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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Halloween, o Dia das Bruxas

"Noite de Samhain" José Antonio Gil Martínez*

"Conectado aos mais antigos cultos pagãos, a palavra “Halloween”, tem origem em tantas lendas e histórias que só podemos afirmar que é uma das mais pagãs festas “católicas” da atualidade. Em meados do século V d.C, foi declarado que o dia 31/10 seria reconhecido como o dia de todos os santos, pois nas antigas tradições pagãs ele era chamado “O grande buraco”, pois acreditava-se que neste dia o mundo dos vivos e dos mortos comunicavam-se.

Ainda temos informações esparsas de diversas fontes históricas – documentos dos séculos V e VIII – citando que o nome Halloween teria vindo vem da palavra hallowuinas, que seria o nome das guardiãs dos conhecimentos ocultos escandinavos.

Há várias lendas em volta do dia das bruxas


Em uma delas é que no dia 31 de outubro, um dia após o Dia do Corvo (dia 30 de outubro e que é considerado nas religiões pagãs o senhor e guardião do portal entre os vivos e os mortos) todos aqueles que morreram no ano anterior, voltariam a terra e poderiam tomar posse dos corpos vivos e fazer deles seu festim antes de voltarem a escuridão da morte. 

Assim, para assustar os mortos e impedir essa possessão, a população apagava sua fogueiras e velas, se vestiam com roupas assustadoras e andavam em volta das vilas para espantar os mortos que viessem vistá-los.

Embora essa prática fosse condenada pelos católicos – que acreditavam que os mortos só voltariam no Dia do Juízo. Sua prática contínua por séculos levou por fim a uma tentativa dos cristãos de assimilar a data, ao ser agregada no calendário cristão quando passou a ser definido o Dia de Finados (mortos) no dia 02 de novembro, mas isso não inibiu o Halloween e suas práticas.

Tanto é que no século 17, os irlandeses que imigraram aos Estados Unidos levaram essa tradição ao país que por fim a difundiu para o mundo todo. Hoje em dia até na Ásia o dia 31 é comemorado com “gostosuras ou travessuras”.

SIMBOLOGIAS

Abóbora iluminada com a vela

A vela dentro da abóbora, vem da antiga lenda irlandesa de Jack, o Lanterna, um beberrão, ardiloso que ludibriou o diabo por duas vezes e conseguiu que ele o deixasse em paz até sua morte, porém quando morreu, foi negado a ele sua entrada no céu, pois sua vida não era digna do paraíso e devido os problemas com o senhor do inferno ele também não pode entrar lá. Mas o diabo com dó de Jack, que foi condenado a vagar pela eternidade na escuridão, lhe deu uma lanterna para que pudesse caminhar na escuridão.


A vela foi colocada originalmente dentro de um nabo e permanece duradoura. Nos USA, foi substituído por uma abóbora que no novo país era mais abundante que o nabo na Irlanda.

Gostosuras ou travessuras (Trick or Treat)

No século IX, na Europa os católicos faziam oferendas aos parentes e conhecidos chamado de souling que significava almejar, e era comemorado no dia 02 de novembro (o Dia dos Mortos católico). Nesse dia parentes iam de casa em casa, pedindo os chamados “soul cakes” (bolo das almas) que eram feitos de groselha (não a bebida, a fruta). Para cada pedaço de bolo que a pessoa ganhava ela deveria orar para o parente do doador do bolo, pois acreditava-se que assim, ajudava-se os mortos a irem para o reino dos céus.

Com o passar do tempo, esse hábito foi cativando as crianças, e no Dia de Halloween adotou-se que além de se vestirem com fantasias para assustarem os mortos, elas também pediriam doces e àqueles que não dessem sofreriam com as travessuras.

Agora você se pergunta o que têm as bruxas com tudo isso?

As bruxas comemoram o Samhain, o ano novo celta. Ela marca o fim do verão e a entrada do ano novo, celebrando a colheita do ano todo e a renovação para o próximo.

Mas nas tradições católicas, que procuravam colocar as antigas tradições na ótica do “diabo”, dizia-se que nessa data as bruxas chegavam em sua vassouras para a festa em que o diabo era o anfitrião, voavam em volta da lua, gritavam, riam e amaldiçoavam a todos que encontravam.

Essa crença dizia que se você encontrasse uma bruxa, deveria virar sua roupa do avesso, para a maldição ou feitiço, não te pegar. E como o gato preto sempre foi associado as bruxas, nessa época diziam que eles carregavam os espíritos dos mortos e se um gato preto cruzar o seu caminho, volte por onde veio, porque se avançar terá má-sorte na certa.

Enfim…

Uma coisa é certa, é uma festa de terror com muito bom humor. Nessa data colocamos todos os "demoninhos" para fora e brincamos sejamos adultos ou crianças.

E as bruxas, tanto das antigas quanto das novas tradições, em todo mundo celebram essa data fantástica em volta de fogueiras, colocando seus pedidos no caldeirão, para mais um ano que vai começar."


    ____
Fonte: web:http://www.patywitch.blogspot.pt (reprodução) - Imagem: "Feliz noche de Samhain a todos" José Antonio Gil Martínez (CC-BY-2.0)

terça-feira, 3 de abril de 2018

O Feitiço da Lua – Mês de Abril




O livro "O Feitiço da Lua", é um relato da jornada mística da bruxa e escritora brasileira Márcia Frazão, através do seu depoimento de encontros e desencontros vividos. 

Partindo da filosofia de suas ancestrais, em especial sua avó Vitalina e sua bisavó Luíza, Márcia nos mostra os segredos da "Grande Senhora" e apresenta as 12 Luas - dos antepassados, da busca do conhecimento, do olho interior, das vozes do mundo, do contar histórias, dos labirintos, das sereias, da loba, da risada de Afrodite, da cura, dos sonhos, de contar as bênçãos e da serpente.

Na obra, cada mês é acompanhado de um calendário para se reverenciar as grandes deusas da Magia e da Sabedoria. A seguir reproduzo informações contidas no livro referentes ao mês de abril e sua respectiva Lua.

Também conhecida como: Lua da Colheita, Lua do Derramamento, Winterfylleth  Aproximação do Inverno), Windermanob (Mês da Vindima), Mês da Folha Caída, Mês dos Dez Frios, Lua da Mudança de Estação.

Espírito da Natureza: fadas das nevascas e das plantas.

Ervas: madressilva, acrimônia, Hissopo.

Cores: prata, cinza-azulado.

Flores: lótus, jasmim, nenúfar.

Essências: lírio florentino, olíbano.

Pedras: pérola, selenita, ágata branca.

Árvore: carvalho, acácia, freixo.

Animais: besouro, tartaruga, golfinho, baleia.

Aves: íbis, estorninho, andorinha.

Deidades: Khepe, Atena, Juno, Hel, Holda, Cerridwen, Néftis, Vênus.

Fluxo de Poder: energia relaxada; preparação, sucesso. Trabalho de sonhos adivinhação, meditação sobre objetivos e planos, especialmente espirituais.

Dia
Mês
Celebração
01
04
- Dia em que em Roma se iniciava o mês dedicado à adoração de Vênus: deusa da beleza, amor e sexualidade.
- Dia em que os árabes celebravam Al-Lat: deusa lunar mãe de todos os deuses.
- Dia em que os gauleses celebravam Blodewedd: deusa protetora dos amantes.
02
04
- Dia em que os antigos portugueses realizaram a festa em celebração de A-Ma: deusa lunar, protetora dos mares e pescados.
- Dia em que os esquimós celebram a deusa sednaprotetora dos mares e senhora dos mistérios da vida e da morte.
03
04
- Dia em que a Cereália, festa das sementes e da abundância, dedicada à deusa Flora: senhora da vegetação.
04
04
- Dia em que os antigos romanos celebravam a Magalésia de Cibele, deusa das cavernas e da terra.
- Dia em que os apaches celebravam a Mulher das Transformações: deusa que representa a Grande Mãe Terra. 
05
04
- Dia em que os antigos romanos celebravam a deusa Fortuna: senhora da abundância e do destino.
06
04
- Dia em que na China se celebra o Ching-Ming, dedicado a Kwan-Yin: deusa protetora dos homens.
07
04
- Dia em que os romanos celebravam a festa de Blajini, quando oferendas são feitas para o espírito das águas do mundo dos mortos.
08
04
- Dia em que os antigos gregos celebravam a Mounichia, festival dedicado à deusa Ártemis.
09
04
- Dia em que os antigos romanos celebravam Bellona, deusa da diplomacia e da guerra.
10
04
- Dia em que os antigos babilônios celebravam a deusa Bau:protetora da noite.
- Neste dia também celebramos a Ops: antiga deusa romana, que dá aos homens a opulência e frutos da terra.
11
04
- Dia em que os antigos habitantes da Armênia celebravam Anahit: deusa da lua, do amor e do nascimento.
- Na tradição dos antigos persas, este dia pertencia a deusa Kista: doadora do conhecimento espiritual. 
12
04
- Dia em que Taiwan celebra a deusa Chu-Si-Niu-Niu, mãe de todos os seres e aquela que da proteção as mulheres na hora do parto.
- Neste dia, os antigos gregos honravam Ilítia: deusa protetora dos partos.
13
04
- Dia em que no Japão celebra-se Kamo-Tama-Yori-Hime, festa comemora o casamento sagrado entre deus O-yama-kui-no-kami e a deusa Kamo-tama-yori-hime.
Desta união resulta o nascimento de Kami: a criança divina.
14
04
- Dia em que na Índia se celebra o início do festival de Maryamma: deusa senhora
de todos os mares.
- Dia em que os antigos deuses honravam Marah: deusa protetora das águas salgadas.
15
04
- Dia em que os antigos romanos celebravam a Fordicália, festival dedicado a Telleus Mater: a Grande Mãe Terra.
16
04
- Dia em que os antigos astecas honravam a deusa Coatlicue: criadora de todos os seres e senhora dos mistérios da morte.
- É também o dia em que os antigos caldeus honravam Levanah: deusa lunar, protetora do princípio feminino e senhora das águas.
17
04
- Dia em que os aborígines da Austrália honravam Wonambideusa-serpente do arco-íris.
18
04
- Dia em que na Índia celebrava-se Rava-Navami, festival consagrado aos deus Rama e à deusa Sita. 
19
04
- Dia em que Bali celebra o princípio feminino, ornamentando os templos com frutas e flores.
- Neste dia, os antigos povos tutônicos celebravam Freya: deusa da fertilidade e do amor.
20
04
- Dia em que se inicia o signo astrológico de Touro dedicado ao divino casal Hathor e Ísis.
- Dia em que os antigos gregos honravam Selenem a deusa da Lua.
21
04
- Dia em que os antigos romanos celebravam a Paríliafestadedicada à deusa Pales: senhora das florestas e dos campos.
22
04
- Dia em que os egípcios honravam a deusa Neith, uma das mais antigas divindades egípcias, essência da comunidade tribal, protetorados trabalhos manuais e da indústria.
23
04
- Dia em que na Síria celebrava Pire, festival da deusa Astarte: doadora a fertilidade e senhora dos mistérios do amor.
24
04
- Neste dia, os antigos mexicanos celebravam Mayahuel: deusa senhora da Terra e da noite.
- Dia em que os antigos romanos celebravam Vinalia riorade Vênus, festa do vinho consagrado a deusa do amor e da beleza.
25
04
- Dia em que os antigos romanos festejavam a Robigália, festa consagrada a Robigo: deusa do milho e da colheita.
26
04
- Dia em que em Serra Leo se comemora o ano-novo, onde são honradas todas as deusas das águas e da fertilidade. 
- Neste dia, os antigos finlandeses honravam a Ilmatar, mãe das águas, deusa da criação, filha do deus do ar Ilma. 

Fonte: Retirado do livro "O feitiço da lua", da Márcia Frazão


sábado, 10 de outubro de 2009

Wicca e Bruxaria - O ressurgimento




Por Marcos Torrigo

Atualmente, vivemos um retorno aos cultos pagãos. Em verdade, uma releitura destes. A wicca e a bruxaria são as facetas mais conhecidas desse movimento. Mas será que elas são mesmo conhecidas? Em que se inspiraram esses novos bruxos para fundamentarem suas crenças?

A bruxaria e a wicca têm um papel importante no resgate da figura da mulher, especialmente quando ligada ao religioso. Nas escultura do período Paleolítico, a mulher era um tema recorrente (Vênus de Willendorf, Laussel, etc.), representada seios fartos, quadris largos e a vagina bem delineada; era a materialização da Grande Mãe. Há indicações de que a mulher representava a imortalidade, os mistérios da geração da vida e o poder mágico.

Os símbolos femininos dessas épocas ancestrais se mantiveram presentes até a Antiguidade clássica e, de certa forma, até os dias de hoje.

Margaret Murray, uma eminente egiptóloga, lançou a tese de que a bruxaria era um culto marginal presente no Ocidente desde o período Paleolítico. Esse culto se manteve vivo e atuante, paralelo aos cultos oficiais, seja o paganismo greco-romano, seja o cristianismo. Tinha como divindade principal o deus de chifres, conhecido como Cernunnos, Pá ou Dianus, um deus da fertilidade muito similar ao Shiva de Mohenjo Dharo, senhor dos animais, ou o Cernunnos celta.

Essa tese de Murray ganhou uma legião de adeptos e, posteriormente, também de críticos. Hoje em dia, entre os acadêmicos, convencionou-se refutar a tese de Margaret Murray, tida como infundada. Apesar disso, na história da humanidade encontraremos inúmeros cultos que se assemelham à bruxaria.

Vale salientar que muitos elementos atribuído à bruxaria foram criações da Igreja Católica que, com o fim do feudalismo e as convulsões sociais decorrentes, via sua hegemonia ameaçada. Assim, o Santo Ofício (Inquisição) tinha como meta resguardar a fé, ou melhor, o domínio da Igreja.

Numa mudança radical, a sociedade, até então rural, se tornava urbana. O nome “pagão” vem do latim paganus, e se refere ao morador do campo, termo usado pelos romanos “cultos” convertidos ao cristianismo e que residiam nas cidades. Desse modo, pagão seria equivalente a “caipira”, e indicava alguém com crenças “atrasadas”, ou seja, ligado aos antigos deuses. Muitas das práticas pagãs eram vistas como crendices ou adoração ao demônio.

A era das fogueiras se delineia a partir do século 15, sob grande influência alemã, de onde mais tarde surgiria Lutero e o protestantismo. Em 1484, o Papa Inocêncio VIII (1432-1492) criou a bula Summis Desiderantes Affectibus, o documento que dá o aval para a matança que se seguiria, dando corpo ao Santo Ofício. Esse evento motivou o Malleus Maleficarum (1487), obra dos dominicanos alemães Heinrich Kraemer (c. 1430-1505) e Jacob Sprenger (c. 14361494), um manual de caça às bruxas, também conhecido como O Martelo das Bruxas.

Mas com o Renascimento artístico da época, também se desenvolve uma visão humanista e antropocêntrica, com o homem encarado como a “pérola” da criação e não mais um desgraçado pecador. Isso se contrapunha diretamente à Igreja e ao pensamento medieval. A vida era vivida em torno do ser humano, e não apenas da religião. Assim, as descobertas da Renascença abalavam os dogmas da Igreja e descortinavam uma nova era para a humanidade. A medieval retratava as desgraças do mundo e, conseqüentemente, as maravilhas do reino de Deus. A arte da Renascença mostra o homem feliz e a volta dos deuses romanos e gregos.

O leitor já deve ter se perguntado como se deu o renascimento da bruxaria nos moldes em que a conhecemos hoje. Vários elementos colaboraram em sua formação, especialmente alguns livros que se mostraram deveras importantes.

Um deles foi A Bruxaria Hoje (Witchcraft Today, 1954), de Gerald Gardner (1884-1964), um marco na história da bruxaria ou na criação da wicca (palavra de origem anglo-saxã). Esse livro trouxe a bruxaria a público e reavivou o interesse pelo tema, tarefa engendrada anos antes por Aradia: O Evangelho das Bruxas (Aradia: Gospel of the Witches, 1899), de Charles Godfrey Leland (1824-1903); pelo importantíssimo O Culto das Bruxas na Europa Ocidental (The Witch Cult in Western Europe, 1921), de Margaret Murray (1863-1963); e por A Deusa Branca (The White Goddess, 1948), de Robert Graves (1895-1985); sem esquecer, é claro, de O Ramo de Ouro (The Golden Bough, 1922), de Sir James Fraser (1854-1941). Todos esses livros semearam o caminho para que a wicca viesse a florescer.

Gardner tem um papel de destaque. Além de seus livros, criou covens e iniciou vários bruxos, dando corpo ao movimento. Ele passou a maior parte de sua vida trabalhando na Malásia, onde pôde entrar em contato com várias tradições exóticas. Esse gosto fez com que, após a sua aposentadoria e regresso à Inglaterra, ele ingressasse na Sociedade de Folclore e percorresse os meandros do ocultismo britânico, pesquisando as mais diversas fontes. Nessas pesquisas, ele conheceu Aleister Crowley (1875-1947) e Old Dorothy Clutterbuck (1880-1951), importantes figuras em sua trajetória.

Gardner foi membro da Fellowship of Crotona, em New Forest, onde conheceu Dorothy Clutterbuck, que o teria iniciado na bruxaria. Há quem diga que esse coven nunca existiu, mas há relatos mencionando que, na Segunda Guerra Mundial, em New Forest, um grupo de bruxas se reuniu para impedir o desembarque dos exércitos nazistas. A própria existência de Old Dorothy Clutterbuck era posta em dúvida, mas Doreen Valiente (1922-1999), discípula de Gardner, consegue provar sua existência.

O que salta aos olhos é o ecletismo de elementos utilizados por Gardner na confecção da wicca. Muitos rituais são criados a partir de elementos da magia cerimonial, especialmente a advinda da Aurora Dourada (Golden Dawn) e da maçonaria, entre outras fontes. Os fundadores da G.D., Samuel Liddel MacGregor Mathers (1854-1918), William Wynn Westcott (1848-1925) e William Robert Woodman (1828-1891), eram maçons e membros da SRIA (Sociedade Rosa-Cruz da Inglaterra), à qual também pertencia Hargrave Jennings (1817-1890). 


Havia boatos da ligação de Jennings com um coventículo, e Gardner até imaginava que ele poderia ser o “autor” de O Livro das Sombras. As ligações de Jennings com cultos fálicos são proverbiais.

Hargrave Jennings era o autor do livro Os Rosacrucianos (1870), no qual narra várias facetas do ocultismo da bruxaria. Por sua vez, Francis King afirma que as teorias de Murray haviam sido retiradas da obra de Hargrave Jennings e que, em 1915, Crowley havia escrito a Frater Achad, Charles Stansfeld Jones (1896-1950), a respeito da necessidade da criação de um culto pagão. A descrição do referido culto lembraria em muito a bruxaria gardeneriana, que surgiria algumas décadas depois. Tanto é assim que, para alguns estudiosos, o verdadeiro “pai” da bruxaria wicca foi Aleister Crowley e não Gardner, sendo Crowley o autor de O Livro das Sombras. Muitos anos antes, Crowley já se havia colocado como profeta da nova era e responsável pelo ressurgimento do paganismo, tendo pesquisado e desenvolvido várias vertentes da magia.

Gardner foi feito membro da O.T.O. (Ordo Templi Orientis), ordem mágicka reestruturada por Crowley. A relação entre Crowley e Gardner era amistosa, e o próprio Gardner acreditava que Crowley era uma das pessoas capazes de ter escrito O Livro das Sombras, talvez uma forma talvez de lhe dar a autoria sobre o livro ou de justificar o uso de grande quantidade de material de Crowley. Há inúmeras passagens de Crowley no livro de Gardner: “Eu sou a chama que arde em todo coração humano, e no núcleo de toda estrela. Eu sou Vida, e o doador da vida, entretanto, conhecer-me é conhecer a morte”. “Eu os amo! Eu anseio por vós! Pálido ou púrpura, velado ou voluptuoso, Eu que sou todo prazer e púrpura, e ébria no sentido mais profundo, os desejo”.

De todas as passagens, a mais clara é: “Faz o que tu queres, desde que não prejudiques a ninguém” (ou correlata); uma adaptação clara de: “Faz o que tu queres, há de ser o todo da Lei”, a máxima de Crowley. Ou ainda o uso do pentagrama: “Meu número é 11, como todos seus números que são nossos. A Estrela de Cinco Pontas, com um Círculo no meio”. O pentagrama wiccano é o inverso, ou seja, uma estrela circundada pelo círculo.

Convém falar um pouco a respeito do livro de Leland, Aradia: O Evangelho das Bruxas, escrito a partir do relato de uma jovem chamada Maddalena – uma bruxa de Florença, na Toscania. Ela se dizia descendente de uma tradição da bruxaria, a stregoneria. O quanto disso foi invenção da “fonte” ou criação do próprio Leland, não sabemos, mas o importante é que o livro trazia em “primeira mão” um culto de bruxaria. No livro, é narrada a história de Diana, que se une a seu irmão e filho, Lúcifer. Dessa união nasce Aradia, que vem à Terra para ensinar a arte da bruxaria. Tecnicamente, essa tradição remontaria aos etruscos.

Por mais que a narrativa de Leland seja difícil de se sustentar, é bom lembrar que relatos sobre o culto à deusa Diana são conhecidos ao longo da Idade Média. Esse culto era atribuído às bruxas, as fiéis da deusa. O historiador e antropólogo Carlo Ginzburg, em seus livros Storia Notturna, Una Decifrazione del Sabba e I Benandanti: Stregoneria e Culti Agrari tra Cinquecento e Seicento, coletou vários relatos sobre bruxaria, paganismo e cultos da fertilidade nas idades Média e Moderna.

Vale salientar que na pesquisa de Ginzburg um dos nomes da deusa era Diana, nomenclatura usada pela Igreja. Na verdade, a deusa era chamada de várias outras formas, e a roupagem cristã provavelmente era a camuflagem de um substrato pagão muito mais antigo. O papel da Igreja foi demonizar os cultos e enquadrá-los nas idéias oficiais, ou seja, como adoração ao diabo. À sua moda, a Igreja Católica contribuiu para a união entre Diana e as divindades germânicas da fertilidade uma vez que, durante a conversão desses povos, passava a nomear todas as divindades locais como Diana, um nome “clássico”, “encaixando” as crenças politeístas à sua teoria demonológica.

Os romanos também estabeleciam correlações entre suas divindades e as de outros povos. Populações celtas, teutônicas e eslavas faziam parte do Império Romano, e a deusa romana Diana ganhava atributos da Epona céltica. Assim, o Império Romano acabou por promover a miscigenação de cultos, produzindo o sincretismo entre algumas divindades.

Para completar o quadro, no fim do Império, com a invasão dos bárbaros, mais tradições e influências se acumularam. A Itália foi conquistada por godos, vândalos, lombardos e hunos. Séculos depois, veio o Sacro Império Romano Germânico. Essa miscigenação produziu lendas acerca da “cavalgada das bruxas”, chefiadas pela deusa Diana, um sincretismo entre as divindades mediterrâneas e as germânicas; os nórdicos, em seus Eddas, diziam que as bruxas iam para sua reunião montadas em lobos, javalis ou “paus de cerca”.

Um ponto curioso a respeito da bruxaria são os padrões similares encontrados na bruxaria de locais diferentes e sem qualquer contato uns com os outros. Uma das explicações reside na noção de inconsciente coletivo e na teoria dos arquétipos. Dessa forma, a grosso modo, a bruxaria não seria transmitida linearmente, de bruxa para bruxa, mas sim como um aspecto mais profundo da raça humana. Assim, ela poderia emergir nos locais mais distantes uns dos outros, como realmente aconteceu. Isso explicaria, em parte, a similitude entre alguns aspectos da bruxaria africana e da inglesa, por exemplo. Notei isso em minha pesquisa sobre vampiros e bruxaria, com o padrão dos relatos se repetindo da Malásia ao Caribe. Outros pesquisadores também se depararam com esse padrão, suscitando as mais diversas teorias.

A bruxaria é parte integrante da magia européia, e não só no passado remoto. Alguns membros de ordens, como a Golden Dawn, fizeram pesquisas de campo, nas quais afirmam ter encontrado essas tradições vivas. Temos o relato de J.W. Brodie-Innes (1848-1923) sobre as tradições celtas e de bruxaria, publicadas na revista Occult Review (vol. XXV); ou mesmo o brilhante artista plástico Austin Osman Spare (1886-1956), criador do Zos Kia Cultus, que foi iniciado pela senhora Paterson, uma norte-americana que alega ser descendente das bruxas de Salem.

Após seu renascimento efetivo, a bruxaria, nas mãos de Gardner, se multifacetou em várias tradições. A seu modo, cada uma delas tenta resgatar – na verdade recriar – os mistérios antigos. Algumas tradições mais sérias, outras nem tanto. Mas, sem dúvida, todas representam um movimento de vital importância no resgate do feminino, do papel da mulher na religião, da natureza e de uma visão mais holística do cosmos.

Bons ventos trazem essas novas (e antigas) tradições. Em muitos aspectos, o criador da wicca – tenha sido Gardner ou Crowley – estaria feliz com o resultado. Devemos muito a eles: a liberdade e o entendimento é fruto do trabalho dos dois.

Fonte: Revista Sexto Sentido número 56, páginas 20-24. http://www.revistasextosentido.net/


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