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sábado, 1 de maio de 2021

'A Encruzilhada da Ciência', segundo o Dalai Lama

Este artigo é baseado em uma palestra proferida pelo Dalai Lama durante o encontro anual da Sociedade para a Neurociência em 12 de novembro de 2005, Washington, DC, EUA.




"As últimas décadas presenciaram significativos avanços na compreensão científica do cérebro e corpo humanos como um todo. E ainda mais, com o advento da moderna pesquisa genética, o conhecimento da Neurociência a respeito do funcionamento dos organismos biológicos foi levado ao nível mais sutil dos genes individuais.

Isto resultou em possibilidades tecnológicas imprevistas, chegando até mesmo à manipulação dos próprios códigos da vida, dando surgimento, a partir daí, a se vislumbrar a criação de realidades completamente novas para a humanidade. Hoje em dia, a questão do intercâmbio da ciência com o conjunto da humanidade não é mais um tópico de interesse acadêmico apenas; ela precisa assumir um senso de urgência para todos os que se preocupam com o destino do ser humano.

Penso, portanto, que um diálogo entre a neurociência e a sociedade poderia trazer importantes benefícios no que se refere ao aprofundamento da nossa compreensão básica daquilo que significa pertencer à espécie humana e quanto às nossas responsabilidades com o mundo natural, o qual compartilhamos com os demais seres sencientes.

 Eu estou feliz em ver que, como parte deste amplo intercâmbio, há um crescente interesse entre alguns neurocientistas em se empenhar em estreitar o diálogo com as disciplinas contemplativas budistas. Embora o meu próprio interesse pela ciência tenha começado na curiosidade de um menino irrequieto crescendo no Tibete, gradualmente, emergiu em mim a importância colossal da ciência e da tecnologia para a compreensão do mundo moderno.

Não apenas busquei captar idéias científicas específicas, também tentei explorar as implicações mais abrangentes da ciência. As áreas específicas que explorei com mais intensidade ao longo dos anos são a física subatômica, cosmologia, biologia e psicologia. Debito a minha limitada compreensão nestes campos, com gratidão, às generosas horas passadas junto com Carl Von Weizsacker e com o falecido David Böhm.

Eu os considero como meus professores em Mecânica Quântica, enquanto que, na biologia, especialmente, em neurociência, interagi mais com o falecido Robert Livingstone e com Francisco Varela. Também agradeço aos numerosos eminentes cientistas com os quais tive o privilégio de manter conversações sob os auspícios do Instituto Mind and Life, que patrocinou conferências desde 1987, em minha residência em Dharamsala, na Índia. Estes diálogos continuaram ao longo dos anos, sendo que o último foi concluído aqui em Washington, nesta mesma semana.

Alguns podem se perguntar "Por que um monge budista demonstraria um interesse tão profundo na ciência? Qual relação pode haver entre budismo, uma antiga tradição espiritual e filosófica da Índia, com a ciência moderna? Que possível benefício haveria para uma disciplina como a neurociência em se engajar em um diálogo com a tradição contemplativa budista?"

Embora a tradição contemplativa budista e a ciência moderna tenham evoluído a partir de raízes históricas, intelectuais e culturais diferentes, acredito que, no seu cerne, compartilham aspectos significativos, especialmente na perspectiva filosófica e na metodologia. Ao nível filosófico, tanto o budismo quanto a ciência moderna questionam qualquer noção de absoluto, quer conceitualizado como um ser transcendental, ou como um princípio imutável e eterno (alma), ou como um substrato fundamental da realidade.

Tanto o budismo como a ciência preferem explicar a evolução e a emergência do cosmos e da vida em termos de uma complexa inter-relação das leis naturais de causa e efeito. A partir da perspectiva metodológica, as duas tradições enfatizam o papel do empirismo.

Por exemplo, na tradição investigativa budista, entre as três fontes reconhecidas de conhecimento — experiência, razão e testemunho — a evidência proveniente da experimentação está em primeiro lugar, vindo, a seguir, a razão e, por último, o testemunho. Isso significa que, na investigação budista da realidade, ao menos em princípio, o que é empírico triunfa sobre a autoridade escritural, não importando quão venerada esta possa ser.

Mesmo no caso do conhecimento derivado da razão ou inferência, sua validade deriva, em última instância, de fatos empíricos, de observações. Por causa desta perspectiva metodológica, freqüentemente comento com meus colegas budistas que as teorias da moderna cosmologia e astronomia, comprovadas a partir da observação empírica, devem nos impelir agora a modificar e, em alguns casos, rejeitar muitos aspectos da cosmologia tradicional budista.

Considerando que o motivo primordial, subjacente à investigação budista da realidade, é a busca da superação do sofrimento e do aperfeiçoamento da condição humana, a orientação básica do budismo tem se voltado à compreensão da mente humana e de suas várias funções. Parte-se da suposição de que uma maior compreensão da psyche humana nos proporcionará encontrar maneiras de transformar nossos pensamentos, emoções e propensões subjacentes, possibilitando modos de ser mais integrados e satisfatórios.

É neste contexto que a tradição budista estabeleceu uma rica classificação de estados mentais, bem como de técnicas contemplativas para o refino de certas qualidades. Assim, uma genuína troca entre o conhecimento e a experiência acumulada do budismo e a ciência moderna, no que se refere aos quesitos mais abrangentes concernentes à mente humana, desde a cognição e emoção até a compreensão da capacidade de transformação inerente ao cérebro humano, pode ser muito interessante e potencialmente benéfica.

Baseado em minha própria experiência neste campo, posso afirmar que me enriqueceu profundamente manter conversações com neurocientistas e psicólogos sobre questões tais como: a natureza e o papel das emoções negativas e positivas; a atenção; as imagens mentais; bem como a plasticidade do cérebro. 

A evidência clara, vinda da neurociência e das ciências médicas, a respeito do papel crucial de um simples toque físico para o crescimento do cérebro de uma criança durante as primeiras semanas de sua existência, demonstra com vigor a conexão íntima entre compaixão e felicidade humana. Há muito tempo o budismo proclama o potencial fantástico para a transformação existente, de forma natural, na mente humana.

Com esse objetivo, a tradição desenvolveu uma ampla gama de técnicas contemplativas ou práticas meditativas, visando especificamente a dois objetivos principais: o cultivo de um coração compassivo e de profundos vislumbres dentro da natureza da realidade, que são referidos como a união da compaixão com a sabedoria.

No coração destas práticas meditativas, estão duas técnicas-chaves, o refino da atenção e sua aplicação sustentada, por um lado, e o controle e transformação das emoções, do outro lado. Em ambos os casos, penso que pode haver um grande potencial para uma pesquisa conjunta entre budismo e neurociência. Por exemplo, a moderna neurociência desenvolveu uma rica compreensão dos mecanismos cerebrais associados com a atenção e com a emoção.

A tradição contemplativa budista oferece, por outro lado, técnicas práticas para o refino da atenção e para o controle e transformação das emoções. O encontro destas duas correntes, portanto, poderia levar à possibilidade de estudar o impacto da atividade mental intencional sobre os circuitos cerebrais que foram identificados como críticos para processos mentais específicos.

No mínimo, um tal intercâmbio interdisciplinar poderia auxiliar na formulação de questões essenciais em muitas áreas-chaves. Por exemplo, os indivíduos possuem, de fato, uma capacidade fixa para controlar suas emoções e atenção, ou, como a tradição budista afirma, sua capacidade de controlar esses processos está sujeita à mudança, implicando um grau similar de dependência em relação aos sistemas mentais e comportamentais associados a essas funções?

Uma área na qual a tradição budista pode dar uma contribuição importante é quanto a técnicas efetivas desenvolvidas para o treinamento em compaixão. No que se refere ao treino mental, tanto em atenção quanto em controle emocional, é também crucial perguntar se qualquer técnica específica possui uma sensitividade temporal em termos de sua efetividade, de modo que novos métodos possam ser criados para se adequar a necessidades decorrentes de idade, condição de saúde e outros fatores. Cabe aqui, contudo, uma advertência.

É inevitável que, quando duas tradições investigativas radicalmente diferentes, como o budismo e a neurociência, juntam-se para um diálogo interdisciplinar, isto implicará problemas "fronteiriços" que normalmente costumam ocorrer nas trocas interculturais deste tipo. Por exemplo, quando falamos de "ciência da meditação", precisamos estar atentos ao que exatamente se quer dizer com isso. Por parte dos cientistas, penso ser crucial estar atento às diferentes conotações do importante termo "meditação" em seu contexto tradicional.

Neste último, a palavra para meditação é bhavana (sânscrito) ou gom (tibetano). Bhavana tem uma conotação de "cultivo", como de um "hábito" ou "modo de ser" em particular, enquanto que gom, a de cultivar "familiaridade". Assim, em resumo, meditação, no contexto tradicional budista, refere-se a uma atividade mental deliberada que envolve o cultivo da familiaridade seja com um objeto escolhido, um fato, um tema, um hábito, uma perspectiva, ou um modo de ser.

Em sentido amplo, há duas categorias de prática meditativa: uma focada em acalmar a mente, e outra, focada sobre os processos cognitivos da compreensão, referidas como "estabilização meditativa" e "meditação analítica". Em qualquer caso, a meditação pode assumir muitas formas diferentes, por exemplo, tomar a impermanência como um objeto para análise, ou cultivar um estado mental específico, tal como a compaixão.

Também pode-se lançar mão da imaginação, utilizando o potencial humano para gerar imagens mentais e aplicá-las para o cultivo do bem-estar interior. Assim, é fundamental estar ciente sobre quais formas de meditação estamos investigando ao efetuarmos pesquisas conjuntas, de modo que a complexidade das práticas meditativas tenha um paralelo na sofisticação do método científico.

Uma outra área em que uma perspectiva crítica é requerida por parte dos cientistas está na capacidade de distinguir entre os aspectos empíricos do pensamento e prática contemplativa budista e os pressupostos filosóficos e metafísicos associados com tais práticas. Em outras palavras, da mesma maneira como precisamos distinguir, dentro da abordagem científica, entre suposições teóricas, observações experimentais e interpretações subseqüentes, no budismo, precisamos distinguir entre vaticínios, estados mentais comprováveis experiencialmente e interpretações filosóficas subseqüentes. 

Desta maneira, os dois lados podem encontrar um terreno comum de fatos observáveis empiricamente a respeito da mente humana, sem cair na tentação de tentar limitar o escopo de uma disciplina ao contexto da outra. Embora os pressupostos filosóficos e as subseqüentes interpretações conceituais possam diferir no que tange a fatos empíricos, fatos precisam continuar fatos, não importando como são descritos. 

Qualquer que seja a verdade a respeito da natureza final da consciência, seja ela redutível ou não a processos meramente físicos, penso poder existir um campo comum de compreensão dos fatos derivados da experiência a respeito dos vários aspectos da nossas percepções, pensamentos e emoções. 

Após tais considerações cautelares, penso que uma cooperação íntima entre estas duas tradições investigativas pode verdadeiramente contribuir para a expansão da compreensão do complexo mundo interno da experiência subjetiva que chamamos de "mente".

Os benefícios deste esforço já estão começando a aparecer. De acordo com relatos preliminares, os efeitos do treino mental, como por exemplo, a prática regular da Mente Atenta, ou o cultivo deliberado da compaixão, produzem mudanças observáveis no cérebro humano correlatas aos estados mentais positivos.

Descobertas recentes na neurociência demonstraram a plasticidade inata do cérebro, tanto em termos das conexões sinápticas quanto ao nascimento de novos neurônios, como resultado da exposição a estímulos externos, tais como exercícios físicos voluntários, ou um ambiente mais rico. A tradição contemplativa budista pode ajudar a expandir este campo de pesquisa científica ao propor tipos de treinos mentais que possam ter, também, correlação com a plasticidade neural.

Se disso resultar, como a tradição budista afirma, um efeito observável ao nível físico, podemos imaginar implicações de longo alcance. As repercussões de uma tal pesquisa não ficarão confinadas simplesmente à expansão do nosso conhecimento do cérebro humano, mas, mais importante ainda, impactarão mais significativamente na nossa compreensão da educação e saúde mental.

De modo similar, se o cultivo deliberado da compaixão, como a tradição budista apregoa, pode levar a uma mudança radical na perspectiva individual, isto poderá ter implicações de longo alcance para a sociedade como um todo. Finalmente, creio que a colaboração entre a neurociência e a tradição budista pode lançar uma nova luz sobre a questão de vital importância relacionada à ética.

Seja qual for o conceito que possamos ter a respeito da relação entre ética e ciência, na prática efetiva, a ciência evoluiu primordialmente como uma disciplina empírica com uma posição moralmente neutra e isenta de valores. Ela é vista essencialmente como um modo de investigação que produz um conhecimento detalhado do mundo empírico e das leis naturais subjacentes.

Do mero ponto de vista científico, a criação de armas nucleares é uma realização verdadeiramente espantosa. Contudo, já que esta criação tem o potencial de gerar enorme sofrimento em termos de destruição e morte, nós a consideramos como sendo destrutiva. É a avaliação ética que deve determinar o que pode ser considerado positivo ou negativo.

Até recentemente, esta abordagem de segregar a ética da ciência, achando que a capacidade humana para o pensamento moral evolui junto com o conhecimento, parece ter prevalecido. Hoje em dia, penso que a humanidade está numa encruzilhada crítica. Os avanços radicais que ocorreram na neurociência e particularmente na genética, próximo do final do século vinte, levaram-nos para uma nova era na história humana.

Nosso conhecimento do cérebro e corpo humanos, ao nível celular e genético, com as conseqüentes possibilidades tecnológicas de manipulação genética, alcançaram um tal estágio que os desafios éticos destes avanços científicos são de grande porte. É mais do que evidente que nosso pensamento moral simplesmente não foi capaz de se manter passo a passo com um progresso tão rápido na nossa aquisição de conhecimento e poder.

Contudo, as ramificações destas novas descobertas e suas aplicações são de tão longo alcance, que se relacionam à própria concepção da natureza humana e à preservação da espécie. De modo que, não é mais adequado adotar a visão de que nossa responsabilidade como sociedade é simplesmente apoiar o avanço do conhecimento científico e ampliar o poder tecnológico, deixando a escolha do que fazer com tal conhecimento e poder nas mãos de indivíduos.

Precisamos encontrar maneiras de introduzir considerações humanitárias e éticas fundamentais na definição da direção do desenvolvimento científico, em especial nas ciências ligadas à vida. Ao invocar princípios éticos básicos, não estou defendendo a fusão da ética religiosa com a pesquisa científica. 

Estou, isto sim, falando do que chamo de "ética secular" que abarca os princípios éticos essenciais, tais como compaixão, tolerância, cuidado com os demais seres, consideração pelas necessidades dos outros e uso responsável do conhecimento e do poder, princípios estes que transcendem as fronteiras entre correntes religiosas e, também, de não-crentes.

Eu, pessoalmente, gosto de imaginar todas as atividades humanas, incluindo a ciência, como dedos individuais de uma mesma mão. Enquanto cada um destes dedos estiver conectado com a mão da empatia e do altruísmo básicos do ser humano, continuarão a servir ao bem-estar de todos. Nós verdadeiramente vivemos em um único mundo.

A moderna economia, os meios de comunicação eletrônicos, o turismo internacional, bem como os problemas ambientais, todos eles nos lembram, cada dia, da profunda interconexão existente no mundo inteiro atualmente. As comunidades científicas desempenham um importante e vital papel neste mundo interdependente.

Por razões históricas, sejam quais forem, os cientistas desfrutam de um grande respeito e confiança da sociedade, mais até do que disciplinas tradicionais como filosofia ou religião, terreno onde eu atuo. Apelo aos cientistas que introduzam no seu trabalho profissional os ditames dos princípios éticos básicos que todos nós compartilhamos como seres humanos."


Fonte: http://www.dalailama.org.br - Traduzido por Tamas Virag e Enio Burgos.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O pequeno livro do Budismo ॐ Dalai-Lama

Sua Santidade o Dalai-Lama: Palavras de Sabedoria

“Somos os criadores de nossa própria felicidade e de nosso sofrimento, pois todas as coisas têm origem na mente. Sendo assim, precisamos assumir a responsabilidade por tudo aquilo de bom ou de ruim que experimentamos. Este livro contém a essência do budismo e oferece conselhos para a pratica da sabedoria em nossas vidas diárias nas palavras de Sua Santidade, o Dalai-Lama.

Seus pensamentos inspiradores ajudam a melhorar nosso estado de espírito e a descobrir uma profunda paz interior.”
Renuka Singh, a Editora
خ

Seus pensamentos inspiradores ajudam a melhorar nosso estado de espírito e a descobrir uma profunda paz interior“Minha esperança é que você, leitor, se sensibilizar com o que está escrito aqui, vai procurar sem compromisso em seu dia a dia e, movido pela noção de responsabilidade pelos outros, fará o possível para ajudá-los. Mesmo com pequenos gestos. De acordo com seus próprios recursos e reconhecendo as limitações de suas circunstâncias, você fará o que puder. E se em alguns dias suas ações forem mais compassivas do que em outros, aceite este fato como normal”.
Sua Santidade, o Dalai-Lama ©
خ

A essência de toda vida espiritual é a emoção que existe dentro de você, é sua atitude para com os outros. Se a sua motivação é pura e sincera, todo o resto vem por si. Você pode desenvolver essa atitude correta para com seus semelhantes baseando-se na bondade, no amor, no respeito e sobretudo na clara percepção da singularidade de cada ser humano.”
خ

O poder de cura do espírito segue naturalmente o caminho do espírito. Não reside entre as paredes dos prédios luxuosos, nem no ouro que cobre as imagens, nem na seda com que se modelam as roupas, nem mesmo no papel dos documentos sagrados, mas vive na inefável substância da mente e no coração dos homens. Devemos sublimar os instintos de nosso coração e purificar nossos pensamentos.”

خ

Se a pessoa tem uma base espiritual estável, não se deixará dominar pela sedução da tecnologia ou pela insanidade que é o desejo desenfreado de adquirir bens materiais. Essa pessoa saberá encontrar o equilíbrio sem querer demais e sabendo valorizar o que já tem. O perigo constante é abrir a porta para a ganância, um de nossos inimigos mais incansáveis. É ai que se deve por em prática o verdadeiro trabalho da mente.”
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Quando conseguirmos criar um ambiente espiritual através de rituais e obediência a certas regras, estes procedimentos tem um poderoso efeito sobre nossas vidas. Se nos falta a dimensão interior necessária para a desejada experiência espiritual, então os ritos tornam-se meras formalidades, artifícios externos. Perdem o sentido e transformam-se em hábitos dispensáveis, servindo apenas como passatempo.”
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Como um aprendiz espiritual, você deve estar preparado para enfrentar as dificuldades que estão associadas a toda busca espiritual genuína e estar determinado a persistir em seus esforços e sua vontade. Você deve tentar prever os obstáculos que forçosamente encontrará ao longo do caminho e compreender que a chave para a prática bem-sucedida é nunca abandonar sua determinação.”
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As pessoas deveriam praticar a espiritualidade com a mesma motivação da criança que está absorta brincando. Ela está tão encantada e envolvida com o que está fazendo que nunca fica satisfeita ou cansada. Essa deve ser sua atitude mental quando estiver praticando o darma.”
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O beneficio mais importante da paciência consiste em sua ação como um antídoto poderoso ao mal da raiva, a maior ameaça a nossa paz interior e, conseqüentemente, à nossa felicidade. A paciência é o melhor de que dispomos para nos defendermos inteiramente dos efeitos destrutivos da raiva. Pense bem: a riqueza não protege ninguém da raiva. Nem a educação por mais talentosa e inteligente que a pessoa seja. A lei, muito menos, pode ser de qualquer ajuda. E a fama é inútil. Só a proteção interior do autocontrole paciente evita que experimentemos o tumulto das emoções e pensamentos negativos.”
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A mente pode e deve transformar-se para melhor. Pode livrar-se das impurezas que a contaminam e levar-se ao nível mais elevado. Todos começamos com as mesmas aptidões, mas algumas pessoas as desenvolvem, outras não. Nós nos acostumamos com facilidade à preguiça da mente, sobretudo porque muitas vezes esta preguiça se esconde sob a aparência de atividade: corremos de um lado para outro, fazemos cálculos e damos telefonemas. No entanto, tudo isso ocupa apenas os níveis mais toscos e elementares da mente. E oculta o que existe de essencial em nós.”
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A culpa é um sentimento incompatível com nosso pensamento, pois acreditamos que somos parte de uma ação, mas não somos inteiramente responsáveis por ela. Somos apenas parte do fator que contribuiu para a ação. Entretanto, em alguns casos, devemos sentir arrependimento, deliberadamente assumir responsabilidades, lamentar o ocorrido e nunca cometer aquele erro outra vez.”
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Nossas vidas são condicionadas pelo karma e são caracterizadas por sucessivos ciclos de problemas. Um problema começa, termina e logo tem início um outro problema.”
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Karma é uma palavra sânscrita que significa “ação”. Designa uma força ativa, significando que o resultado dos acontecimentos futuros pode ser influenciado por nossas ações. Supor que karma é uma espécie de energia independente que predestina o curso de toda a nossa vida é incorreto. Quem cria o karma? Nós mesmos. O que pensamos, dizemos, fazemos, desejamos e omitimos cria o karma. Não podemos, portanto, sacudir os ombros sempre que nos defrontamos com o sofrimento inevitável. Dizer que todo o infortúnio é mero resultado do karma equivale a dizer que somos totalmente impotentes diante da vida. Se isso fosse verdade, não haveria motivo para ter qualquer esperança”.
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Ori! Saravá o povo do Oriente!
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Bibliografia:

Somos os criadores de nossa própria felicidade e de nosso sofrimento, pois todas as coisas têm origem na mente. Sendo assim, precisamos assumir a responsabilidade por tudo aquilo de bom ou de ruim que experimentamos. Este livro contém a essência do budismo e oferece conselhos para a pratica da sabedoria em nossas vidas diárias nas palavras de Sua Santidade, o Dalai-lama.  Seus pensamentos inspiradores ajudam a melhorar nosso estado de espírito e a descobrir uma profunda paz interior.” Renuka Singh, a Editora
Palavras de Sabedoria, Por Dalai-Lama

Este pequeno livro contém ensinamentos essenciais sobre o budismo, e foi escrito pelo Dalai-Lama, um dos maiores líderes espirituais de nosso tempo.

Estas lições associam a sabedoria antiga à compreensão dos problemas da vida moderna e nos estimulam a refletir sobre a importância do amor, da compaixão e da necessidade da responsabilidade individual. 

Compre agora por um preço que cabe no seu bolso!

Copyright © Sua Santidade, o Dalai-Lama 1999.
Copyright da tradução © Sua Santidade o Dalai-Lama 2001
Todos os direitos reservados, no Brasil, por Editora Sextante (GMT Editores Ltda.)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Desenvolvendo a compaixão

por Sua Santidade o Dalai-Lama

Alguns de meus amigos me disseram que, ainda que o amor e a compaixão sejam bons e maravilhosos, eles não são realmente muito relevantes. Nosso mundo, eles dizem, não é um lugar onde estas convicções têm muita influência ou poder. Eles defendem que a raiva e o ódio são partes tão inerentes à natureza humana, que a humanidade será sempre dominada por eles. Não concordo.

Nós humanos existimos em nossa forma atual por algo em torno de cem mil anos. Acredito que, se durante esse tempo a mente humana tivesse sido primordialmente controlada por raiva e ódio, nossa população teria decrescido. Todavia, hoje, apesar de todas as nossas guerras, nos damos conta que nossa população é a maior de todos os tempos. Isto claramente me diz que o amor e a compaixão predominam no mundo.

E, é por isso que eventos desagradáveis são notícia. As atividades compassivas são tão comuns em nossa vida diária, que são dadas como certas e, portanto, largamente ignoradas.

Até aqui discuti principalmente os benefícios mentais da compaixão, mas, ela também contribui para a boa saúde física. De acordo com minha experiência pessoal, estabilidade mental e bem-estar físico estão diretamente relacionados. Inquestionavelmente, raiva e agitação nos tornam mais suscetíveis à doença. Ao contrário, se a mente está tranquila e ocupada com pensamentos positivos, o corpo não será presa fácil da doença.

Porém, é claro que também é verdade, que todos temos uma faceta inata autocentrada que inibe nosso amor por outrem. Portanto, visto que desejamos a felicidade verdadeira, que é produzida apenas por uma mente calma, e, visto que tal paz mental é produzida apenas por uma atitude compassiva, como é que podemos desenvolver isso? Obviamente, não nos é suficiente simplesmente pensarmos quão boa é a compaixão! Necessitamos empreender um esforço combinado para alcançá-la; precisamos utilizar todos os eventos de nossa vida diária para transformar nossos pensamentos e comportamento.

Primeiramente, devemos compreender claramente o que entendemos como compaixão. Muitas formas de sentimento compassivo são confundidas com desejo e apego. Por exemplo, o amor que os pais sentem por seus filhos é frequente e fortemente associado com suas próprias carências emocionais, não sendo, desse modo, totalmente compassivo. Assim também, no casamento, o amor entre marido e mulher, especialmente no início, quando cada parceiro ainda não conhece bem o caráter mais profundo do outro, depende mais do apego do que de genuíno amor. Nosso desejo pode ser tão forte que a pessoa a quem estamos apegados nos parece boa, quando, na verdade, ele ou ela é muito negativo. Adicionalmente costumamos exagerar pequenas qualidades positivas. Assim, quando a atitude de um parceiro muda, o outro, frequentemente se desaponta e, sua atitude também se modifica. Esta é uma indicação de que o amor foi mais motivado por carência pessoal do que por genuíno interesse pelo outro indivíduo.

A verdadeira compaixão não é apenas uma resposta emocional, mas, um compromisso firme fundamentado na razão. Portanto, uma atitude verdadeiramente compassiva em relação aos outros não se modifica, mesmo que eles se comportem negativamente.

É claro que não é nada fácil desenvolver esse tipo de compaixão! Para começar, consideremos os seguintes fatos:

Quer as pessoas sejam bonitas e amigáveis, ou pouco atraentes e desagradáveis, em última análise, são todos seres humanos, assim como nós mesmos. Como nós mesmos, elas querem a felicidade e, não querem sofrer. Além disso, o direito delas de sobrepujar o sofrimento e, ser felizes, é igual ao nosso próprio. Ora, quando você reconhece que todos os seres são iguais, tanto no seu desejo de felicidade, quanto no seu direito de obtê-la, você automaticamente sente proximidade e empatia para com elas. Ao acostumar sua mente a esse sentimento de altruísmo universal, você desenvolve um senso de responsabilidade pelos outros: o desejo de ajudá-los ativamente a superar os problemas deles. Este desejo também não é seletivo, ele se aplica igualmente a todos. Por serem eles seres humanos, que experimentam dor e prazer, tanto quanto você, não há fundamentação lógica para qualquer discriminação entre eles, ou mesmo, para alterar sua preocupação para com eles, caso eles se comportem negativamente.

Deixem-me enfatizar que está ao nosso alcance, dados o tempo e a paciência, desenvolver esse tipo de compaixão. É claro que nossa faceta autocentrada, nosso apego distintivo ao sentimento de um "eu", auto-existente e independente, trabalham fundamentalmente para inibir nossa compaixão. Com efeito, a verdadeira compaixão pode ser experimentada apenas quando esse tipo de entendimento do "eu" é eliminado. Porém, isto não significa que não podemos começar e progredir agora.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Nossa necessidade de amor

por Sua Santidade o Dalai-Lama

Em última análise, amor e compaixão acarretam a maior felicidade simplesmente porque nossa natureza as valoriza acima de tudo o mais. A necessidade de amor repousa no verdadeiro fundamento da existência humana. Resulta da profunda interdependência que todos repartimos uns com os outros. Por mais capaz e hábil que seja o indivíduo, se deixado só, ele ou ela não sobreviverá. Por mais vigorosa e independente que possa se sentir uma pessoa durante os períodos mais prósperos da vida, quando ela estiver doente, ou muito jovem, ou muito velha, ela precisará depender do apoio de outros.

Interdependência é claro, é uma lei fundamental da natureza. Não apenas formas mais elevadas de vida, mas, até mesmo muitos dos menores insetos, são seres sociais que, sem qualquer religião, lei ou educação, sobrevivem através de mútua cooperação baseada num reconhecimento inato de sua interconexão. O nível mais sutil do fenômeno material também é governado pela interdependência. Todos os fenômenos do planeta que habitamos, nos oceanos, nuvens, florestas e flores que nos circundam, se manifestam em interdependência por meio de sutis padrões de energia. Sem uma interação adequada, eles se deterioram e se dissolvem.

Nossa necessidade de amor repousa no verdadeiro fundamento da existência humana, pelo fato de que nossa própria existência humana é tão dependente da ajuda de outros. Portanto, necessitamos de um genuíno senso de responsabilidade e, de uma sincera preocupação pelo bem-estar de outros.

Devemos levar em consideração o que nós, seres humanos, realmente somos. Não somos como os objetos fabricados por máquinas. Se fôssemos apenas entidades mecânicas, então as próprias máquinas seriam capazes de aliviar todos os nossos sofrimentos e preencher as nossas necessidades. Todavia, por não sermos apenas criaturas materiais, seria um erro colocarmos todas as nossas esperanças por felicidade somente no desenvolvimento exterior. Em vez disso, deveríamos levar em consideração nossas origens e nossa natureza, para descobrirmos o que necessitamos.

Deixando de lado a complexa questão da criação e evolução de nosso universo, podemos ao menos concordar que cada um de nós é um produto de nossos pais. Em geral, nossa concepção não se deu apenas no contexto do desejo sexual, mas, da decisão de nossos pais de ter um filho. Tais decisões estão fundamentadas em responsabilidade e altruísmo, o compromisso compassivo dos pais de cuidar de seu filho até que ele seja capaz de cuidar de si mesmo. Portanto, a partir do verdadeiro momento de nossa concepção, o amor de nossos pais está diretamente em nossa criação.

Além disso, somos completamente dependentes da atenção de nossas mães desde os mais tenros estágios de nosso crescimento. De acordo com alguns cientistas, o estado mental de uma mulher grávida, seja ele calmo ou agitado, tem um efeito físico direto no filho ainda em estágio de formação.

A manifestação de amor também é muito importante na hora de dar à luz. Visto que a primeira coisa que realmente fazemos é sugar o leite do seio materno, nós naturalmente nos sentimos ligados a ela e, ela deve sentir amor por nós para nos alimentar adequadamente, se ela sentir raiva ou ressentimento, seu leite poderá não fluir livremente.

Há então o crítico período do desenvolvimento do cérebro, desde o nascimento até ao menos a idade de três ou quatro anos, quando o contato físico amoroso é o fator mais importante para o crescimento normal da criança. Se a criança não for abraçada, amparada, afagada ou amada, seu desenvolvimento será prejudicado e seu cérebro não amadurecerá apropriadamente.

Visto que a criança não pode sobreviver sem o cuidado de outrem, seu mais importante alimento é o amor. A felicidade da infância, a pacificação dos inúmeros temores da criança e, o desenvolvimento salutar de sua autoconfiança, tudo depende diretamente do amor.

Hoje em dia, muitas crianças crescem em lares sem felicidade. Se elas não recebem afeição adequada, mais tarde na vida, raramente amarão seus pais e, não raro, terão dificuldade em amar outros. Isto é muito triste.

A medida que as crianças crescem e vão à escola, suas necessidades de apoio precisam ser supridas por seus professores. Quando um professor não apenas compartilha educação acadêmica com seus alunos, mas, também assume a responsabilidade de prepará-los para a vida, seus alunos ou alunas sentirão confiança e respeito e, o que lhes tiver sido ensinado causará indelével impressão em suas mentes. Ao contrário, assuntos ensinados por um professor que não demonstrou preocupação verdadeira pelo bem-estar geral de seus alunos, serão considerados apenas temporariamente e, não serão retidos por muito tempo.

Do mesmo modo, se algum doente é tratado num hospital por um médico que evidencia o sentimento de calor humano, ele se sentirá à vontade e, o desejo médico de dar a melhor atenção possível é, por si só, curativo, independentemente do grau de especialização médica. Ao contrário, se o médico de alguém carecer de sentimento humano e demonstrar uma expressão pouco amigável, impaciência ou desconsideração casual, esse alguém se sentirá ansioso, mesmo que o médico seja da mais alta qualificação, que a doença tenha sido corretamente diagnosticada e, que a medicação correta tenha sido prescrita. Inevitavelmente, os sentimentos do paciente fazem a diferença na qualidade e na extensão de sua recuperação.

Até mesmo quando nos envolvemos em uma simples conversa em nossa vida diária, se alguém fala com sentimento humano, temos prazer em ouvir e, responder do mesmo modo: toda a conversa se torna interessante, por menos importante que seja o assunto. Ao contrário, se uma pessoa fala de modo frio e duro, sentimo-nos pouco à vontade e desejamos que aquela interação termine logo. A afeição e o respeito pelos outros são vitais para nossa felicidade em qualquer circunstância, desde o menos significativo, até o mais importante evento.

Recentemente, me encontrei com um grupo de cientistas norte-americanos que diziam que a taxa de doenças mentais em seu país era muito alta, ao redor de doze porcento da população. Durante nossa discussão, tornou-se claro que a principal causa da depressão não era a falta de necessidades materiais, mas, carência da afeição de outrem. Portanto, como você pode ver de tudo o que escrevi até aqui, uma coisa me parece clara: quer estejamos conscientemente atentos a isso, ou não, a necessidade de afeição humana está em nosso próprio sangue, desde o dia em que nascemos. Mesmo que a afeição venha de um animal, ou de alguém que normalmente consideraríamos um inimigo, tanto crianças como adultos, naturalmente gravitarão ao redor dela.

Acredito que ninguém nasce livre da necessidade de amor. E, isto demonstra que, ainda que algumas modernas escolas de pensamento procurem fazê-lo, seres humanos não podem ser definidos como sendo apenas físicos. Nenhum objeto material, por mais belo ou valioso, pode nos fazer sentir amados, porque nossa mais profunda identidade e verdadeiro caráter repousam na natureza subjetiva da mente.

Fonte: http://www.dalailama.org.br

domingo, 27 de junho de 2010

Conte com quem tem qualidades superiores as suas




"Se você conta com alguém que tem menos qualidades que você, isso levará a sua degeneração. Se você conta com alguém com qualidades iguais às suas, você permanece onde está. Somente quando conta com alguém cujas qualidades são superiores às suas é que você atinge uma condição sublime."

"Si usted cuenta con alguien que tiene menos cualidades que tú, esto dará lugar a su degeneración. Si usted cuenta con alguien con cualidades similares a la tuya, te quedas donde estás. Sólo cuando cuenta con alguien cuyas cualidades son superiores a la suyas es que se topa con un estado de sublime."

~Dalai Lama
(Palavras de Sabedoria, pg. 88, Ed. Sextante 2001)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Os Alicerces da Paz Interior - por S. S. o Dalai-Lama



"Minha mensagem é a prática do amor, da compaixão e da bondade. Estas qualidades são muito úteis para vivermos nosso cotidiano mais harmoniosamente, e também muito importantes para a sociedade humana como um todo.

Uma profunda compaixão é a raiz de todas as formas de adoração.

Aonde quer que eu vá, sempre aconselho as pessoas a serem altruístas e bondosas. Tento concentrar toda a minha energia e força espiritual na disseminação da bondade. É o que há de mais essencial.

A bondade é o que realmente importa. A bondade, o amor e a compaixão combinados são sentimentos que levam à essência da fraternidade. São os alicerces da paz interior.

Com sentimentos de ódio e rancor, é muito difícil alcançar a paz interior. Neste sentido, as religiões e crenças são convergentes. Em todas as grandes religiões do mundo, a ênfase é no espírito de fraternidade.

São os inimigos que verdadeiramente nos ensinam a vivenciar sentimentos de compaixão e tolerância. As guerras surgem porque não há compreensão do lado humano das pessoas. Ao invés de conferências e encontros políticos, por que não convocar as famílias a fazerem um piquenique para que se conheçam mutuamente, enquanto suas crianças brincam juntas?

Nos tempos antigos, quando havia uma guerra, o embate era corpo a corpo. O vitorioso entrava em contato direto com o sangue e o sofrimento do inimigo durante a batalha. Hoje, as guerras adquiriram uma proporção muito mais horrenda. Um homem, sentado em uma sala, aperta um botão e mata milhões de pessoas instantaneamente, sem ao menos ver o sofrimento humano que infligiu. A mecanização da guerra e a automação do conflitos humanos são, cada vez mais, uma ameaça à paz mundial.

Sempre acreditei que a determinação humana e a verdade prevaleceriam sobre a violência e a opressão. No mundo de hoje, em todos os lugares, há mudanças importantes ocorrendo, que poderão afetar profundamente nosso futuro e o futuro da humanidade, bem como nosso planeta. Decisões corajosas por parte de vários líderes mundiais propiciam a resolução pacífica de conflitos. A esperança de haver paz, preservação do meio ambiente e uma abordagem mais humana aos problemas do mundo parece estar mais presente que nunca.

Ninguém pode prever o que acontecerá em algumas décadas ou séculos, por exemplo, qual o impacto que o desflorestamento terá sobre o clima, o solo, as chuvas. Temos muitos problemas porque as pessoas estão centradas em seus próprios interesses, em ganhar dinheiro e não estão pensando no bem-estar da comunidade como um todo. Não estão pensando na Terra a longo prazo, e nos efeitos ambientais adversos sobre o homem. Se nós, da atual geração, não refletirmos sobre estas questões agora, as gerações futuras não terão como lidar com elas.

Muitos de nós juntam-se sob o mesmo sol resplandecente, falando línguas diversas, vestindo indumentárias diferentes e até mesmo possuindo crenças distintas. Contudo, nós todos somos idênticos como seres humanos e individualmente únicos. Desejamos todos, indistintamente, a felicidade e não o sofrimento.

Mesmo que não possamos resolver certos problemas, não devemos nos frustrar. Como humanos devemos enfrentar a morte, a velhice e doenças, que, tal qual um furacão, são fenômenos naturais que fogem ao nosso controle. Devemos enfrentá-los, não podemos evitá-los. São sofrimentos que já bastam em nossa vida. Por que criarmos mais problemas por apego à nossa ideologia ou porque pensamos de maneira diferente? É inútil e triste! Milhões de pessoas sofrem com esse tipo de problema. É um verdadeiro desperdício, visto que podemos evitar o sofrimento adotando uma atitude diferente e reconhecendo a humanidade à qual as ideologias deveriam servir.

Rancor, ódio, ciúme: não é possível encontrar a paz com eles. Podemos resolver muitos de nossos problemas por meio da compaixão e do amor. Só assim nos desarmaremos e encontraremos a verdadeira felicidade. Uma das maiores virtudes é a compaixão. A compaixão não pode ser comprada numa loja de departamentos ou fabricada por máquinas. Ela advém do crescimento interior. Sem paz de espírito, é impossível haver paz no mundo.

Na nossa vida, cultivar a tolerância é muito importante. Com tolerância, pode-se facilmente superar as dificuldades. Caso você tenha pouca ou nenhuma tolerância, ficará irritado com as mínimas coisas. Em situações difíceis, terá reações extremadas. Em minha vida, já refleti muito a respeito desta questão e sinto que a tolerância é algo que deve ser praticado no mundo inteiro, no seio da sociedade humana. 


Mas, quem nos ensina tolerância? Pode ser que seus filhos o ensinem a cultivar a paciência, mas é seu inimigo quem irá ensinar-lhe a prática da tolerância. O inimigo é seu mestre. Mostre-lhe respeito, ao invés de ódio. Dessa forma, a verdadeira compaixão irá brotar de seu interior e essa compaixão é a base de tudo aquilo que você é e acredita.

Bens e compensações materiais são absolutamente necessários à sociedade humana, a um país, a uma nação. Ao mesmo tempo, o progresso material e a prosperidade somente não podem levar à paz interior. A paz interior vem de dentro. Portanto, nossa atitude perante a vida, perante os outros e principalmente em relação às nossas dificuldades conta muito. Quando duas pessoas enfrentam o mesmo problema, atitudes mentais distintas fazem com que o problema seja de mais fácil resolução para uma pessoa do que para outra. Desta forma, o que realmente nos diferencia é a perspectiva interna de cada um.

Se colocarmos os níveis de consciência mais sutis a nosso serviço, estaremos expandindo nossa mente. Assim sendo, as virtudes originárias da mente podem se expandir ilimitadamente.

A compaixão e o amor são as virtudes mais preciosas da vida. Por serem muito simples, são difíceis de serem colocados em prática. A compaixão só poderá ser plenamente cultivada à medida que se reconhece que cada ser humano é parte da humanidade e pertencente à família humana, independente de religião, raça, cultura, cor e ideologia. A verdade é que não há diferença alguma entre os seres humanos.

Sem amor, a sociedade humana encontra-se em situação difícil. Sem amor, iremos enfrentar problemas terríveis no futuro. O amor é o centro da vida.

Se tiver amor e compaixão por todos os seres sencientes, em especial por seus inimigos, este é o verdadeiro amor e a verdadeira compaixão. O amor e compaixão, nutridos por seus amigos, esposa e filhos, não são verdadeiros em sua essência. São apego, e esse tipo de amor não pode ser infinito.

Insisto em afirmar que as principais religiões do mundo — budismo, cristianismo, judaísmo, confucionismo, hinduísmo, islamismo, jainismo, sikhismo, taoísmo, zoroastrismo — possuem os mesmos ideais de amor, o mesmo objetivo de beneficiar a humanidade por meio da prática espiritual, e a mesma determinação de aprimorar seus praticantes como seres humanos. Todas as religiões pregam preceitos morais para o aperfeiçoamento da mente, do corpo e da fala. Todas nos ensinam a não mentir, roubar ou tirar a vida de outras pessoas. A essência de todos os preceitos morais preconizados pelos grandes mestres da humanidade é o não-egoísmo. Esses mestres tinham como objetivo remir os praticantes de ações negativas, frutos da ignorância, e conduzi-los ao caminho do bem.

Se percebemos a humanidade como sendo una e singular, iremos constatar que as diferenças são secundárias. Com atitude de respeito e preocupação pelo próximo, experimentamos a felicidade. Só assim criamos a verdadeira harmonia e fraternidade. À sua maneira, tente cultivar a paciência. Modifique sua atitude. As mudanças vêm com a prática. A mente humana tem esse potencial. Aprenda a treiná-la.

A nossa sombra interior, a que chamamos de ignorância, é a raiz de todo o sofrimento. Quanto mais luz houver, menos a sombra se manifestará. A luz é o único caminho para a salvação, para alcançar o nirvana.

Deve haver um equilíbrio entre o progresso espiritual e o material. Atinge-se esse equilíbrio por meio de princípios calcados no amor e na compaixão. O amor e a compaixão são a essência de todas as religiões, que têm muito a aprender entre si. O objetivo primordial de todas as religiões é criar seres humanos mais tolerantes, mais compassivos e menos egoístas.

Os seres humanos são dotados de uma natureza tal que não deveriam apenas possuir bens materiais, mas deveriam antes possuir sustento espiritual. Sem o sustento espiritual, torna-se difícil adquirir e manter a paz de espírito.

Para cultivar a sabedoria, é preciso força interior. Sem crescimento interno, é difícil conquistar a autoconfiança e a coragem necessárias. Sem elas, nossa vida se complica. O impossível torna-se possível com a força de vontade."

Fonte: http://www.dalailama.org.br/

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

As Religiões e a Compaixão, por Sua Santidade o Dalai Lama

"Por causa das diferenças filosóficas entre as grandes religiões existem diferentes técnicas para desenvolver a compaixão e algumas diferenças da definição do que seja. Mas basicamente todas elas falam da necessidade de se cultivar a compaixão.

Portanto, sinto que mesmo neste século, as maiores tradições religiosas têm um papel importante no desenvolvimento dessas qualidades.

Vejo aqui pessoas de diferentes tradições religiosas, o que me faz sentir feliz, porque a tolerância religiosa é muito importante. E acredito que, independente de diferentes tradições religiosas, todos temos o potencial de ajudar a humanidade.

Vim do Oriente e sou um monge budista, assim, naturalmente, quando falo desses valores e do treinamento da mente, o faço da minha perspectiva de monge budista. Mas é claro que não quero influenciá-los. Vocês devem manter suas tradições religiosas, mudar de religião não é bom, pode gerar mais confusão do que benefício.

Portanto, mantenham e sigam sua fé. Cada uma das grandes religiões tem coisas únicas, mas também há muita coisa em comum entre elas. Assim, é sábio usar técnicas úteis de outras religiões, mesmo sem mudar de religião. Até para aplicá-las na própria religião. Com isso, as tradições religiosas diferentes desenvolvem respeito mútuo e compreensão. Isso é fundamental.

A compaixão e a bondade são indispensáveis. Sem esses valores não há felicidade. Mas muitos crêem que a prática de valores como a compaixão, o perdão e o amor são relevantes apenas para os que praticam uma religião. Isso não é verdadeiro. Podemos ver que no passado e presente existiram pessoas que mesmo sem nenhuma fé religiosa tinham esse sentimento de cometimento, de responsabilidade, de compaixão pelo próximo. Essas pessoas se tornaram mais felizes, mais úteis, mais benéficas para a sociedade."

S.S. Dalai Lama 

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A voz interior e a fé segundo o Lama





"Sabendo ouvir sua mente você se voltará para fé e para devoção. Você poderá cultivar a alegria em seu íntimo e conseguirá manter o equilíbrio de sua mente."


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segunda-feira, 15 de junho de 2009

O antídoto contra ignorância




"O caminho tem dois aspectos: o aspecto metódico, que engloba as práticas da compaixão e da tolerância, e o aspecto da sabedoria e do conhecimento, relacionado à sagacidade para penetrar na natureza da realidade. A última parte do caminho é o verdadeiro antídoto para eliminar a ignorância."
- S.S. Dalai-Lama

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