Há coisas que a vida nos dá para serem vividas, compartilhadas e transformadas — não para serem acumuladas. Uma reflexão antiga sobre riqueza, excesso e o verdadeiro sentido da abundância
Há uma imagem muito bonita — e ao mesmo tempo incômoda — nesta página de Nossas Forças Mentais: a de um rio que resolvesse guardar para si tudo aquilo que recebe.
Imagine um rio recebendo água, nutrientes e todos os elementos necessários para alimentar a terra, mas decidindo não entregar nada às suas margens. Guardando tudo. Entesourando tudo.
O que aconteceria?
Em vez de vida, haveria esterilidade.
Em vez de campos verdes, haveria terra seca.
A comparação proposta pelo livro vai muito além do dinheiro. Ela fala de uma tendência humana que, muitas vezes, nem percebemos: queremos possuir até aquilo que só existe para circular.
Guardamos sentimentos.
Guardamos palavras.
Guardamos conhecimento.
Guardamos dinheiro, objetos, experiências e até afeto.
Às vezes, guardamos tanto que aquilo que deveria nos alimentar começa, paradoxalmente, a nos pesar.
A natureza não acumula sem propósito
A planta retira do ar, da água e da terra aquilo de que precisa para viver. Ela não tenta possuir o vento. Não tenta aprisionar a chuva. Não tenta guardar indefinidamente a luz do sol.
Ela recebe.
Transforma.
E devolve.
É justamente essa circulação que mantém a vida.
Talvez exista aí uma pequena lição espiritual para nós.
A abundância não significa simplesmente ter mais.
Pode significar também saber fazer circular aquilo que recebemos.
Um conhecimento que não compartilhamos permanece limitado.
Um carinho que nunca demonstramos não chega ao outro.
Um talento que escondemos não cumpre sua finalidade.
E até mesmo uma riqueza material que permanece eternamente parada pode perder sua função.
O excesso também pode adoecer
O texto traz outra imagem poderosa: a planta que recebe fertilizante em excesso e, justamente por isso, acaba sendo destruída.
É uma metáfora que atravessa o tempo.
Nem sempre aquilo que parece ser bom em maior quantidade continuará sendo bom.
Existe um momento em que o excesso deixa de alimentar e começa a sufocar.
Na vida espiritual, isso também pode acontecer.
Excesso de apego.
Excesso de preocupação.
Excesso de controle.
Excesso de desejo.
Excesso de necessidade de possuir.
Talvez a sabedoria esteja menos em acumular e mais em reconhecer quanto realmente precisamos.
O que a vida nos empresta
A passagem fala também sobre a traça e a ferrugem, interpretando até mesmo a deterioração das coisas como parte de um processo maior de transformação.
É uma maneira antiga de olhar para aquilo que perdemos.
Nem tudo que desaparece é necessariamente um fracasso.
Algumas coisas precisam terminar para que outras possam começar.
Algumas riquezas precisam mudar de mãos.
Algumas experiências precisam ser encerradas.
Alguns ciclos precisam se decompor para que deles surja algo novo.
A natureza faz isso o tempo inteiro.
Nada permanece exatamente igual.
Tudo circula.
Tudo se transforma.
Talvez nós também precisemos aprender a confiar um pouco mais nesse movimento.
A verdadeira abundância
No fundo, a reflexão deixada por esta antiga página parece nos fazer uma pergunta muito simples:
O que estamos fazendo com aquilo que a vida colocou em nossas mãos?
Estamos usando?
Estamos compartilhando?
Estamos transformando?
Ou estamos apenas guardando?
Porque talvez a verdadeira pobreza não seja ter pouco.
Talvez seja possuir muito e, ainda assim, não permitir que nada daquilo produza vida.
Que possamos aprender com o rio, com a planta, com a terra e com o próprio movimento da natureza.
Receber sem apego.
Usar sem abuso.
Guardar apenas o necessário.
E, principalmente, deixar circular o bem que recebemos.
Porque aquilo que realmente tem valor talvez não seja o que conseguimos acumular ao longo da vida, mas aquilo que, passando por nossas mãos, conseguiu tornar a vida de alguém um pouco melhor.
Fonte: Nossas Forças Mentais, vol. 2, p. 99. Trecho utilizado como referência para esta reflexão.
Uma reflexão do Orações e Magia sobre espiritualidade, consciência e os ensinamentos que atravessam o tempo.

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