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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Cavalo de Santo: Religiões afro-gaúchas

FICHTNER, Mirian. Cavalo de Santo: religiões afro-gaúchas. Porto Alegre, 2010. 168 p.
Mauro Dillmann Tavares*, I; Fernando RipeII / IUniversidade do Vale do Rio dos Sinos - Brasil  / IIMestre em Educação - Brasil



O trabalho da fotógrafa brasileira Mirian Fichtner, que ora se apresenta, demonstra grande sensibilidade desta gaúcha que se dedicou a registrar as religiões de matriz africana do seu estado, num tempo em que a liberdade de expressão religiosa se afirma cada vez mais, embora a intolerância ainda seja uma realidade perceptível em nossa sociedade.

O livro, cuja edição independente recebeu o patrocínio da Fundação Cultural Palmares e do Ministério da Cultura, do governo federal, foi publicado em 2010, depois de quatro anos de trabalho fotográfico, percorrendo em torno de cem terreiros no Rio Grande do Sul, visitando cerca de 30 casas e escolhendo 13 para documentar.


A motivação para a fotógrafa foi o expressivo índice da crença religiosa afro-brasileira apontada pelo Censo 2000, que indicava o Rio Grande do Sul como tendo o maior número de seguidores: 1,62%. Mirian confessou sua perplexidade com esses dados, devido à "invisibilidade" e o "ineditismo do assunto" (p. 29).

A beleza da publicação inicia-se pelo excelente trabalho gráfico; encadernado e com papel de boa qualidade, o livro traz todos os seus escritos também em inglês, assumindo a forma bilíngue, de tal modo a possibilitar um maior alcance social.

Ao apresentar a obra, o antropólogo Ari Pedro Oro explica o título:

As religiões afro-gaúchas [...] são religiões de possessão, isto é, por ocasião das cerimônias, certos indivíduos, em estado de transe, são "possuídos" pelas entidades espirituais, as quais, segundo a terminologia nativa, "se ocupam" da pessoa, em cujo corpo podem cavalgar. Assim, o corpo do iniciado se torna o "cavalo de santo". (p. 25).

A seleção das imagens, resultado do trabalho de escolha pessoal da autora, demonstra plenamente que Mirian não apenas viu, mas experienciou o olhar para as manifestações religiosas que se propôs a fotografar. O olhar, muito mais complexo que o ver, percebe, interpreta, indaga. (Cardoso, 1988). Seu trabalho, a construção imagética, é uma representação que está diretamente relacionada com a subjetividade desse olhar.


O livro apresenta 153 fotografias reveladoras desse olhar da fotógrafa, carregado da sua impressão sobre o "outro", e que revelam também sobre ela própria, sobre o seu contexto e sobre o lugar de onde fotografava. 

Revela a sensibilidade e o envolvimento da artista com seu trabalho, apresenta a força e o vigor das manifestações religiosas africanistas na contemporaneidade e a observação atenta de quem está do lado de fora, de quem tem expectativas com o diferente, com o surpreendente. Suas imagens demonstram um verdadeiro exercício do "olhar", da investigação e da busca da compreensão do "outro".

As manifestações de fé das religiões de matriz africana são o foco da autora, entre elas a umbanda e o batuque (nome dado ao culto aos orixás, chamado de candomblé em outras partes do Brasil, porém com características ritualísticas próprias). Documentar visualmente o sagrado como um forte elemento cultural dos gaúchos e destacar o protagonismo dos religiosos na preservação da sua fé, que é baseada na oralidade e na tradição, parece ter sido um dos objetivos marcantes do trabalho de Mirian.


O trabalho vem contribuir com os poucos estudos dedicados às expressões religiosas africanas no Rio Grande do Sul. As fotografias são devidamente identificadas com legendas ao final do livro, tornando-se fontes de referência e estudo para os interessados na temática.

O livro traz imagens da ritualística, de oferendas, de danças, de objetos sagrados, de apresentações públicas, de festas populares, de espaços considerados sagrados ou sacralizados, de devotos e iniciados, de religiosos "incorporados" e/ou "ocupados", todos, devidamente legendados no "índice de fotos" ao final da obra. 


Mirian traz um glossário, explicando temas como "axé", designado como "poder de realização e transformação ligados aos orixás", até "yorubá", sendo "língua africana oriunda da Nigéria" (p. 160). Por tudo, a obra além de dar visibilidade ao culto afro e aos religiosos, também divulga as manifestações de fé e contribui no combate ao preconceito, ainda existente, sobre essas práticas religiosas.

Com retratos da sensibilidade religiosa, da emoção, do instante de vivências e experiências sagradas, o livro desmistifica e traz imagens da naturalidade dos instantes da ritualística e da magia, das demonstrações públicas e privadas de sentimentos.

O registro dos instantes mágicos, de transe mediúnico, de reverência ao sagrado, de preparação de oferendas e objetos para o domínio religioso e da relação do corpo com o sacrifício de animais contribui para divulgar e para dar a conhecer religiões por muito tempo relegadas socialmente e pejorativamente denominadas, no Rio Grande do Sul, como "macumbas".

O culto, a veneração, a fé, a afeição são registrados por Mirian nas imagens que demonstram as ferramentas de orixás, a culinária africanista e, também, no ritual de entrega de axés. Destacam-se, igualmente, aquelas que mostram a prática do sacrifício de animais sobre a cabeça do "filho de santo", ao realizar "bori" para seu orixá.


Essa intenção de captar a devoção é nítida nas fotografias de Mirian, tanto que o jornal Zero Hora de 16 de abril de 2011, com uma reportagem sob o título "Viagem aos terreiros da querência" (Wagner, 2011), destacou: 
"Ao folhear o livro, o leitor é conduzido para dentro de uma casa de religião." 
É interessante pensar que o leitor é conduzido não apenas para a casa de religião, mas também para todo o universo simbólico das religiões afro-gaúchas.

Dividido em quatro capítulos, "Nação batuque", "Caboclos e pretos-velhos", "Ciganos, exus e pombagiras" e "Festas populares", o livro mostra a dinamicidade cultural dessas religiosidades, as zonas de contato, os encontros culturais, as relações interativas e a originalidade do resultado.

Como o sincretismo - santos católicos que representam orixás, a especificidade local e cultural como a costela assada no espeto servindo como oferenda para Ogum, a imagem de Nossa Senhora da Conceição representando Oxum e o registro do encontro de padres católicos e tamboreiros (alabês) são exemplos de imagens que carregam marcas de construção religiosa em fronteiras culturais diversas.


Envolvida com seu trabalho, Mirian assume uma postura de crença, tamanho o fascínio com seu objeto de estudo artístico: dedica o livro a "todos os orixás e entidades que nos guiaram". Ao destacar o plural, "nos guiaram", a fotógrafa divide e compartilha o seu trabalho com seu parceiro Carlos Caramez e com "uma equipe de produção solidária com os objetivos do projeto" (p. 29).

No dizer do antropólogo Ari Pedro Oro, além de Mirian assinalar visualmente aspectos das religiões afro-gaúchas, capta e evidencia sua dimensão estética, a união do belo e do sagrado (p. 27). De fato, não se pode deixar de destacar a qualidade do trabalho técnico da fotógrafa. Ao olhar atento e sensível de Mirian, aliaram-se suas capacidades de perita em cores, luzes e sombras.

O objetivo da fotógrafa era "realizar um trabalho autoral com olhar em profundidade" (p. 29). Para além do que é simplesmente visto, parece que Mirian alcançou o seu intento, olhou bem, viu o novo e traduziu em imagens bem tratadas em iluminação e composição, dando visibilidade a um aspecto da cultura gaúcha até então invisibilizado.


Referências

CARDOSO, S. O olhar viajante (do etnólogo). In: NOVAES, A. (Org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 347-360.   
WAGNER, C. Viagem aos terreiros da querência. Zero Hora, 16 abr. 2011. Disponível em: <http://zerohora.clicrbs.com.br/especial/rs/segundocaderno/19,1030,3277686,Viagem-aos-terreiros-da-querencia.html>. Acesso em: 20 abr. 2011.  

Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-71832012000100024&script=sci_arttext
Fotos: Google Image




sábado, 5 de abril de 2014

SARAVÁ SEO OGUM ONIRÉ!!!

Ogum Oniré é o título de Ogum filho de Oniré, quando passou a reinar em Ire, Oni = senhor, Ire = aldeia., o dono de Iré, primeiro filho de Odúduwà. 

Oniré é um Ogum antigo que desapareceu debaixo da terra. Usa também contas verdes. Guerreiro impulsivo é o cortador de cabeças, ligado à morte e aos antepassados; orgulhoso, muito impaciente, arrebatado, não pensa antes de agir, mas acalma-se rapidamente. 

Lenda de Ogum Oniré 

Ogum lutava sem cessar contra os reinos vizinhos. Ele trazia sempre um rico espólio em suas expedições, além de numerosos escravos. Todos estes bens conquistados, ele entregava a Odúduwà, seu pai, rei de Ifé. Ogum continuou suas guerras. Durante uma delas, ele tomou Irê. Antigamente, esta cidade era formada por sete aldeias. Por isto chamam-no, ainda hoje, Ogum Mejejê Lodê Irê - "Ogum das sete partes de Irê". 

Ogum matou o rei, Onirê e o substituiu pelo próprio filho, conservando para si o título de Rei. Ele é saudado como Ogum Onirê! - "Ogum Rei de Irê!"; entretanto, ele foi autorizado a usar apenas uma pequena coroa, "akorô". Daí ser chamado, também, de Ogum Alakorô - "Ogum dono da pequena coroa". 

Após instalar seu filho no trono de Irê, Ogum voltou a guerrear por muitos anos. Quando voltou a Irê, após longa ausência, ele não reconheceu o lugar. Por infelicidade, no dia de sua chegada, celebrava-se uma cerimônia, na qual todo mundo devia guardar silêncio completo. 

Ogum tinha fome e sede. Ele viu as jarras de vinho de palma, mas não sabia que elas estavam vazias. O silêncio geral pareceu-lhe sinal de desprezo. Ogum, cuja paciência é curta, encolerizou-se. 

Quebrou as jarras com golpes de espada e cortou a cabeça das pessoas. A cerimônia tendo acabado, apareceu, finalmente, o filho de Ogum e ofereceu-lhe seus pratos prediletos: caracóis e feijão, regados com dendê, tudo acompanhado de muito vinho de palma. 

Ogum, arrependido e calmo, lamentou seus atos de violência, e disse que já vivera bastante, que viera agora o tempo de repousar. Ele baixou, então, sua espada e desapareceu sob a terra. Ogum tornara-se um Orixá.
Na religião do batuque, o orixá Ogum é o dono do ferro e de todos os seus derivados, como armas e ferramentas. Também é dono da bebida alcoólica e é considerado o senhor da guerra. É esposo de Iansã, que o traiu com Xangô após embebedá-lo com uma bebida denominada atã.

Por ser o dono do "obé" (faca), sem ele não tem como outros orixás serem feitos. Qualquer sacerdote de orixá tem que ter Ogum em seus assentamentos, pois este é o dono do axé das facas. Por ser dono das armas, é invocado para vencer demandas.

Pela mesma razão é o protetor dos policiais e dos soldados. Na Nação Ijexá são cultuados Ogum Avagã, Ogum Onire e Ogum Adjolá. Este último é um guerreiro guardião que trabalha na beira da água a mando de Oxum, Iemanjá e Oxalá. Ogun Avagã tem seu assentamento junto a Bára e Oyá.

Na Nação Nagô são cultuados Ogun Wari, Alagbede, Olode, Alé, Ògúnjà, Meje, Onire, Soroke.

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