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sábado, 8 de abril de 2017

Thelema

O Hexagrama Unicursal,
mais importante símbolo em Thelema,
equivalente do Egípcio Ankh
ou a Rosa Cruz dos Rosacruzes'
Thelema é a filosofia ou religião (dependendo do ponto de vista) baseada nos dois preceitos fundamentais da chamada Lei de Thelma

A lei de Thelema é "Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei. O amor é a lei, amor sob vontade.

A lei de Thelema foi desenvolvida no início de 1900, por Aleister Crowley, um escritor inglês e cerimonial mágico:
"Faze o que tu queres será o todo da Lei. (orig. "Do what thou wilt shall be the whole of the Law.")
"Amor é a lei, amor sob vontade." (orig. "Love is the law, love under will.")

A palavra Thelema é incomum no Grego Clássico, significando o desejo, mesmo o sexual. Porém já se torna comum na Septuaginta (versão da Bíblia hebraica para o dialeto grego Koiné). Antigas escrituras cristãs utilizavam esta palavra por vezes para se referir à vontade humana, mas era mais usual como referência à vontade de Deus. 

Na oração do Pai Nosso, por exemplo, em "Venha a nós o Vosso reino, seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu;" (Mateus 6:10), o original de "vontade" é θέλημα. 

Ainda no mesmo evangelho, em Mateus 26:37, tem-se Jesus dizendo a Deus: "Faça-se a Tua vontade", novamente com o termo Thelema no original. Ainda além, Santo Agostinho, em um sermão do Séc. V d.C., utiliza a frase "Dilige et quod vis fac" ("Ama e faze o que tu queres").

O texto renascentista "Hypnerotomachia Poliphili", creditado ao monge dominicano Francesco Colonna e com primeira publicação em 1449, possui uma personagem chamada Thelemia, representativa da vontade ou desejo, que em conjunto com Logistica (a razão) guiavam o protagonista Polifilo por sua jornada em busca de sua amada. Quase sempre, ao ser obrigado a escolher entre os conselhos de Logistica e Thelemia, Polifilio dava ouvidos à seus impulsos sexuais e não à lógica. 

Esse livro teve grande influência sobre outra obra de grande importância para a base filosófica thelêmica, a novela do século XVI, "Gargantua e Pantagruel", do monge franciscano François Rabelais. Neste texto clássico se descreve a "Abadia de Thélème", cuja única regra consistia em "Faix çe que tu veux" ("Faze o que tu queres")

Já em meados do século XVIII, Sir Francis Dashwood inscreve este adágio, que se tornaria o lema do Hellfire Club, na porta de entrada de sua própria abadia, em Medhenmam, Inglaterra. Gargantua e Pantagruel também é referenciado na novela de Sir Walter Besant e de James Rice, "Os Monges de Thelema" (1878), e na utopia "A Construção de Thelema" (1910), de C. R. Ashbee.


quinta-feira, 27 de março de 2014

ABRACADABRA!

Abracadabra é uma palavra mística usada como encantamento e considerada por alguns a frase mais pronunciada universalmente em outras linguagens sem tradução. É normalmente usada como encantamento por mágicos de palco, principalmente por ilusionistas.

Entretanto, originalmente acreditava-se no poder de tal palavra para a cura de febres e inflamações. A primeira menção conhecida à mesma foi feita no segundo século depois de Cristo; durante o governo de Septímio Severo, num poema chamado De Medicina Praecepta. No então, o médico Serenus Sammonicus, prescreveu o verso ao imperador de Roma Caracala, que receitando que o imperador usasse um amuleto com a palavra escrita num cone vertical para curar sua doença.

De acordo com Helena Petrovna Blavatsky, o termo é uma corruptela da palavra gnóstica "Abraxas" e essa, por sua vez, era uma corruptela de uma palavra antiga sagrada copta ou egípcia, uma fórmula mágica que significava "não me firas". Era comumente utilizado sobre o peito sob as vestimentas.

Thelema

"Abrahadabra", palavra que aparece no Livro da Lei, e é descrita por Aleister Crowley como a "Palavra do Aeon" e que ela "representa a Grande Obra completa", sendo assim é um arquétipo de todas as operações mágicas menores" (A.C.) Não deve ser confundida com a Palavra da Lei do Aeon, que é Thelema.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Discutindo a Doutrina Espírita - O Porvir e o nada - Thelema e a Iluminação

Depois de muito interogar e pouco afirmar, Kardec coloca em dúvida o panteísmo, além de ligar o hedonismo ao niilismo. Hoje, com a evolução e entrada da humanidade na Era da Informação e do Conhecimento, podemos questionar estas sugestões, afinal sabemos que Deus não é apenas este Universo, é um organismo supremo e inatingível do qual faz parte, também o Multiverso.

Kardec não podia ver pelos olhos do telescópio Hubble, imaginar quarks, neutrinos, a existência de partículas subatômicas, dobras espaciais ou muito menos a pesquisa do bosão de Higgs.

Se o decodificador da Doutrina Espírita podia prever as descobertas futuras, a evolução tecnológica e a libertação através do conhecimento, na época se ateve aos rígidos conceitos morais imperantes e isto pode o ter bitolado na redação de sua obra. Progredimos muito em 200 anos, hoje muita coisa que Kardec tentava explicar, tentando decodificar o que não pode na verdade ser codificado ou compreendido, integralmente, pela capacidade intelectual humana da época.

O célebre médium francês questionou: Se Deus é tudo, está em tudo e em todos, então Ele não teria vontade própria? Ora, mas é claro que sim, inclusive nós mesmos e nossos atos, sejam eles positivos ou negativos, fazem parte da vontade de Deus, bem como do Próprio. 

Parece ter passado desapercebido a Kardec que a maioria dos Espíritos, antes tidos como 'inferiores', nas sessões em que promovia, na verdade eram encarnações anteriores dos próprios Espíritos de Luz com quem se comunicava. Qual Espírito, na época, não havia tido encarnação como índio ou indivíduo de raça africana? Por mais estranho que possa parecer, apesar de não haver nada de estranho nisso, a lógica responde a esta e a muitas outras perguntas.

Um século após a revelação Espírita surgiu no Brasil a Umbanda. Foi então que uma compreensão maior, pode ser obtida através das entidades que se apresentaram como índios e negros escravizados. Apresentando-se nesta roupagem humilde estão Espíritos de alto grau de iluminação e uma sabedoria que permitiu a popularização da antes elitista Doutrina Espírita.

Hoje diversos centros Espírita aceitam a participação destas Entidades em seus trabalhos, muitas vezes inclusive lhes entregando a direção das sessões. A prova é que um Exu, por exemplo, pode usar o cascão de uma encarnação anterior sua como médico, para coordenar trabalhos de cura em em uma sessão de mesa branca.

Bom, o próprio Kardec, após discursar de forma moralista, logo no capítulo 1 da primeira parte de 'O Céu e o Inferno', concluí que a tolerância é o caminho para a futura fusão das religiões:

"14. - Instintivamente tem o homem a crença no futuro, mas não possuindo até agora nenhuma base certa para defini-lo, a sua imaginação fantasiou os sistemas que originaram a diversidade de crenças. A Doutrina Espírita sobre o futuro - não sendo uma obra de imaginação mais ou menos arquitetada engenhosamente, porém o resultado da observação de fatos materiais que se desdobram hoje à nossa vista -congraçará, como já está acontecendo, as opiniões divergentes ou flutuantes e trará gradualmente, pela força das coisas, a unidade de crenças sobre esse ponto, não já baseada em simples hipótese, mas na certeza. 

A unificação feita relativamente à sorte futura das almas será o primeiro ponto de contato dos diversos cultos, um passo imenso para a tolerância religiosa em primeiro lugar e, mais tarde, para a completa fusão."

É importante lembrar que para todas as religiões de unirem precisaremos unir todo conhecimento, este não será o ditado pela doutrina Espírita, pela Umbanda, pela Igreja, ou qualquer outra crença. Será a união! Acredito que teremos o melhor de cada, a verdade que segundo Buda é uma, pois não existe segunda. Com o escopo na criação desta futura 'Araca da Religiões', creio ser indispensável a interpretação correta dos dois preceitos da 'Lei de Thelema': "Faze o que tu queres será o todo da Lei." - "Amor é a lei, amor sob vontade

É comum que a Lei de Thelema seja mal interpretada. Alguns vêem nela uma licença para o gozo pleno de todos os seus desejos e caprichos, sem que haja responsabilidade ou consequências por seus atos. Entretanto, é assaz informar aos incautos que esta filosofia prega justamente o oposto. Partindo do princípio de que cada ser humano, por possuir livre arbítrio, é inteiramente responsável por sua existência e por suas ações, sem ser absolvido ou culpado por nenhum Deus ou Diabo, no que tange o destino de sua própria vida.

A liberdade de todo homem e toda mulher é assim cultuada, uma vez que, como consta no Liber AL vel Legis, livro que apresenta a teoria, "todo homem e toda mulher é uma estrela". O resultado da compreensão disto é um profundo respeito a si próprio, a cada indivíduo e a cada forma de vida, como sendo expressões particulares do Divino. Segundo a mesma filosofia, cada um de nós tem por obrigação descobrir e cumprir sua Verdadeira Vontade, deixando de lado todo capricho e distração que possa nos afastar deste objetivo máximo; entretanto, como saber o que é dispensável e inócuo evolutivamente sem antes o experimentarmos?

Ao realizar nossa Verdadeira Vontade, estamos nos integrando perfeitamente a nossa Natureza, que reflete a ordem do Universo. Portanto, realizar a Verdadeira Vontade é despertar para a Vontade do Universo, para o que Deus realmente espera de nós. Afinal, "Crescei-vos, Multiplicai-vos", Ele ordenou! A filosofia nos ensina o perdoai-vos, pois como podemos esperar um perdão Divino se nós mesmos não nos perdoarmos pelos nossos atos?

O maior, se não único ser, prejudicado pelos seus atos, que venham a interferir na Ordem Natural das Coisas, é o próprio autor do ato falho, vil, que terá de pagar pelo praticado, nesta ou em outra vida. É lógico que há de prevalecer o bem, pois também o recebemos de volta. Colocar a culpa por atos indignos, insensatos e inconsequentes, cometidos ou não, em uma entidade poderosa, do mal, que combate a Vontade Divina, não é só comodo, é também desculpa, fraqueza de espírito, Vontade e caráter.

Em Thelema, considera-se a Divindade como algo imanente: isto é, que vive dentro de tudo. Logo, conhecer sua Vontade mais íntima também é conhecer a Vontade de Deus. Esse processo de descoberta da Vontade além dos desejos do Ego constitui um método de realização espiritual baseado principalmente no autoconhecimento. Infelizmente, os escritos de Crowley são mal interpretados, e incrivelmente tomados no sentido oposto ao original, dando origem a comportamentos anti-sociais que nada têm a ver com a filosofia da Lei de Thelema.

Na esfera sociopolítica, Thelema pode ser entendida como a luta pela vivência da Liberdade de cada indivíduo, de modo que ele possa se realizar de acordo com sua órbita particular, isto é, dentro de suas vivências e escolhas específicas. Considerar a importância essencial do indivíduo para o mundo pode ser uma postura menos pragmática do que a tradição política adotada por sociedades opressoras e massificantes.

Ao nos aprofundar na filosofia contemporânea, fica claro e cristalino, como a tirania e regimes tirânicos nada têm a ver com Thelema. Estudando, antes de ouvir a voz da ignorância, podemos perceber  que Aleister Crowley nada tem a ver com o Diabo; pintado de vermelho, com rabo e chifres, que infelizmente, ainda muitos tentam continuar nos impondo. Está na hora de serem retiradas as vendas colocadas nas pessoas através dos tempos, numa clara estratégia usada por instituiões seculares com o único objetivo em perpetuar o domínio exercido sobre os crentes, através do medo e do terror.

Eis que nesta Era da Informação e do Conhecimento vem a verdade, única, que nos prepara para o que previu Kardec, a fusão das religiões em uma só. É chegado o momento do esclarecimento da humanidade, um iluminação jamais antes vista. Para isto Deus permitiu ao homem criar a Internet, como um laboratório, preparando sua ciação para a queda de todas as barreiras.
Ronald
____
Referências: Capítulo 1 da 1ª Parte da Obra Espírita - O Céu e o Inferno - escrita por Allan Kardec. / Livro da Lei (Liber AL vel Legis), de Aleister Crowley / http://pt.wikipedia.org/wiki/Thelema / http://pt.wikipedia.org/wiki/Liber_al_vel_legis / http://pt.wikipedia.org/wiki/Aleister_Crowley

sábado, 10 de outubro de 2009

Wicca e Bruxaria - O ressurgimento




Por Marcos Torrigo

Atualmente, vivemos um retorno aos cultos pagãos. Em verdade, uma releitura destes. A wicca e a bruxaria são as facetas mais conhecidas desse movimento. Mas será que elas são mesmo conhecidas? Em que se inspiraram esses novos bruxos para fundamentarem suas crenças?

A bruxaria e a wicca têm um papel importante no resgate da figura da mulher, especialmente quando ligada ao religioso. Nas escultura do período Paleolítico, a mulher era um tema recorrente (Vênus de Willendorf, Laussel, etc.), representada seios fartos, quadris largos e a vagina bem delineada; era a materialização da Grande Mãe. Há indicações de que a mulher representava a imortalidade, os mistérios da geração da vida e o poder mágico.

Os símbolos femininos dessas épocas ancestrais se mantiveram presentes até a Antiguidade clássica e, de certa forma, até os dias de hoje.

Margaret Murray, uma eminente egiptóloga, lançou a tese de que a bruxaria era um culto marginal presente no Ocidente desde o período Paleolítico. Esse culto se manteve vivo e atuante, paralelo aos cultos oficiais, seja o paganismo greco-romano, seja o cristianismo. Tinha como divindade principal o deus de chifres, conhecido como Cernunnos, Pá ou Dianus, um deus da fertilidade muito similar ao Shiva de Mohenjo Dharo, senhor dos animais, ou o Cernunnos celta.

Essa tese de Murray ganhou uma legião de adeptos e, posteriormente, também de críticos. Hoje em dia, entre os acadêmicos, convencionou-se refutar a tese de Margaret Murray, tida como infundada. Apesar disso, na história da humanidade encontraremos inúmeros cultos que se assemelham à bruxaria.

Vale salientar que muitos elementos atribuído à bruxaria foram criações da Igreja Católica que, com o fim do feudalismo e as convulsões sociais decorrentes, via sua hegemonia ameaçada. Assim, o Santo Ofício (Inquisição) tinha como meta resguardar a fé, ou melhor, o domínio da Igreja.

Numa mudança radical, a sociedade, até então rural, se tornava urbana. O nome “pagão” vem do latim paganus, e se refere ao morador do campo, termo usado pelos romanos “cultos” convertidos ao cristianismo e que residiam nas cidades. Desse modo, pagão seria equivalente a “caipira”, e indicava alguém com crenças “atrasadas”, ou seja, ligado aos antigos deuses. Muitas das práticas pagãs eram vistas como crendices ou adoração ao demônio.

A era das fogueiras se delineia a partir do século 15, sob grande influência alemã, de onde mais tarde surgiria Lutero e o protestantismo. Em 1484, o Papa Inocêncio VIII (1432-1492) criou a bula Summis Desiderantes Affectibus, o documento que dá o aval para a matança que se seguiria, dando corpo ao Santo Ofício. Esse evento motivou o Malleus Maleficarum (1487), obra dos dominicanos alemães Heinrich Kraemer (c. 1430-1505) e Jacob Sprenger (c. 14361494), um manual de caça às bruxas, também conhecido como O Martelo das Bruxas.

Mas com o Renascimento artístico da época, também se desenvolve uma visão humanista e antropocêntrica, com o homem encarado como a “pérola” da criação e não mais um desgraçado pecador. Isso se contrapunha diretamente à Igreja e ao pensamento medieval. A vida era vivida em torno do ser humano, e não apenas da religião. Assim, as descobertas da Renascença abalavam os dogmas da Igreja e descortinavam uma nova era para a humanidade. A medieval retratava as desgraças do mundo e, conseqüentemente, as maravilhas do reino de Deus. A arte da Renascença mostra o homem feliz e a volta dos deuses romanos e gregos.

O leitor já deve ter se perguntado como se deu o renascimento da bruxaria nos moldes em que a conhecemos hoje. Vários elementos colaboraram em sua formação, especialmente alguns livros que se mostraram deveras importantes.

Um deles foi A Bruxaria Hoje (Witchcraft Today, 1954), de Gerald Gardner (1884-1964), um marco na história da bruxaria ou na criação da wicca (palavra de origem anglo-saxã). Esse livro trouxe a bruxaria a público e reavivou o interesse pelo tema, tarefa engendrada anos antes por Aradia: O Evangelho das Bruxas (Aradia: Gospel of the Witches, 1899), de Charles Godfrey Leland (1824-1903); pelo importantíssimo O Culto das Bruxas na Europa Ocidental (The Witch Cult in Western Europe, 1921), de Margaret Murray (1863-1963); e por A Deusa Branca (The White Goddess, 1948), de Robert Graves (1895-1985); sem esquecer, é claro, de O Ramo de Ouro (The Golden Bough, 1922), de Sir James Fraser (1854-1941). Todos esses livros semearam o caminho para que a wicca viesse a florescer.

Gardner tem um papel de destaque. Além de seus livros, criou covens e iniciou vários bruxos, dando corpo ao movimento. Ele passou a maior parte de sua vida trabalhando na Malásia, onde pôde entrar em contato com várias tradições exóticas. Esse gosto fez com que, após a sua aposentadoria e regresso à Inglaterra, ele ingressasse na Sociedade de Folclore e percorresse os meandros do ocultismo britânico, pesquisando as mais diversas fontes. Nessas pesquisas, ele conheceu Aleister Crowley (1875-1947) e Old Dorothy Clutterbuck (1880-1951), importantes figuras em sua trajetória.

Gardner foi membro da Fellowship of Crotona, em New Forest, onde conheceu Dorothy Clutterbuck, que o teria iniciado na bruxaria. Há quem diga que esse coven nunca existiu, mas há relatos mencionando que, na Segunda Guerra Mundial, em New Forest, um grupo de bruxas se reuniu para impedir o desembarque dos exércitos nazistas. A própria existência de Old Dorothy Clutterbuck era posta em dúvida, mas Doreen Valiente (1922-1999), discípula de Gardner, consegue provar sua existência.

O que salta aos olhos é o ecletismo de elementos utilizados por Gardner na confecção da wicca. Muitos rituais são criados a partir de elementos da magia cerimonial, especialmente a advinda da Aurora Dourada (Golden Dawn) e da maçonaria, entre outras fontes. Os fundadores da G.D., Samuel Liddel MacGregor Mathers (1854-1918), William Wynn Westcott (1848-1925) e William Robert Woodman (1828-1891), eram maçons e membros da SRIA (Sociedade Rosa-Cruz da Inglaterra), à qual também pertencia Hargrave Jennings (1817-1890). 


Havia boatos da ligação de Jennings com um coventículo, e Gardner até imaginava que ele poderia ser o “autor” de O Livro das Sombras. As ligações de Jennings com cultos fálicos são proverbiais.

Hargrave Jennings era o autor do livro Os Rosacrucianos (1870), no qual narra várias facetas do ocultismo da bruxaria. Por sua vez, Francis King afirma que as teorias de Murray haviam sido retiradas da obra de Hargrave Jennings e que, em 1915, Crowley havia escrito a Frater Achad, Charles Stansfeld Jones (1896-1950), a respeito da necessidade da criação de um culto pagão. A descrição do referido culto lembraria em muito a bruxaria gardeneriana, que surgiria algumas décadas depois. Tanto é assim que, para alguns estudiosos, o verdadeiro “pai” da bruxaria wicca foi Aleister Crowley e não Gardner, sendo Crowley o autor de O Livro das Sombras. Muitos anos antes, Crowley já se havia colocado como profeta da nova era e responsável pelo ressurgimento do paganismo, tendo pesquisado e desenvolvido várias vertentes da magia.

Gardner foi feito membro da O.T.O. (Ordo Templi Orientis), ordem mágicka reestruturada por Crowley. A relação entre Crowley e Gardner era amistosa, e o próprio Gardner acreditava que Crowley era uma das pessoas capazes de ter escrito O Livro das Sombras, talvez uma forma talvez de lhe dar a autoria sobre o livro ou de justificar o uso de grande quantidade de material de Crowley. Há inúmeras passagens de Crowley no livro de Gardner: “Eu sou a chama que arde em todo coração humano, e no núcleo de toda estrela. Eu sou Vida, e o doador da vida, entretanto, conhecer-me é conhecer a morte”. “Eu os amo! Eu anseio por vós! Pálido ou púrpura, velado ou voluptuoso, Eu que sou todo prazer e púrpura, e ébria no sentido mais profundo, os desejo”.

De todas as passagens, a mais clara é: “Faz o que tu queres, desde que não prejudiques a ninguém” (ou correlata); uma adaptação clara de: “Faz o que tu queres, há de ser o todo da Lei”, a máxima de Crowley. Ou ainda o uso do pentagrama: “Meu número é 11, como todos seus números que são nossos. A Estrela de Cinco Pontas, com um Círculo no meio”. O pentagrama wiccano é o inverso, ou seja, uma estrela circundada pelo círculo.

Convém falar um pouco a respeito do livro de Leland, Aradia: O Evangelho das Bruxas, escrito a partir do relato de uma jovem chamada Maddalena – uma bruxa de Florença, na Toscania. Ela se dizia descendente de uma tradição da bruxaria, a stregoneria. O quanto disso foi invenção da “fonte” ou criação do próprio Leland, não sabemos, mas o importante é que o livro trazia em “primeira mão” um culto de bruxaria. No livro, é narrada a história de Diana, que se une a seu irmão e filho, Lúcifer. Dessa união nasce Aradia, que vem à Terra para ensinar a arte da bruxaria. Tecnicamente, essa tradição remontaria aos etruscos.

Por mais que a narrativa de Leland seja difícil de se sustentar, é bom lembrar que relatos sobre o culto à deusa Diana são conhecidos ao longo da Idade Média. Esse culto era atribuído às bruxas, as fiéis da deusa. O historiador e antropólogo Carlo Ginzburg, em seus livros Storia Notturna, Una Decifrazione del Sabba e I Benandanti: Stregoneria e Culti Agrari tra Cinquecento e Seicento, coletou vários relatos sobre bruxaria, paganismo e cultos da fertilidade nas idades Média e Moderna.

Vale salientar que na pesquisa de Ginzburg um dos nomes da deusa era Diana, nomenclatura usada pela Igreja. Na verdade, a deusa era chamada de várias outras formas, e a roupagem cristã provavelmente era a camuflagem de um substrato pagão muito mais antigo. O papel da Igreja foi demonizar os cultos e enquadrá-los nas idéias oficiais, ou seja, como adoração ao diabo. À sua moda, a Igreja Católica contribuiu para a união entre Diana e as divindades germânicas da fertilidade uma vez que, durante a conversão desses povos, passava a nomear todas as divindades locais como Diana, um nome “clássico”, “encaixando” as crenças politeístas à sua teoria demonológica.

Os romanos também estabeleciam correlações entre suas divindades e as de outros povos. Populações celtas, teutônicas e eslavas faziam parte do Império Romano, e a deusa romana Diana ganhava atributos da Epona céltica. Assim, o Império Romano acabou por promover a miscigenação de cultos, produzindo o sincretismo entre algumas divindades.

Para completar o quadro, no fim do Império, com a invasão dos bárbaros, mais tradições e influências se acumularam. A Itália foi conquistada por godos, vândalos, lombardos e hunos. Séculos depois, veio o Sacro Império Romano Germânico. Essa miscigenação produziu lendas acerca da “cavalgada das bruxas”, chefiadas pela deusa Diana, um sincretismo entre as divindades mediterrâneas e as germânicas; os nórdicos, em seus Eddas, diziam que as bruxas iam para sua reunião montadas em lobos, javalis ou “paus de cerca”.

Um ponto curioso a respeito da bruxaria são os padrões similares encontrados na bruxaria de locais diferentes e sem qualquer contato uns com os outros. Uma das explicações reside na noção de inconsciente coletivo e na teoria dos arquétipos. Dessa forma, a grosso modo, a bruxaria não seria transmitida linearmente, de bruxa para bruxa, mas sim como um aspecto mais profundo da raça humana. Assim, ela poderia emergir nos locais mais distantes uns dos outros, como realmente aconteceu. Isso explicaria, em parte, a similitude entre alguns aspectos da bruxaria africana e da inglesa, por exemplo. Notei isso em minha pesquisa sobre vampiros e bruxaria, com o padrão dos relatos se repetindo da Malásia ao Caribe. Outros pesquisadores também se depararam com esse padrão, suscitando as mais diversas teorias.

A bruxaria é parte integrante da magia européia, e não só no passado remoto. Alguns membros de ordens, como a Golden Dawn, fizeram pesquisas de campo, nas quais afirmam ter encontrado essas tradições vivas. Temos o relato de J.W. Brodie-Innes (1848-1923) sobre as tradições celtas e de bruxaria, publicadas na revista Occult Review (vol. XXV); ou mesmo o brilhante artista plástico Austin Osman Spare (1886-1956), criador do Zos Kia Cultus, que foi iniciado pela senhora Paterson, uma norte-americana que alega ser descendente das bruxas de Salem.

Após seu renascimento efetivo, a bruxaria, nas mãos de Gardner, se multifacetou em várias tradições. A seu modo, cada uma delas tenta resgatar – na verdade recriar – os mistérios antigos. Algumas tradições mais sérias, outras nem tanto. Mas, sem dúvida, todas representam um movimento de vital importância no resgate do feminino, do papel da mulher na religião, da natureza e de uma visão mais holística do cosmos.

Bons ventos trazem essas novas (e antigas) tradições. Em muitos aspectos, o criador da wicca – tenha sido Gardner ou Crowley – estaria feliz com o resultado. Devemos muito a eles: a liberdade e o entendimento é fruto do trabalho dos dois.

Fonte: Revista Sexto Sentido número 56, páginas 20-24. http://www.revistasextosentido.net/


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