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quinta-feira, 7 de junho de 2018

A Infância do Mágico – por Hermann Hesse no livro Minha Vida




Não fui educado somente por meus pais e professores, porém por forças mais elevadas, mais arcanas e misteriosas, entre elas o deus Pan que se encontrava no armário de vidro de meu avô sob o disfarce de pequeno ídolo hindu a dançar. Essa deidade, bem como outras, interessaram-se por mim durante meus anos de infância e muito antes de eu poder ler e escrever, e me preencheram de imagens e ideias orientais antiquíssimas de modo que mais tarde, sempre que me encontrava com um sábio hindu ou chinês, era como uma reunião, uma volta ao lar. 

E no entanto sou europeu e nasci, na verdade, com o signo de Sagitário em ascensão; por toda a minha vida pratiquei velozmente as virtudes ocidentais da impetuosidade, da cobiça e curiosidade insaciável. 

Por sorte, como a maioria das crianças eu tinha aprendido o que é mais valioso e mais indispensável para a vida, antes de se iniciarem os meus anos na escola, e aprendi porque me ensinaram as macieiras, a chuva e o sol, o rio e as matas, as abelhas e besouros, ensinou-me o deus Pan, ensinou-me o ídolo bailarino na sala de tesouros do meu avô. 

Eu sabia como lidar com o mundo, ligava-me sem medo a animais e estrelas. Achava-me em casa nos pomares e com os peixes na água, e já podia entoar um bom número de canções. Também sabia fazer mágica, habilidade que infelizmente logo esqueci e tive de reaprender com idade bem avançada – e possuía toda a lendária sabedoria da infância.
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Fonte: Trecho de Infância do Mágico – 1923 – Hermann Hesse no livro Minha Vida - Imagem: Pan and Syrinx, o.s.t. 1637 - by Nicolas Poussin


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