentos de religiosidade que se desenvolviam no então Distrito Federal, percorreu igrejas, templos, terreiros de bruxaria, macumbas cariocas, sinagogas, entrevistando pessoas e testemunhando fatos. Não obstante tal obra ter sido pautada em profunda pesquisa, em nenhuma página desta respeitosa edição cita-se o vocábulo Umbanda, pois tal terminologia era desconhecida.”
Formaram-se então, as falanges de trabalhadores espirituais, que se apresentariam na forma de Caboclos e Pretos Velhos, para mais facilmente serem compreendidos  pelo povo. Nas sessões espíritas, porém, não foram aceitos: identificados sob essas formas, eram considerados espíritos atrasados e suas mensagens não mereciam nem mesmo uma análise. Acercaram-se também dos Candomblés e dos cultos então denominados “baixo espiritismo”, as macumbas. É provável que, nestes, como nos Batuques do Rio Grande do Sul, tenham encontrado acolhida, com a finalidade de serem aproveitados nos trabalhos de magia, como elementos novos no velho sistema de feitiçaria.

A situação permanecia inalterada, ao iniciar-se o ano de 1900...

As determinações do Plano Astral, porém, deveriam cumprir-se:

Em 15 de novembro de 1908, compareceu a uma sessão da Federação Espírita, em Niterói, então dirigida por José de Souza, um jovem de 17 anos de tradicional família fluminense. Chamava-se ZÉLIO FERNANDINO DE MORAES

Casa aonde foi fundada a Umbanda no Brasil, situada no número 30 da Rua Floriano Peixoto, em Neves, São Gonçalo. Demolida em 2011.

Restabelecera-se, no dia anterior, de moléstia cuja origem os médicos haviam tentado, em vão, identificar. Sua recuperação inesperada por um espírito causara enorme supressa. Nem os doutores que o assistiam nem os tios, sacerdotes católicos, haviam encontrado explicação plausível. A família atendeu, então, à sugestão de um amigo, que se ofereceu para acompanhar o jovem Zélio à Federação.

Zélio foi convidado a participar da Mesa. Zélio sentiu-se deslocado, constrangido, em meio àqueles senhores. E causou logo um pequeno tumulto. Sem saber por que, em dado momento, ele disse: “Falta uma flor nesta casa: vou buscá-la”. E, apesar da advertência de que não poderia afastar-se, levantou-se, foi ao jardim e voltou com uma flor que colocou no centro da mesa. Serenado o ambiente e iniciados os trabalhos, manifestaram-se espíritos que se diziam de índios e escravos. O dirigente advertiu-os para que se retirassem. 

Nesse momento, Zélio sentiu-se dominado por uma força estranha e ouviu sua própria voz indagar por que não eram aceitas as mensagens dos negros e dos índios e se eram eles considerados atrasados apenas pela cor e pela classe social que declinavam. Essa observação suscitou  quase um tumulto. Seguiu-se um diálogo acalorado, no qual os dirigentes dos trabalhos procuravam doutrinar o espírito desconhecido que se manifestava e mantinha argumentação segura. 

Afinal um dos videntes pediu que a entidade de identificasse, já que lhe aparecia envolta numa aura de luz. Se querem um nome – respondeu Zélio inteiramente mediunizado – que seja este: "eu sou o CABOCLO DAS SETE ENCRUZILHADAS, porque para min não haverá caminhos fechados."

E, prosseguindo, anunciou a missão que trazia: estabelecer as bases de um culto, no qual os espíritos de índios e escravos viriam cumprir as determinações do Astral. No dia seguinte, declarou ele, estaria na residência do médium, para fundar um templo, que simbolizasse a verdadeira igualdade que deve existir entre encarnados e desencarnados.

"Levarei daqui uma semente e vou plantá-la no bairro de Neves, onde ela se transformará em árvore frondosa." 

Centro Espírita Nossa Senhora da Piedade, em São Gonçalo, RJ. Local aonde foi fundada a Umbanda no Brasil, em 15 de novembro de 1908.

No dia seguinte, 16 de novembro de 1908, na residência da família do jovem médium, na Rua Floriano Peixoto, 30 em Neves, bairro de Niterói, a entidade manifestou-se pontualmente no horário previsto – 20 horas. Ali se encontravam quase todos os dirigentes da Federação Espírita, amigos da família, surpresos e incrédulos, e grande número de desconhecidos que ninguém poderia dizer como haviam tomado conhecimento do ocorrido. Alguns aleijados aproximaram-se da entidade, receberam passes e, ao final da reunião, estavam curados. Foi essa uma das primeira provas da presença de uma força superior.

Nessa reunião, o CABOCLO DAS SETE ENCRUZILHADAS estabeleceu as normas do culto, cuja prática seria denominada “sessão” e se realizaria à noite, das 20 às 22 horas, para atendimento público, totalmente gratuito, passes e recuperação de obsedados. O uniforme a ser usado pelos médiuns seria todo branco, de tecido simples. Não se permitiria retribuições financeiras pelo atendimento ou pelos trabalhos realizados. Os cânticos não seriam acompanhados de atabaques nem de palmas ritmadas.

A esse novo culto, que se alicerçava nessa noite, a entidade deu o nome de UMBANDA, e declarou fundado o primeiro templo para sua prática, com a denominação de tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, porque: “assim como Maria acolhe em seus braços o Filho, a Tenda acolheria os que a ela recorressem, nas horas de aflição”.

Através de Zélio manifestou-se, nessa mesma noite, um Preto Velho, Pai Antônio, para completar as curas de enfermos iniciadas pelo Caboclo. E foi ele quem ditou este ponto, hoje cantado no Brasil inteiro:

“Chegou, chegou, chegou com Deus,
Chegou, chegou, o Caboclo das sete Encruzilhadas”.

A partir desta data, a casa da família de Zélio tornou-se a meta enfermos, crentes, descrentes e curiosos. Os enfermos eram curados; os descrentes assistiam as provas irrefutáveis; os curiosos constatavam a presença de uma força superior; e os crentes aumentavam dia a dia.

Cinco anos mais tarde, manifestou-se o Orixá Malé, exclusivamente para a cura de obsedados e o combate aos trabalhos de magia negra.

Passados dez anos, o CABOCLO DAS SETE ENCRUZILHADAS anunciou a Segunda etapa de sua missão: a fundação de sete templos, que deveriam constituir o núcleo central para a difusão da UMBANDA.

A Tenda da Piedade trabalha ativamente, produzindo curas, principalmente a recuperação de obsedados, considerados loucos, na época. Já então se contavam às centenas as curas realizadas pela entidade, comentadas em todo o Estado e confirmadas pelos próprios médicos, que recorriam a Tenda, em busca da cura dos seus doentes. E o Caboclo indicava, nas relações que lhe apresentavam com nome dos enfermos, os que poderia curar: eram os obsedados, portadores de moléstias de origem psíquica; os outros, dizia ele, competia à medicina curá-los. 


Zélio, já então casado, por determinação da entidade, recolhia os enfermos mais necessitados em sua residência, até o término do tratamento astral. E muitas vezes, as filhas, Zélia e Zilmeia, crianças ainda, cediam o seu aposento e dormiam em esteiras, para que os doentes fixassem bem acomodados.


Nas reuniões de estudo que se realizavam às quintas-feiras, a entidade preparava os médiuns que seriam indicados, posteriormente, para dirigir os novos templos. Fundaram-se, as Tendas Nossa Senhora da Guia, Nossa Senhora da Conceição, Santa Bárbara, São Pedro, Oxalá, São Jorge e São Jerônimo.

Pouco depois, a UMBANDA começou a expandir-se pelos Estados. Em São Paulo, fundaram-se, na Capital, 23 tendas e 19 em Santos. E, a seguir, em Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Paraná. Em Belém, fundou-se a Tenda Mirim de São Benedito.

Confirmava-se a frase pronunciada na Federação Espírita: “Levarei daqui uma semente e vou plantá-la no bairro de Neves, onde ela se transformará em árvore frondosa”.

Em 1937, os templos fundados pelo CABOCLO DAS SETE ENCRUZILHADAS  reuniram-se, criando a Federação Espírita de Umbanda do Brasil, posteriormente denominada União Espiritualista de Umbanda do Brasil. E em 1947, surgiu o JORNAL DE UMBANDA que, durante mais de vinte anos, foi um órgão doutrinário de grande valor. Zélio de Moraes instalou federações umbandistas em São Paulo e Minas Gerais.

SEUS PRINCIPAIS ACONTECIMENTOS:

- 15 de novembro de 1908 – Zélio de Moraes, então com dezessete anos, mediunizado com uma entidade que deu o nome de Caboclo das Sete Encruzilhadas, funda, em Neves, subúrbio de Niterói, o primeiro terreiro de Umbanda. Usa pelo primeira vez o vocábulo UMBANDA, e define o movimento religioso como: “Uma manifestação do espírito para a caridade”.

- Novembro de 1918 – O Caboclo das Sete Encruzilhadas dá início à fundação de sete Tendas de Umbanda. Todas as Tendas foram fundadas no Rio de Janeiro.

- Ano de 1920 – A Umbanda espalha-se pelos Estados de São Paulo, Pará e Minas Gerais. 

- Em 1926 chega ao Rio Grande do Sul e em 1932 em Porto Alegre.

- Ano de 1939 – Os Templos fundados pelo Caboclo das Sete encruzilhadas reuniram-se, criando a federação Espírita de Umbanda do Brasil, posteriormente denominada União Espiritualista de Umbanda do Brasil, incorporando dezenas de outros terreiros fundados por inspiração de “entidades” de Umbanda que trabalhavam ativamente no astral sob a orientação do fundador da Umbanda.

- Outubro de 1941 – Reúne-se o Primeiro Congresso de Espiritismo de Umbanda. Outros Congressos havido posteriormente retiraram acertadamente o nome espiritismo que, de fato, pertence aos espíritas brasileiros, os quais seguem a respeitável doutrina codificada por Alan Kardec. Em suma, o espírita pratica o espiritismo; na Umbanda pratica-se o Umbandismo.

- Dia 12 de setembro de 1971 – Criado na cidade do Rio de Janeiro o primeiro organismo de caráter nacional. Tomou nome de CONDU – Conselho Nacional Deliberativo de Umbanda – que contam-se atualmente mais de 46 Federações, de norte a sul do país, reunindo representantes de mais de 40.000 Terreiros de Umbanda.

- Novembro de 1978 – Surge o livro Fundamentos de Umbanda, Revelação Religiosa – portador de mensagens do astral, trazendo, por fim, após 70 anos de existência da Umbanda, as bases teológicas e norteadoras da doutrina umbandista, com fundamentos integrais da nova religião e sua verdadeira origem. O livro expõe a estrutura básica do movimento religioso, no sentido de elevar a Umbanda à justa posição de RELIGIÃO eminentemente brasileira.

- Decorridos setenta anos de existência da Umbanda no Brasil, compreendidos entre 1098 / 1978, passou este curto espaço de tempo, porém significativo, a ser conhecido entre os estudiosos da causa como Período - Propagação da única e genuína força de credo, nascido neste século, em terras brasileiras.

Certamente que Zélio de Moraes, famoso médium já desencarnado, não iria supor que passadas menos de seis décadas, aquela crença, nascida no modesto bairro de Neves, fosse classificada, entre as religiões existentes, como a Segunda do país, comportando mais de vinte milhões de seguidores, num crescendo espantoso de fiéis, apesar das perseguições policiais a que foi submetida, das intrigas da religião majoritária, além do completo descaso de todos os governos até a data atual, mesmo tratando-se de uma preferência natural, espontânea, de mais de um sexto da população. 

Hoje, o movimento mágico e religioso da Umbanda estende-se por todo o Brasil, professado como pobreza e humildade, sem proselitismo, sem explorações na magra bolsa do povo, sem  dízimo compulsórios, mistérios mistificantes e regular envio a “royalties da fé” para o exterior.

Embora a Umbanda se apresente, muitas vezes, uma tanto desfigurada, com nuanças religiosas, reconhecemos que isso decorre desse período-propagação, no afã de conquistar almas, ainda que respeitando ambientes regionais. E nunca deixou, através das verdadeiras guias, de oferecer amparo prático, ajuda, orientação e, sobretudo, de inspirar o desejo de reascendimento dos corações que dela se socorrem, apontando sempre a eterna chama da esperança de dias melhores, calcados, naturalmente, na ação correta de cada instante, na cordura, no companheirismo e na fraternidade.

Os mentores da Umbanda, sediados na Aruanda (cidade localizada no plano astral), já determinaram sabiamente o procedimento normativo, religioso para os setenta anos vindouros, 1979/2049, como sendo o período de Afirmação Doutrinária. Obviamente, a doutrina de Umbanda ficará como ponto essencial para a estabilidade e perpetuação desse movimento, na forma digna, ensejada pelo estudo constante, a par do esforço sincero de cada devoto, no sentido de conduzir a Umbanda, no plano físico, a um merecido status de religião organizada, a serviço da comunidade religiosa nacional.

No imenso campo místico da nossa terra, onde proliferam, abundantemente, conceituações religiosas diversas, algumas das quais exóticas, cheias de superstições, interpretações confusas e duvidosas, mercantilismo, fanatismo, mistificações, “curas divinas” e desonesto profissionalismo pastoral, a Umbanda, sobranceira, erguerá seu edifício religioso, tendo como obreiros da primeira e da undécima hora, devotos excepcionais, médiuns sinceros, babalorixás e ialorixás honestos que, há muito, já assumiram posição na hierarquia de responsabilidade e trabalho, côncios de que a quantidade será relegada a segundo plano, em proveito da qualidade, e convictos de que, em matéria doutrinária, não pode nem deve haver transigências oportunistas, confirmando-se, desse modo, que “Umbanda é coisa séria para gente séria".

Umbanda, sendo a única religião criada no Brasil, não pode ser dividida. Quem tiver esta pretensão cairá no ridículo. A nossa religião deve ser tratada com todo carinho, amor, serenidade e estudo, sobretudo com a renovação de caráter dos que a professam para que a mesma possa espelhar a grandeza de sua doutrina. A Umbanda se sente desmerecida com o tratamento que lhe dispensam boa parte de terreiros onde se vê mais animismo do que mediunismo; mais interesses cúpidos do que magias; mais deslealdades do que autenticidades; mais personalismo do que espiritismo.

O sacrifício de animais (oferenda de sangue) nunca foi, não é e nem será ritual de Umbanda. Não cobrar, não matar, usar o branco, evangelizar e utilizar as forças da natureza são rituais de Umbanda. Portanto, podemos afirmar que a Umbanda é produto da evolução espiritual ou religiosa. Suas origens estão contidas nas filosofias orientais, fonte inicial de todos os cultos do mundo civilizado, que implantada em nossa terra, reuniu-se as práticas dos conceitos e crenças do índio, branco e negro.

Cavalcante Bandeira reporta-se aos mestres do idioma africano, citando o vocábulo umbanda como: “Arte de curar”, “Magia”, “Faculdade de curar por meio da medicina natural ou sobrenatural”; ou ainda “Os sortilégios que, segundo se presume, estabelecem e determinam a ligação entre os espíritos e o mundo físico”. O vocábulo “Umbanda” só pode ser identificado dentro das qualificadas línguas mortas. Todavia, entre os angolenses existe o termo “Quimbanda”, que significa “sacerdote, invocador de espíritos”, firmado no radical  mbanda , conservado através de milênios, legado de tradição oral da raça africana, o qual é uma corruptela do original u-banda ou aum-bandhã.
“Toda essa complexa Mistura, que o leigo chama de macumba, baixo espiritismo, magia negra, envolvendo práticas fetichistas e barulhentas... era a situação existente, quando surgiu um vigoroso movimento de luz, ordenado pelo astral superior, feito pelos espíritos que se apresentavam como Caboclos, Pretos Velhos e Crianças. Surgiram práticas as mais confusas e desordenadas, envolvendo oferendas com sacrifício de animais, sangue, etc., e por isso tudo fez-se imprescindível um novo movimento dentro desses cultos ou de sua massa de adeptos, feito pelos espíritos carminantes afins a essa massa e pelos que, dentro de afinidades mais elevadas, se aplicam no amor e na renúncia em prol da evolução de seus semelhantes, o qual foi lançado através da mediunidade de uns e outros pelos Caboclos e Pretos Velhos, com o nome de Umbanda. O termo umbanda que eles implantaram no meio para servir de bandeira a essa poderosa corrente (ensinaram que) é um termo litúrgico, sagrado, vibrado, que significa, num sentido mais profundo, o conjunto das leis de Deus”.
A Umbanda é um “movimento mágico religioso”, genuinamente brasileiro, e a sua finalidade primordial como religião é a de despertar anseios de espiritualidade na criatura humana. Para que esse despertamento se faça, torna-se necessário um permanente estado de religiosidade, onde toda vivência é baseada na compreensão e plena sensibilidade (não sentimentalismo), para com tudo e todos que nos cercam e compõem a humanidade.

A Umbanda é uma doutrina espiritualista como o Espiritismo, o Catolicismo, o Esoterismo, etc... o que não impede de haver entre elas diferenças essenciais que lhe dão características próprias. É resultante natural da fusão espiritual das raças branca, índia e negra.

Sua lei principal é resumida numa só palavra: CARIDADE – no sentido do amor fraterno em benefício dos seus irmãos encarnados, qualquer que fosse a cor, a raça, o credo e a condição social, não podendo haver ambicioso, vaidoso, mistificadores, pois estes, mais cedo ou mais tarde, são afastados da Umbanda pelos espíritos de luz.

Seu Mestre Supremo: JESUS (Filho de Deus)

Suas Normas: Sessões – Assim se chamariam os períodos de trabalhos espirituais;

Vestes – Os participantes estariam uniformizados de Branco

Sacrifícios – Os sacrifícios de aves e animais é totalmente alheio à Umbanda;

Fundamento básico – É a crença ou culto aos espíritos evoluídos;

Atendimento – GRATUITO

Origem da palavra "UMBANDA"


Oriunda do Sânscrito (a mais antiga língua da Terra-raiz mestra dos demais idiomas existentes no mundo), que se pode traduzir por “DEUS AO NOSSO LADO” ou “O LADO DE DEUS”.

ou

UM – Deus (único) – Deus, o supremo espírito.
BANDA – Povo da Terra – Grupo ou Facção."

Fonte:
Texto de Solano de Oxalá e Maria de Omolu; enviado a nós por Maria das Graças (Maria de Omolu) e todos os documentos relativos a este texto encontram-se na:
CASA BRANCA DE OXALÁ TEMPLO UMBANDISTA
Rua Barbacena, 35 – Lagoa Santa – Minas Gerais CEP 33400-000




quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Intolerância Religiosa

Professor processa livraria e cliente por intolerância religiosa no Rio

via Agência Brasil (EBC)



"O professor de sociologia do Instituto Federal de Educação da Bahia Leonardo Rangel processou a Livraria Vozes, no Rio de Janeiro, e uma cliente do estabelecimento por intolerância religiosa que sofreu dentro da livraria, na Rua Gonçalves Dias, no centro, na sexta-feira passada (2).

Em viagem a trabalho na capital fluminense, o professor baiano lamentou ter sido vítima desse tipo de crime em uma cidade que considera a “mais linda do mundo, com pessoas hospitaleiras e acolhedoras”. Rangel contou que estava na livraria quando uma senhora começou a agredi-lo ao descobrir que era candomblecista. 

“Quando viu minha conta de Ogum no pescoço, ela disse: 'cruz-credo' e saiu de perto de mim. Mas continuou falando por uns 10 minutos que esta religião não prestava, que era coisa do diabo”, contou ele.

Rangel disse que nunca tinha sofrido esse tipo de preconceito e que ficou quieto esperando para pagar o livro que tinha escolhido. "Finalmente, ela disse que gente como eu deveria ser proibida de entrar na loja. Vá ao lugar onde eles ficam para ver como será tratada”, narrou a vítima. 

O professor ressaltou ter informado à senhora que intolerância religiosa é crime. “Ela debochou dizendo que estava morrendo de medo e até tremendo”. 

Leonardo Rangel  destacou que os funcionários da livraria pareciam conhecer a cliente, que os tratava com intimidade, e que em nenhum momento ela foi interpelada por alguém do estabelecimento para que parasse com as agressões. 

Segundo o professor, a decisão de denunciar o crime às autoridades não foi fácil. “No dia, fiquei sem reação. Só fiz o boletim de ocorrência no dia seguinte. Sou tímido, resguardado, mas não poderia me calar."

No sábado (3), ele procurou o advogado Hélio Silva, especialista nesse tipo de crime. Silva solicitou judicialmente que a agressora seja responsabilizada na área penal e que a Livraria Vozes seja cobrada administrativamente, com pedido de cassação do alvará de funcionamento, com base na Lei Estadual 6.483/13, e na área cível, com pedido de indenização por danos morais.

A Polícia vai tentar identificar a cliente acusada de agressão examinando imagens das câmeras de segurança da livraria.

Leonardo espera que seu ato sirva de exemplo para outras vítimas de intolerância religiosa e que as denúncias ajudem a inibir esse tipo de crime. “A intolerância tem crescido muito, inclusive, contra as religiões de matriz afro-brasileira. Se me calasse, estaria compactuando com isso. Estou fazendo minha função social enquanto educador, enquanto adepto do candomblé, e espero que a justiça seja feita para que os culpados arquem com as consequências do crime que cometeram.”

A assessoria de imprensa da Editora Vozes lamentou que o caso tenha ocorrido em loja da empresa, e informou que tomará as devidas providências. “Reforçamos que o nosso trabalho vem sendo pautado pelos propósitos e valores expressos em nossa missão e todos os nossos produtos e serviços estão coerentes com a mesma”, diz a nota de posicionamento da Vozes."

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Cavalo de Santo: Religiões afro-gaúchas

FICHTNER, Mirian. Cavalo de Santo: religiões afro-gaúchas. Porto Alegre, 2010. 168 p.
Mauro Dillmann Tavares*, I; Fernando RipeII / IUniversidade do Vale do Rio dos Sinos - Brasil  / IIMestre em Educação - Brasil



O trabalho da fotógrafa brasileira Mirian Fichtner, que ora se apresenta, demonstra grande sensibilidade desta gaúcha que se dedicou a registrar as religiões de matriz africana do seu estado, num tempo em que a liberdade de expressão religiosa se afirma cada vez mais, embora a intolerância ainda seja uma realidade perceptível em nossa sociedade.

O livro, cuja edição independente recebeu o patrocínio da Fundação Cultural Palmares e do Ministério da Cultura, do governo federal, foi publicado em 2010, depois de quatro anos de trabalho fotográfico, percorrendo em torno de cem terreiros no Rio Grande do Sul, visitando cerca de 30 casas e escolhendo 13 para documentar.


A motivação para a fotógrafa foi o expressivo índice da crença religiosa afro-brasileira apontada pelo Censo 2000, que indicava o Rio Grande do Sul como tendo o maior número de seguidores: 1,62%. Mirian confessou sua perplexidade com esses dados, devido à "invisibilidade" e o "ineditismo do assunto" (p. 29).

A beleza da publicação inicia-se pelo excelente trabalho gráfico; encadernado e com papel de boa qualidade, o livro traz todos os seus escritos também em inglês, assumindo a forma bilíngue, de tal modo a possibilitar um maior alcance social.

Ao apresentar a obra, o antropólogo Ari Pedro Oro explica o título:

As religiões afro-gaúchas [...] são religiões de possessão, isto é, por ocasião das cerimônias, certos indivíduos, em estado de transe, são "possuídos" pelas entidades espirituais, as quais, segundo a terminologia nativa, "se ocupam" da pessoa, em cujo corpo podem cavalgar. Assim, o corpo do iniciado se torna o "cavalo de santo". (p. 25).

A seleção das imagens, resultado do trabalho de escolha pessoal da autora, demonstra plenamente que Mirian não apenas viu, mas experienciou o olhar para as manifestações religiosas que se propôs a fotografar. O olhar, muito mais complexo que o ver, percebe, interpreta, indaga. (Cardoso, 1988). Seu trabalho, a construção imagética, é uma representação que está diretamente relacionada com a subjetividade desse olhar.


O livro apresenta 153 fotografias reveladoras desse olhar da fotógrafa, carregado da sua impressão sobre o "outro", e que revelam também sobre ela própria, sobre o seu contexto e sobre o lugar de onde fotografava. 

Revela a sensibilidade e o envolvimento da artista com seu trabalho, apresenta a força e o vigor das manifestações religiosas africanistas na contemporaneidade e a observação atenta de quem está do lado de fora, de quem tem expectativas com o diferente, com o surpreendente. Suas imagens demonstram um verdadeiro exercício do "olhar", da investigação e da busca da compreensão do "outro".

As manifestações de fé das religiões de matriz africana são o foco da autora, entre elas a umbanda e o batuque (nome dado ao culto aos orixás, chamado de candomblé em outras partes do Brasil, porém com características ritualísticas próprias). Documentar visualmente o sagrado como um forte elemento cultural dos gaúchos e destacar o protagonismo dos religiosos na preservação da sua fé, que é baseada na oralidade e na tradição, parece ter sido um dos objetivos marcantes do trabalho de Mirian.


O trabalho vem contribuir com os poucos estudos dedicados às expressões religiosas africanas no Rio Grande do Sul. As fotografias são devidamente identificadas com legendas ao final do livro, tornando-se fontes de referência e estudo para os interessados na temática.

O livro traz imagens da ritualística, de oferendas, de danças, de objetos sagrados, de apresentações públicas, de festas populares, de espaços considerados sagrados ou sacralizados, de devotos e iniciados, de religiosos "incorporados" e/ou "ocupados", todos, devidamente legendados no "índice de fotos" ao final da obra. 


Mirian traz um glossário, explicando temas como "axé", designado como "poder de realização e transformação ligados aos orixás", até "yorubá", sendo "língua africana oriunda da Nigéria" (p. 160). Por tudo, a obra além de dar visibilidade ao culto afro e aos religiosos, também divulga as manifestações de fé e contribui no combate ao preconceito, ainda existente, sobre essas práticas religiosas.

Com retratos da sensibilidade religiosa, da emoção, do instante de vivências e experiências sagradas, o livro desmistifica e traz imagens da naturalidade dos instantes da ritualística e da magia, das demonstrações públicas e privadas de sentimentos.

O registro dos instantes mágicos, de transe mediúnico, de reverência ao sagrado, de preparação de oferendas e objetos para o domínio religioso e da relação do corpo com o sacrifício de animais contribui para divulgar e para dar a conhecer religiões por muito tempo relegadas socialmente e pejorativamente denominadas, no Rio Grande do Sul, como "macumbas".

O culto, a veneração, a fé, a afeição são registrados por Mirian nas imagens que demonstram as ferramentas de orixás, a culinária africanista e, também, no ritual de entrega de axés. Destacam-se, igualmente, aquelas que mostram a prática do sacrifício de animais sobre a cabeça do "filho de santo", ao realizar "bori" para seu orixá.


Essa intenção de captar a devoção é nítida nas fotografias de Mirian, tanto que o jornal Zero Hora de 16 de abril de 2011, com uma reportagem sob o título "Viagem aos terreiros da querência" (Wagner, 2011), destacou: 
"Ao folhear o livro, o leitor é conduzido para dentro de uma casa de religião." 
É interessante pensar que o leitor é conduzido não apenas para a casa de religião, mas também para todo o universo simbólico das religiões afro-gaúchas.

Dividido em quatro capítulos, "Nação batuque", "Caboclos e pretos-velhos", "Ciganos, exus e pombagiras" e "Festas populares", o livro mostra a dinamicidade cultural dessas religiosidades, as zonas de contato, os encontros culturais, as relações interativas e a originalidade do resultado.

Como o sincretismo - santos católicos que representam orixás, a especificidade local e cultural como a costela assada no espeto servindo como oferenda para Ogum, a imagem de Nossa Senhora da Conceição representando Oxum e o registro do encontro de padres católicos e tamboreiros (alabês) são exemplos de imagens que carregam marcas de construção religiosa em fronteiras culturais diversas.


Envolvida com seu trabalho, Mirian assume uma postura de crença, tamanho o fascínio com seu objeto de estudo artístico: dedica o livro a "todos os orixás e entidades que nos guiaram". Ao destacar o plural, "nos guiaram", a fotógrafa divide e compartilha o seu trabalho com seu parceiro Carlos Caramez e com "uma equipe de produção solidária com os objetivos do projeto" (p. 29).

No dizer do antropólogo Ari Pedro Oro, além de Mirian assinalar visualmente aspectos das religiões afro-gaúchas, capta e evidencia sua dimensão estética, a união do belo e do sagrado (p. 27). De fato, não se pode deixar de destacar a qualidade do trabalho técnico da fotógrafa. Ao olhar atento e sensível de Mirian, aliaram-se suas capacidades de perita em cores, luzes e sombras.

O objetivo da fotógrafa era "realizar um trabalho autoral com olhar em profundidade" (p. 29). Para além do que é simplesmente visto, parece que Mirian alcançou o seu intento, olhou bem, viu o novo e traduziu em imagens bem tratadas em iluminação e composição, dando visibilidade a um aspecto da cultura gaúcha até então invisibilizado.


Referências

CARDOSO, S. O olhar viajante (do etnólogo). In: NOVAES, A. (Org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 347-360.   
WAGNER, C. Viagem aos terreiros da querência. Zero Hora, 16 abr. 2011. Disponível em: <http://zerohora.clicrbs.com.br/especial/rs/segundocaderno/19,1030,3277686,Viagem-aos-terreiros-da-querencia.html>. Acesso em: 20 abr. 2011.  

Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-71832012000100024&script=sci_arttext
Fotos: Google Image




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