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quinta-feira, 20 de maio de 2010

A Medicina Popular em seus aspectos gerais



por Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo

Quem já não apelou aos santos de devoção para pedir socorro? Quem nunca tomou um chá feito com folhinhas lá do quintal ou, mesmo, de um potinho guardado no fundo de uma prateleira da cozinha, antes mesmo de ir ao médico? Quem já não rezou pedindo algum tipo de cura?

Agora, saindo daquele estado de levitação a que nos conduziu o conferencista, vamos colocar os pés no chão e caminharmos juntos pelos caminhos da ciência, para analisarmos os fatos que dão consistência à medicina popular.

Embora possamos estar diante de fatos subjetivos que animam essa medicina, ao analisá-los, nada nos impede de aplicarmos métodos objetivos, que nos permitam compreender os motivos que dão sentido à permanência de procedimentos, que num primeiro momento nos parecem incompatíveis com o pensamento médico científico..

Será o ato de somar fatos concretos passíveis de serem analisados sob a luz da ciência, com os elementos subjetivos que fazem parte da cosmovisão médica daqueles que aderem a essa medicina que vamos discutir neste Simpósio.

Primeiramente, é importante que fique bastante claro o que se entende por medicina popular, visto que as definições, muitas vezes apressadas, não retratam com precisão essa realidade com a qual as sociedades contemporâneas, convivem com certa harmonia.

Heranças de uma medicina ancestral, fazem com que os brasileiros mantenham incorporados em seu patrimônio cultural, procedimentos médicos que lembram aqueles adotados por nossos antepassados mais próximos e com os quais convivemos e aprendemos. Na sucessão das gerações tais procedimentos vão sendo repetidos ao mesmo tempo que vão se adequando às realidades histórias com as quais vão convivendo.

São essas reminiscências que vão fornecer subsídios de real valor para as ciências médicas e farmacêuticas; porém, isso será possível quando trabalhadas sistematicamente com os informantes certos, através de critérios metodológicos perfeitamente ajustados aos interesses da pesquisa.

Uma perfeita definição de medicina popular se faz necessário, para que possam ser traçados planos de trabalho. Precisamos saber com precisão de que estamos tratando.

(1) Primeiramente, deve-se entender a medicina popular como sistema médico, visto englobar um conjunto de procedimentos que vão desde os métodos próprios de diagnóstico até as diferentes formas de terapias.

(2) Não se deve, pois, confundir, medicina popular com terapia popular. As terapias populares se confundem nas sociedades modernas por existirem aquelas improvisadas e adotadas por "leigos" que, por imitação, preparam remédios ditados por curiosos que se dizem entendidos de plantas medicinais. Muitas vezes são receitas repetidas dentro da família, que vão sendo passadas de gerações a gerações e que o tempo vai se incumbindo de deformá-las. Devemos lembrar que as realidades com as quais nossos antepassados conviviam não são as mesmas com as quais nós, hoje , convivemos. São receitas indicadas para patologias mal definidas, como dor de barriga, dor na boca do estômago, dor nas urinas, etc

(3) A medicina popular na realidade compreende um corpo de conhecimentos e de práticas médicas que se desenvolve através de uma dinâmica própria, com base no conhecimento empírico, segundo os diferentes contextos sócio-culturais onde ela possa estar inserida.

(4) As diferenças desses contextos culturais podem estar em peculiaridades que vão sobrevivendo às gerações e que são próprias de grupos de indivíduos que se articulam em campos semânticos próprios dentro de um mesmo grupo social, em permanente contato com outros grupos, tanto nas sociedades urbanas como rurais. Exemplos são os curadores vinculados a diferentes credos religiosos promovendo curas, coabitando o mesmo espaço nas sociedades contemporâneas, ao lado, também, do sistema médico oficial com programas de saúde ao alcance de todos.

(5) Observa-se que a medicina popular no Brasil, de uma forma ou de outra, está sempre vinculada a diferentes sistemas religiosos. Temos, o catolicismo, o pentecostalismo, o espiritismo e os sistemas religiosos afro-brasileiros, principalmente, propondo curas.

(6) A urbanização da medicina rural tem trazido problemas decorrentes da desinformação, principalmente nos grandes centros industrializados, onde há grande especulação no comércio de plantas medicinais, podendo, assim ser comercializado um material sem controle, tanto na qualidade como na validade. Dúvidas quanto a procedência e a legitimação da espécie vendida, são constantes, ou seja, se ela é realmente a planta que o comprador procura, e se ela procede de fontes confiáveis. Os nomes vulgares confundem tanto os consumidores como os vendedores, pois os nomes variam de uma região para outra, mesmo se tratando de uma mesma espécie botânica. Devem ser considerados, ainda, os modismos que se infiltram nas sociedades através da mídia, levando aos adeptos da medicina natural, muitas vezes mal compreendida, receitas mágicas. São preparados à base de plantas que servem para emagrecer, para rejuvenecer ou para o controle de doenças como diabetes, hipertensão arterial, impotência sexual, depressão, etc

(7) Assim, nesses ambientes tão cheios de controvérsias, torna-se difícil estabelecer planos de pesquisa que envolvam as plantas usadas na medicina popular. Porém, é em meio a essa aparente confusão que se deve saber separar aqueles que realmente detêm os conhecimentos das práticas médicas ditas populares. Tais conhecimentos são aqueles passados de geração a geração e que poderão se transformar nos elementos básicos para o desenvolvimento dos estudos das plantas medicinais. Os detentores desses conhecimentos são os curandeiros, raizeiros, benzedores, etc. que, em permanente contato com as plantas medicinais , sabem reconhecê-las, manipulá-las e indicar as doses terapêuticas corretas para as doenças por eles determinadas, através de técnicas próprias de diagnóstico

(8) Através da medicina popular será possível resgatar as experiências humanas com as plantas medicinais que poderão estar direcionadas às investigações científicas dos princípios ativos de interesse para as Ciências Farmacêuticas. Os procedimentos metodológicos a serem aplicados visam uma melhor compreensão quanto aos papéis que as plantas desempenham na medicina popular. 


Os estudos dessa medicina devem estar voltados, também, às peculiaridades quanto aos papéis das plantas nos processos de cura, próprios dos grupos sociais que se articulam dentro do mesmo espaço, tanto nas sociedade rurais como urbanas contemporâneas. Excluem-se daí as práticas médicas próprias de grupos étnicos isolados ou em relações interétnicas, trabalho que cabe a estudiosos, cujos interesses estão voltados exclusivamente, a esses grupos de indivíduos

(9) Por meio, também, dos sistemas taxonômicos elaborados pelos grupos, que classificam as plantas segundo suas propriedades terapêuticas, será possível traçar sua relação com a organização simbólica dos rituais de cura, uma vez que eles se vinculam a credos religiosos, o elemento primordial que garantirá a eficácia das terapias adotadas, visto serem os curadores dotados de poderes de cura, segundo são suas crenças religiosas, contando, principalmente, com o poder da fé

(10) Em razão do vínculo da medicina popular com os diferentes credos religiosos, as plantas nestes contextos desempenham basicamente dois papéis, que embora possam ser analisados separadamente, eles são interdependentes: papel sacral e papel terapêutico. O primeiro, tendo seu papel na organização simbólica do ritual de cura e o segundo, cumprindo seu papel terapêutico conforme são os princípios ativos e as atividades biológicas próprias de cada planta. Devemos lembrar, que, devido às idéias religiosas que envolvem a medicina popular, ela em seu todo, se prende a um universo sacralizado, controlador das forças sobrenaturais. Assim, a etiologia se baseia, principalmente, em princípios de ordem sobrenatural, podendo ser a causadora das doenças a negligência religiosa, a crença nas forças sobrenaturais causando doenças, os feitiços, as pragas, os trabalhos "negativos" provocados por terceiros, a mediunidade não desenvolvida e, ainda, as doenças kármicas. Os simbolismos que envolvem as plantas medicinais empregadas em rituais de cura poderão, também, serem melhor explicados quando analisados sob a ótica da Psicanálise, visto que a eficácia das terapêuticas aplicadas vai depender da convicção religiosa de cada indivíduo, que admite serem os curadores dotados de poderes sobrenaturais capazes de impregnar as plantas de força mágica ou o axé que garantirá a eficácia do medicamento. A cosmovisão médica do homem em seu meio sócio-cultural é a chave para se compreender e interpretar os quadros nosológicos que envolvem corpo e mente e as terapias adotadas e que, geralmente fogem ao entendimento médico científico. Exemplos estão nas denominações das doenças, tais como doença de macaco, mal-de-sete-dias, espinhela caída, mal-de-bofe, mau-olhado. Através de uma correlação nosológica a partir do histórico apresentado pelo paciente, será possível estabelecer comparações que permitam ao médico dar sua interpretação e diagnóstico. Exemplo de síndrome policarencial, característico da doença de macaco, apresentando um estado de depauperamento, geralmente ocorrendo em crianças bem novas.

(11) A terapêutica na medicina popular é, geralmente, sintomática. A partir das queixas o curador vai indicar os remédios certos. As plantas não estão só nas preparações de garrafadas, em bebidas rituais, em chás, mas também em banhos e defumações através das plantas cremadas em cigarros, charutos, cachimbos e incensórios. Assim, a medicina popular através de seus legítimos donos do saber médico, poderá emprestar ao saber científico os reais valores de muitas plantas que ainda estão a espera de pesquisas, hoje de grande interesse para a as Ciências Farmacêuticas.Sabemos da importância da Fitoterapia nos programas de saúde, quando dirigidos, principalmente, aos países do terceiro mundo, visando o barateamento dos medicamentos.Existem muitas discussões neste sentido.

(12) Porém, os estudos das plantas medicinais direcionados à Fitoterapia, vem, ainda, a exigir muita reflexão, visto que muitos são os senões relativos aos produtos fitoterápicos, sua industrialização, divulgação e distribuição.

A própria mídia se incumbe de divulgar esses produtos, quando industrializados, apresentando, inclusive, as indicações terapêuticas e maneiras de usá-los, poupando ao interessado, a ida ao médico, facilitando a auto-medicação.

Outro fator importante é o controle de qualidade e a divulgação dos efeitos colaterais, interações medicamentosas e reações adversas, que podem advir com o consumo de tais produtos, que dificilmente o consumidor conhece e, possivelmente, nem mesmo quem os produz, devido à falta de procedimentos relacionados á experimentação clínica. Neste sentido, sabemos que as pesquisas de plantas medicinais até chegar á liberação para consumo, requer muitos anos e grandes somas.

De outro lado, devemos refletir sobre o produto fitoterápico em si. Se perguntarmos sobre a origem do produto, vamos deparar com situações embaraçosas, pois, muitas vezes são oriundos de laboratórios pouco idôneos. A vigilância sanitária volta e meia se depara com situações que exigem o rigor de tirar do mercado todos aqueles de qualidade duvidosa.

Primeiramente, reflitamos sobre uma realidade que nos conduz ao papel da ciência de teorizar suas conquistas. No campo da quimiotaxonomia o cientista determina as estruturas químicas de princípios ativos das plantas de interesse medicinal, cujas atividades biológicas já foram investigadas.

Os resultados conduzem à síntese, permitindo que a industria farmacêutica elabore medicamentos, não necessitando mais da planta que deu origem àquela estrutura química. Mas, em se tratando de medicamentos fitoterápicos, cuja matéria prima são as plantas na sua totalidade, essa verdade absoluta conquistada em laboratório, torna-se relativa, visto que a matéria prima do medicamento tem procedências variadas. As diferentes partidas de medicamentos produzidos com uma mesma espécie botânica, nunca serão iguais, visto que fatores de ordem ecológica interferem na produção de princípios ativos.

Ao lidarmos com vegetais precisamos nos ater aos processos dinâmicos de desenvolvimento que os envolvem. Eles nascem, crescem e morrem, pois estão continuamente se modificando durante o ciclo da vida. Assim, os vegetais nunca serão iguais, pois é a dinâmica do processo de desenvolvimento que as faz diferentes, mesmo em se tratando da mesma espécie botânica...



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