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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Eu sou o caminho, a verdade e a vida ☯ O Cristo

por Neil Douglas-Klotz

(...) as primeiras fontes dos Evangelhos (por exemplo, as fontes Q e o Evangelho de Tomé) nos mostram um Jesus que dá pouca ou nenhuma ênfase na crença dele mesmo como condição de salvação. Em vez disso, enfatiza uma mudança radical de coração e de vida com o cultivo da sabedoria. Por essa razão, um grande número de estudiosos da Bíblia cristã advoga que a passagem mais exclusivista atribuída a Jesus como "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" — deve ser tomada no sentido de alguém que fala uma "linguagem de amor", apropriada àqueles que estão dentro de uma comunidade de fé particular, mas não aplicável àqueles fora dela.

Se quisermos encontrar qualquer sentido de sabedoria nessas passagens mais exclusivistas, devemos olhar novamente ao aramaico para ver se o subtexto pode revelar uma camada mais profunda. Por exemplo, podemos observar a passagem citada por João 14:6 (VRJ):

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.
"

Na versão aramaica percebemos a construção "Eu sou" representada pela palavra "eu" de modo repetitivo: ena ena, como em "eu-eu". Isso tem várias possíveis interpretações: sobre a forma intensiva de "eu", a essência da individualidade, o "eu" dentro do "eu" ou algo do tipo "eu sou". Nova­mente, em uma cultura em que a palavra usada para designar Deus significa Unidade, o sentido individual não pode ser se­parado do divino. Somente um "eu sou" existe, que é Alaha.

A palavra aramaica urha, geralmente traduzida como "caminho", está relacionada a uma das palavras usadas para Luz. Aqui está a Luz que descobre um caminho, mostra uma possibilidade escondida ou revela um caminho prático que anterior­mente desconhecíamos.

A palavra sherara, geralmente traduzida como "verdade", é a mesma que consideramos sobre espírito e verdade no capítulo três. Ela aponta para uma solução ou liberação, a abertura de um círculo, um sentido de direção correta que está em harmonia com o Universo.

A palavra hayye, geralmente traduzida como "vida", indica, tanto em aramaico como em hebraico, a força de vida sagrada, a energia principal que invadiu toda a Natureza e o Universo.

A frase "a não ser por mim" é formada por três preposições em aramaico (mais o significado da terminação "mim"). A primeira, "exceto", pode também significar "se somente" e "apesar de". Assim, a palavra expressa à condição que passa adiante, como o corpo. Por essa razão, é relacionada a palavra usada para lamentar uma morte. A segunda, uma palavra que aparece somente na versão aramaica, significa "se" ou "desde que" e expressa uma sensação de tempo presente, ou seja, aquilo que existe agora.

Finalmente, percebemos a preposição "por" em aramaico prefixada como a letra b. Essa preposição frequentemente usada pode expressar muitas relações diferentes: "através de", "em", "entre", "com", "para", "dentro", "sobre", "por", ou "porque". O que une esses vários significados é a ação de alguma coisa passando do interior para o exterior, ou de idéia para forma.

Juntas, essas três preposições sugerem um processo que:

1- Reconhece que as formas passam;

2- Faz uso de formas no presente para criar uma sensação de presença;

3- Reconhece que forma serve como um veículo, de uma realidade para outra. Assim, podemos resumir a passagem:

O "Eu Sou" é o caminho, a sensação de direção correta e a força da vida para nele viajar. A simples presença ilumina o que vem adiante, libera nossas escolhas e nos conecta ao poder da Natureza.

Ninguém entra em ritmo com o sopro da vida, com o som e a atmosfera que criaram o cosmos, a não ser através do sopro, do som e da atmosfera de outro "eu" incorporado, conectado ao último "Eu sou".

Nesse sentido, a pessoa de Jesus — aquele que os discípulos viam e que com eles caminhava, conversava e co­mia — fornece uma passagem entre as realidades. Pela presença dEle, eles poderiam encontrar uma relação pessoal com Abwoon, o sopro de toda a vida. Pela sintonização com o sopro, a atmosfera e o modo de orar de Jesus, eles seriam levados a experimentar o que ele experimenta. Focalizar o mestre como sendo uma passagem para o divino é uma prática espiritual que existe ainda hoje no misticismo judaico e islâmico.

Talvez eu esteja prolongando a questão aqui. Alguém pode simplesmente dizer, como os teólogos cristãos mencionados anteriormente, que a frase "a não ser por" só é válida para aqueles inicialmente guiados por Jesus ou para quem Ele era o fundamento de sua espiritualidade. Apesar de tudo, as imagens consistentes nessa passagem apontam para uma prática espiritual que usa ritmo, vibração e sopro como passagens para obter um sentido mais completo da Unidade Sagrada. Acredito que o versículo 108 do Evangelho de Tomé aponta para essa prática:

"Quem beber de minha boca tornar-se-á como eu. Eu mesmo me tornarei Ele, e as coisas que estão ocultas ser-lhe-ão reveladas".

Fonte: Douglas-Klotz, Neil - The Hidden Gospel: Decoding the Spiritual Message of the Aramaic Jesus - Ed. Quest Books - ISBN: 083560795x - ISBN-13: 9780835607957 - Livro em inglês - Brochura - 22,9 x 15,9 cm - 1ª Edição (2001)

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