Assim passa a glória do mundo: máxima filosófica que faz um chamado à humildade
Por um cidadão que observa o fluxo da história*
Sic transit gloria mundi. Assim passa a glória do mundo. Enquanto os grandes e poderosos posam em seus palácios, palanques e fortunas, a realidade implacável segue seu curso: tudo tem início, meio e fim. Impérios nascem e caem. Impérios renascem. E o tempo, esse grande equalizador, não poupa ninguém — nem bilionários, nem presidentes, reis ou qualquer um que se imagine eterno.
Da mesma forma as estruturas de poder não são imutáveis. Elas são construídas por ideias, pensamentos e mãos humanas, e tudo e todas tem seu tempo. Monumentos como as pirâmides do Egito, a muralha da China ou Stonehenge são exemplos de como civilizações nascem e morrem, ou apenas se transformam.
A máxima filosófica SIC TRANSIT GLORIA MUNDI é parte de uma lição mais profunda que transcende disputas políticas: TEMPUS FUGIT, — o tempo foge, passa, escorre como grãos de areia em uma ampulheta.
O devir age constante, como um rio que nunca para. O que hoje parece sólido e eterno amanhã pode ser apenas ruína ou memória.
Quantos impérios já não vimos desmoronar? Roma, que dominou o mundo conhecido, hoje nos deixa apenas colunas partidas e lições de soberba. Impérios coloniais, ditaduras modernas, corporações que pareciam donas do planeta — todos, sem exceção, tiveram seu tempo “sic transit”.
Todos que hoje concentram riqueza absurda, grande influência midiática e poder político precisam refletir: nada disso é permanente. A roda da história gira, e o devir não pede licença.
Não se trata de fatalismo, mas de consciência. Uma consciência que deveria despertar especialmente nos grandes e poderosos.
O autoritarismo disfarçado de “destino” e à ilusão de que o status quo é eterno. A verdadeira sabedoria não está apenas em lutar por justiça social, mas em compreender que a vida é fluxo. O que construímos hoje — direitos, conquistas sociais e tecnológicas, avanços democráticos — também precisam de cuidado, renovação e, às vezes, reinvenção.
Que este lembrete antigo, do tempo dos imperadores romanos, ecoe forte e perene: tudo tem seu tempo. O que nasce, amadurece. O que amadurece, transforma-se. E o que se agarra desesperadamente ao passado acaba sendo carregado pela corrente do devir, na ansiedade pelo futuro.
Que não apenas os poderosos, mas que todas as pessoas de hoje filosofem um pouco. Que olhem para a história não como um troféu, mas como espelho. Porque, no final das contas, a única glória que permanece é aquela colocada a serviço da humanidade, da vida como um coletivo — não do ego individual ou da acumulação sem fim.
Sic transit gloria mundi.
Tempus fugit.
E o devir continua, inexorável, convidando-nos a sermos mais humanos enquanto ainda há tempo do ser humano se lembrar de como é ser humano. Pois no final das contas, tudo muda, evoluiu, e a humanidade continua. Progredindo sempre.
Como um bom irmão, em prece, numa tarde serena de junho, revelo este conto, retirado de trás das cortinas da realidade, inspirado pela figura luminosa de São Thomas More
Na bruma dourada de um entardecer no mundo espiritual, sob as colinas suaves de um jardim que parecia ter sido sonhado por almas em paz, um homem caminhava com passos serenos. Tinha os olhos brilhantes de quem conheceu o peso da cruz, mas também o perfume da ressurreição. Vestia-se com simplicidade, uma túnica de tecido leve e antigo, e em seu rosto morava um sorriso que sabia de eternidades.
Chamava-se Thomas, e ali era chamado de Irmão More — pois no Alto os títulos ficam nas sombras do tempo, e só o amor permanece nome.
A cada passo que dava naquele jardim, flores se abriam. Não flores comuns, mas espécies delicadas que carregavam as cores do perdão, da renúncia e da verdade. O jardim era conhecido por muitos Espíritos como “O Recanto da Utopia” — não porque fosse irreal, mas porque abrigava a lembrança viva de um homem que, em vida, ousou sonhar com um mundo mais justo, mesmo entre as engrenagens do poder.
Irmão More dedicava-se, agora, à tarefa de acolher Espíritos recém-libertos da prisão do fanatismo, do orgulho intelectual ou das dores causadas pela intransigência religiosa. A eles, não impunha verdades. Oferecia histórias. Sentava-se em silêncio e, como um velho amigo, contava parábolas simples sobre seu tempo na Terra: da sua paixão pelos livros, da doçura com os filhos, da alegria das conversas, e até dos dias sombrios da prisão.
— “A cela era fria — dizia com voz mansa — mas o Cristo era calor. Eu lia o Evangelho e sentia que não estava só. Quando me tiraram a liberdade, ganhei o recolhimento. Quando perdi os títulos, vesti o manto da verdade. E no instante em que a espada me tocou, o Reino de Deus me abraçou.”
Muitos choravam ao ouvir-lhe a alma. Não por pena, mas por se reconhecerem: padres endurecidos pela vaidade, pastores marcados por julgamentos, estudiosos embriagados de razão e descrença... todos encontravam em More a ponte para o recomeço.
Um dia, aproximou-se dele um Espírito revoltado, recém-desencarnado, que fora juiz na Terra. Tremia de angústia, porque descobrira os erros que havia cometido em nome da lei dos homens.
— “Você morreu por resistir a um rei. Eu apenas cedi. Por que você sorri, e eu me afundo?”
More o olhou com infinita compaixão e respondeu:
— “Irmão... eu não morri por resistir a um rei. Eu renasci por permanecer fiel ao Reino de Deus. A questão não é o que enfrentamos, mas como escolhemos amar. Está em suas mãos fazer nova justiça, agora com o coração.”
E então, o jardim floresceu mais uma vez.
- Prece de Thomas More aos irmãos da Terra
Inspirada por suas palavras eternas e adaptada à vibração da Doutrina Espírita
Senhor das Almas e das Consciências,
Em meio às tormentas do mundo, fazei de mim um espírito alegre e firme,
Capaz de sorrir mesmo diante das dores,
Capaz de servir mesmo sob os grilhões da incompreensão.
Dai-me, Senhor, a coragem de seguir-Vos,
Ainda que o mundo me acene com atalhos e coroas.
Que eu me mantenha fiel à Tua verdade —
não a que se impõe, mas a que se doa.
Se me for concedido um cargo ou uma missão,
Que minha autoridade seja temperada pela humildade,
E minha palavra seja sempre caminho de reconciliação.
Quando a solidão me visitar,
Que eu a receba como retiro.
Quando a injustiça me alcançar,
Que eu a transforme em testemunho.
Senhor, que minha consciência seja meu templo,
E que o Espírito de verdade seja o altar onde deposito
"Assim, os últimos serão primeiros e os primeiros serão últimos; porque são muitos os chamados e poucos os escolhidos." ~ Jesus, em Mateus 20:16
"Em todos os lugares, surgem os chamados ao aperfeiçoamento, mas, em toda parte, há poucos escolhidos porque raros se elegem.
O Mestre Divino não destaca os discípulos, à maneira dos ditadores terrestres que condecoram afeiçoados, segundo o capricho que lhes é próprio. Recebe nas culminâncias da virtude e do serviço aqueles que souberam escalar a montanha do esforço individual no bem.
Semelhante critério é idêntico ao que adotamos na lide comum para assinalar os colaboradores necessários ao trabalho que pretendemos realizar.
Num escritório, não aceitamos auxiliares que se afastem do alfabeto.
Num campo de serviço agrícola, não estimamos a cooperação daqueles que menosprezam a enxada.
Num templo religioso, não compreendemos o concurso de quem renega a fé e a esperança.
Num hospital, não entendemos a presença de enfermeiros que detestam os doentes.
Demonstra-nos a lógica que o homem, pela boa vontade e pelo sacrifício no dever rigorosamente cumprido, cresce sobre a multidão e se mostra digno de tarefas sempre mais nobres.
Se desejas, desse modo, penetrar o colégio dos escolhidos de Jesus, começa hoje o teu ministério de aplicação à prática viva dos seus ensinamentos.
Indiscutivelmente, o Senhor escolherá o teu coração para brilhar no banquete da fraternidade e da luz, da revelação e da graça, mas, antes disso, é imprescindível que te faças eleito por ti mesmo, elevando a tua alma, acima do nivelamento em que se irmanam a ignorância e a ociosidade, na terra seca ou enfermiça do menor esforço."
Francisco Cândido Xavier e Emmanuel
Lição número 2, do livro 'Harmonização'
O Apóstolo Mateus nos conta a Parábola dos Trabalhadores da Vinha
"1 O Reino dos Céus é semelhante a um homem pai de família, que ao romper da manhã saiu a assalariar trabalhadores para a sua vinha.
2 E feito com os trabalhadores o ajuste de um denário por dia, mandou-os para a sua vinha.
3 Tendo saído junto da terceira hora, viu estarem outros na praça, ociosos.
4 E disse-lhes: Ide vós também para a minha vinha, e dar-vos-ei o que for justo.
5 Eles foram. Saiu, portanto, outra vez junto da hora sexta, e junto da nona; e fez o mesmo.
6 E junto da undécima tornou a sair; achou outros que lá estavam, e lhes disse: Por que estais aqui o dia todo ociosos?
7 Responderam-lhe eles: Porque ninguém nos assalariou. Ele lhes disse: Ide vós também para a minha vinha.
8 Porém, lá no fim da tarde disse o senhor da vinha ao seu mordomo: Chama os trabalhadores e paga-lhes a jornada, começando pelos últimos e acabando nos primeiros.
9 Tendo chegado, pois, os que foram chamados junto da undécima hora, recebeu cada um seu denário.
10 E chegando também os que tinham sido chamados primeiros, julgaram que haviam de receber mais; porém estes também não receberam mais do que um denário cada um.
11 E ao recebê-lo, murmuravam contra o pai de família,
12 Dizendo: Estes que foram últimos, não trabalharam senão uma hora, e os igualaste conosco, que aturamos o peso do dia e do calor.
13 Porém, respondendo a um deles, lhe disse: Amigo, eu não te faço agravo; não convieste comigo num denário?
14 Pega o que te pertence e vai-te; que eu de mim quero dar também a este último tanto como a ti.
15 Então, não me é lícito fazer o que quero? Acaso o teu olho é mau, porque eu sou bom?
16 Assim, os últimos serão primeiros e os primeiros serão últimos; porque são muitos os chamados e poucos os escolhidos."
Palavras da salvação, em São Mateus, capítulo 20
Bíblia Sacra Vulgata - Quarta edição corrigida, de 1994, baseia-se na edição do Antigo Testamento dos monges do monastério de São Jerônimo, em Roma, e na edição do Novo Testamento de Wordsworth e White. Clique aqui...
“Dá conta de tua administração”, palavras de Jesus, em Lucas 16:2
"Na essência, cada homem é servidor pelo trabalho que realiza na obra do Supremo Pai, e, simultaneamente, é administrador, porquanto cada criatura humana detém possibilidades enormes no plano em que moureja.
Mordomo do mundo não é somente aquele que encanece os cabelos, à frente dos interesses coletivos, nas empresas públicas ou particulares, combatendo tricas mil, a fim de cumprir a missão a que se dedica.
Cada inteligência da Terra dará conta dos recursos que lhe foram confiados.
A fortuna e a autoridade não são valores únicos de que devemos dar conta hoje e amanhã.
O corpo é um templo sagrado.
A saúde física é um tesouro.
A oportunidade de trabalhar é uma bênção.
A possibilidade de servir é um obséquio divino.
O ensejo de aprender é uma porta libertadora.
O tempo é um patrimônio inestimável.
O lar é uma dádiva do Céu.
O amigo é um benfeitor.
A experiência benéfica é uma grande conquista.
A ocasião de viver em harmonia com o Senhor, com os semelhantes e com a Natureza é uma glória comum a todos.
A hora de ajudar os menos favorecidos de recursos ou entendimento é valiosa.
O chão para semear, a ignorância para ser instruída e a dor para ser consolada são apelos que o Céu envia sem palavras ao mundo inteiro.
Que fazes, portanto, dos talentos preciosos que repousam em teu coração, em tuas mãos e no teu caminho? Vela por tua própria tarefa no bem, diante do Eterno, porque chegará o momento em que o Poder Divino te pedirá: — “Dá conta de tua administração.”"
Chico Xavier e Emmanuel
in 'Fonte Viva', capítulo 75: 'Administração'
Texto transcrito da 1ª edição do livro 'Fonte Viva'
"Pesam sobre os corações atribulados da Terra amargas apreensões, com respeito ao fatalismo da guerra. E, infelizmente ninguém poderá calcular a extensão dos movimentos que se preparam, objetivando a luta do porvir. A Europa moderna não representa a vanguarda da cultura dos povos e é fácil estabelecer-se um estudo analítico de sua situação de pura decadência intelectual, depois da catástrofe de 1914-1918."
Profunda pobreza intelectual
"As ditaduras europeias revivem, na atualidade, a época napoleônica da pátria francesa, quando, segundo Chateaubriand, tudo respirava o senhor, homenageava o senhor, vivia para o senhor. No Velho Mundo, em quase todos os países que o constituem, vive-se o governo e mais nada. O livro, a escola, o jornal, a oficina, são núcleos de recepção do pensamento dos maiores ditadores que o mundo há conhecido.
A imprensa, manietada pelas medidas draconianas, não pode criar o cooperativismo intelectual das classes e das administrações, obrigada a viver a fase de absoluta união com os programas de governo; os grandes pensadores que sobreviveram à (1ª) grande guerra não podem produzir expressões do pensamento livre que abranjam a solução dos enigmas destes tempos novos, trabalhados por leis vexatórias e humilhantes e vemos, pelo mundo inteiro, a invasão das forças perversoras da consciência humana.
Jornais integrados nas doutrinas mais absurdas, falsa educação pelo rádio que vem complicar, sobremaneira, a situação, e os livros da guerra, a literatura bélica, inflada de demagogia e de estandartes, de símbolos e de bandeiras, incentivando a separatividade. Qualquer estudioso desses assuntos poderá verificar a realidade de nossas afirmativas."
Os homens, nessa fase de preparação armamentista, vivem uma época de profunda pobreza intelectual.
O porvir há de falar aos pósteros, dessas calamidades dolorosas. O mundo tocou a uma fase evolutiva em que é preciso encarar-se de frente a questão da fraternidade humana para resolve-la com justiça.
Ditaduras e problemas econômicos
"Os governos fortes, fatores da decadência espiritual dos povos, que guardavam consigo a vanguarda evolutiva do mundo, não podem trazer uma solução satisfatória aos problemas profundos que vos interessam.
Afigura-se-nos que a função das ditaduras é preparar as reações incendiárias das coletividades. A atualidade do mundo necessita criar um novo mecanismo de justiça econômica entre os povos. Que se aventem medidas conciliadoras para essa situação de pauperismo e alto imperialismo das nações.
Os que estudam a política internacional podem resolver grande parte dos fenômenos revolucionários que convulsionam o mundo, analisando a chamada questão das matérias primas. Matérias primas, quer dizer colônias, e colônias significam possibilidades de vida e de expansão. É verdade que na Espanha atual, antes de tudo, reside o imperativo da dor, redimindo grandes culpados de outrora, constituindo essa dolorosa situação um dos quadros mais pungentes das provações coletivas; mas não somente as ideologias extremistas ali se combatem, pressagiando um novo organismo político para o planeta.
Um dos dois diretores de um manicômio espanhol asseverava, há pouco tempo que mais de quatrocentas pessoas, em um ano, tinham procurado refúgio naquele pouso de alienados, como loucas, em virtude das necessidades da fome. A Espanha é pobre de terras. De cem hectares de terrenos, talvez somente uns trinta poderão oferecer campo propício à agricultura.
E não só a velha península se debate nessas necessidades tão duras. A China não está suportando o aumento contínuo da sua população? O Japão se vem fortificando para poder nutrir o seu povo. A Polônia estuda um projeto de colocar na África ou na América mais de cinco milhões de criaturas, que a sua possibilidade econômica não comporta."
Necessidade da cooperação fraterna
"Nessas aluviões de protestos, ouvem-se os tinidos das armas, e melhor fora que o homem voltasse as vistas para o campo fraterno, antes da destruição que se fará consumar. Seria melhor estudar-se a questão carinhosamente, analisando-se os códigos das leis imigratórias e que as nações não se deixassem dominar pelo prurido de mau nacionalismo, tentando estabelecer um plano de concessões racionais e resolvendo-se a questão da troca de produtos entre os países, solucionando-se o enigma da repartição que a economia política não pôde conseguir até hoje, apesar da sua perfeição técnica, no círculo da direção das possibilidades produtoras.
O que verificamos é que, sem a prática da fraternidade verdadeira, todos esses movimentos pró-paz são encenações diplomáticas sem um fundo prático, não obstante intenções respeitáveis.
Mas, consideremos também que o mundo não marcha à revelia das leis misericordiosas do Alto, e estas, no momento oportuno, saberão opor um dique à chacina e ao arrasamento; confiemos nelas, porque os códigos humanos serão sempre documentos transitórios, como o papel em que são registados, enquanto não se associarem, parágrafo por parágrafo, ao Evangelho de Jesus."
“Eu, porém, entre vós, sou como aquele que serve.” ~ Jesus, em Lucas 22:27
"O discípulo sincero do Evangelho não necessita respirar o clima da política administrativa do mundo para cumprir o ministério que lhe é cometido.
O Governador da Terra, entre nós, para atender aos objetivos da política do amor, representou, antes de tudo, os interesses de Deus junto do coração humano, sem necessidade de portarias e decretos, respeitáveis embora.
Administrou servindo, elevou os demais, humilhando a si mesmo.
Não vestiu o traje do sacerdote, nem a toga do magistrado.
Amou profundamente os semelhantes e, nessa tarefa sublime, testemunhou a sua grandeza celestial.
Que seria das organizações cristãs, se o apostolado que lhes diz respeito estivesse subordinado a reis e ministros, câmaras e parlamentos transitórios?
Se desejas penetrar, efetivamente, o templo da verdade e da fé viva, da paz e do amor, com Jesus, não olvides as plataformas do Evangelho Redentor.
Ama a Deus sobre todas as coisas, com todo o teu coração e entendimento.
Ama o próximo como a ti mesmo.
Cessa o egoísmo da animalidade primitiva.
Faze o bem aos que te fazem mal.
Abençoa os que te perseguem e caluniam.
Ora pela paz dos que te ferem.
Bendize os que te contrariam o coração inclinado ao passado inferior.
Reparte as alegrias de teu espírito e os dons de tua vida com os menos afortunados e mais pobres do caminho.
Dissipa as trevas, fazendo brilhar a tua luz.
Revela o amor que acalma as tempestades do ódio.
Mantém viva a chama da esperança, onde sopra o frio do desalento.
Levanta os caídos.
Sê a muleta benfeitora dos que se arrastam sob aleijões morais.
Combate a ignorância, acendendo lâmpadas de auxílio fraterno, sem golpes de crítica e sem gritos de condenação.
Ama, compreende e perdoa sempre.
Dependerás, acaso, de decretos humanos para meter mãos à obra?
Lembra-te, meu amigo, de que os administradores do mundo são, na maioria das vezes, veneráveis prepostos da Sabedoria Imortal, amparando os potenciais econômicos, passageiros e perecíveis do mundo; todavia, não te esqueças das recomendações traçadas no Código da Vida Eterna, na execução das quais devemos edificar o Reino Divino, dentro de nós mesmos."
Chico Xavier e Emmanuel
Capítulo 59 do livro 'Vinha de Luz'
Texto extraído da 1ª edição desse livro. Adquira sua degustação e seu exemplar no link abaixo ...
“E quem governa seja como quem serve” ~ Jesus, in Lucas 22:26
"O Evangelho apresenta, igualmente, a mais elevada fórmula de vida político-administrativa aos povos da Terra.
Quem afirma que semelhantes serviços não se compadecem com os labores do Mestre não penetrou ainda toda a verdade de suas Lições Divinas.
A magna questão é encontrar o elemento humano disposto à execução do sublime princípio.
Os ideais democráticos do mundo não derivaram senão do próprio ensinamento do Salvador.
Poderá encontrar algum sociólogo do planeta, plataforma superior além da gloriosa síntese que reclama do governante as legítimas qualidades do servidor fiel?
As revoluções, que custaram tanto sangue, não foram senão uma ânsia de obtenção da fórmula sagrada na realidade política das nações.
Nem, por isso, entretanto, deixaram de ser movimentos criminosos e desleais, como infiéis e perversos têm sido os falsos políticos na atuação do governo comum.
O ensinamento de Jesus, nesse particular, ainda está acima da compreensão vulgar das criaturas.
Quase todos os homens se atiram à conquista dos postos de autoridade e evidência, mas geralmente se encontram excessivamente interessados com as suas próprias vantagens no imediatismo do mundo.
Ignoram que o Cristo aí conta com eles, não como quem governa tirânica ou arbitrariamente, mas como quem serve com alegria, não como quem administra a golpes de força, mas como quem obedece ao Esquema Divino, junto dos seres e coisas da vida.
Jesus é o Supremo Governador da Terra e, ao mesmo tempo, o Supremo Servidor das criaturas humanas."
Chico Xavier e Emmanuel
do livro 'Alma e Luz', capítulo 12
"Os discípulos do Evangelho, em todo o mundo, passam por experimentação necessária. Cultivar a fé, não significa adorar somente. Seguir o Mestre não é incensar-Lhe o nome apenas. É tomar a cruz deste testemunho, sem desdenhar sacrifícios. Não esqueçamos que Paulo se refere a combater. Em horas tão graves quanto estas, quando o direito e o bem, a paz e a verdade reclamam linhas de defesa, organizemos também os círculos espirituais de cooperação."
“Prometendo-lhes liberdade, sendo eles mesmos servos da corrupção.” (2 Pe 2:19)
"É indispensável desconfiar de todas as promessas de facilidades sobre o mundo.
Jesus, que podia abrir os mais vastos horizontes aos olhos assombrados da criatura, prometeu-lhe a cruz sem a qual não poderia afastar-se da Terra para colocar-se ao seu encontro.
Em toda parte, existem discípulos descuidados que aceitam o logro de aventureiros inconscientes. É que ainda não aprenderam a lição viva do trabalho próprio a que foram chamados para desenvolver atividade particular.
Os fazedores de revoluções e os donos de projetos absurdos prometem maravilhas. Mas, se são vítimas da ambição, servos de propósitos inferiores, escravos de terríveis enganos, como poderão realizar para os outros a liberdade ou a elevação de que se conservam distantes?
Não creias em salvadores que não demonstrem ações que confirmem a salvação de si mesmos. Deves saber que foste criado para gloriosa ascensão, mas que só é fácil descer. Subir exige trabalho, paciência, perseverança, condições essenciais para o encontro do amor e da sabedoria.
Se alguém te fala em valor das facilidades, não acredites; é possível que o aventureiro esteja descendo. Mas quando te façam ver perspectivas consoladoras, através do suor e do esforço pessoal, aceita os alvitres com alegria. Aquele que compreende o tesouro oculto nos obstáculos, e dele se vale para enriquecer a vida, está subindo e é digno de ser seguido."
Francisco Cândido Xavier e Emmanuel
'Caminho, Verdade e Vida' - Capítulo 99 - FEB Editora
Cuidado ao ao misturar Reuniões Espíritas e Política
"… Devo ainda vos chamar a atenção para outra tática de nossos adversários: a de procurar comprometer os espíritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da Doutrina, que é o da moral, para abordarem questões que não são de sua competência e que poderiam, com toda razão, despertar suscetibilidades e desconfianças. Também não vos deixeis cair nessa armadilha; afastai cuidadosamente de vossas reuniões tudo quanto disser respeito à política e às questões irritantes; nesse caso, as discussões não levarão a nada e apenas suscitarão embaraços, enquanto ninguém questionará a moral, quando ela for boa. Procurai, no Espiritismo, aquilo que vos pode melhorar; eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais verdadeiramente úteis serão uma consequência natural …"
Allan Kardec
'Revista Espírita', fevereiro de 1862
Ponderações de Kardec sobre os que tentam desacreditar o Espiritismo
"Como hoje está bem constatado que essas agressões fizeram progredir o Espiritismo, em vez de detê-lo, naturalmente ver-se-ão diminuir os ataques forçados, mas não se deve dormir sobre esta calma aparente, nem crer que os inimigos do Espiritismo logo vão disto tirar partido. Então é necessário nos persuadirmos que a luta não está terminada, mas haverá uma mudança tática. Eis por que dizemos aos espíritas que estejam constantemente atentos sobre o que se passa em seu redor e se lembrem do que dissemos no número de dezembro último, sobre o período da luta, da guerra surda e dos conflitos; que, assim, não se admirem se o inimigo se infiltra em suas fileiras; que Deus o permite, para experimentar a fé, a coragem, a perseverança dos verdadeiros servidores. De agora em diante, seu objetivo será procurar todos os meios possíveis de comprometer o Espiritismo, a fim de desacreditá-lo; de impelir os grupos, sob a aparência de zelo e sob o pretexto de que é preciso ir avante; a se ocuparem de coisas estranhas ao objeto da doutrina; a tratarem de questões políticas ou de outras de natureza a provocar discussões irritantes e a semear a divisão, tudo para ter pretextos de pedir o seu fechamento. A moderação dos espíritas é o que mais causa admiração e mais contraria os seus adversários. Eles tentarão tudo para afastá-los dela, inclusive a provocação, mas os espíritas saberão desviar essas manobras por sua prudência, como já o fizeram em várias ocasiões, e não cairão nas armadilhas que lhe prepararem; aliás, eles verão os instigadores se embaraçarem em suas próprias teias, pois é impossível que, mais cedo ou mais tarde, não ponham as unhas de fora. Este será um momento mais difícil de passar do que o da guerra aberta, no qual se vê o inimigo face a face, no entanto, quanto mais dura a prova, maior o triunfo. "
"Ele era membro do governo e cônscio de sua própria importância. Falou de seus deveres e responsabilidades para com o povo; explicou por que seu partido era superior à oposição; discorreu sobre os esforços que estavam fazendo para acabar com a corrupção e sobre a dificuldade de encontrar homens incorruptíveis e ao mesmo tempo eficientes.
Perguntou por que havia a ânsia de poder. O que se entende por poder? Todo indivíduo e todo grupo aspira ao poder – para si próprio ou para o partido. O partido é um prolongamento do próprio indivíduo. O asceta busca poder na renúncia, a mãe por meio de seu filho.
Há o poder da eficiência, com suas crueldades; e o poder da máquina, nas mãos de uns poucos; há a dominação de um indivíduo por outro, a exploração dos estúpidos pelos espertos; o poder do dinheiro, o poder do nome e da palavra. Todos ambicionamos uma certa espécie de poder, seja sobre nós mesmos, seja sobre os outros.
Esse impulso para o poder produz uma certa felicidade e satisfação. E como nos satisfazemos facilmente! O conforto que nos dá o alcançarmos uma satisfação nos torna cegos. Toda satisfação causa cegueira. Por que buscamos o poder?
Político: Suponho que seja porque ele nos proporciona conforto físico, posição social e respeitabilidade – quando exercido dentro das normas aprovadas.
Krishnamurti: Buscamos o poder tanto interiormente quanto exteriormente. Por que? Por que nos prostramos diante da autoridade, de um livro, de uma pessoa, do Estado ou de uma crença? Antigamente era a autoridade do sacerdote que nos acorrentava, hoje é a autoridade do técnico, do especialista. Já não notastes a maneira como tratamos o homem que tem um título, o homem de posição, o homem poderoso? O poder, sob alguma forma, parece dominar-nos a vida: o poder de um sobre muitos, a utilização de um por outro ou a mútua utilização.
Político: O que entendeis por “utilização de outro”?
Krishnamurti: Isto é simples, não? Nós nos servimos uns dos outros para satisfação mútua. Necessitais de votos para galgar o poder; fazeis uso do povo para obterdes o que desejais – e o povo tem necessidade do que prometeis. A mulher necessita do homem, e o homem da mulher. Nossas relações estão baseadas na necessidade e na utilização. Tais relações são intrinsecamente violentas, e esta é a razão por que a violência constitui a base de nossa sociedade. Enquanto eu fizer uso de outra pessoa para minha satisfação pessoal ou para a concretização de uma ideologia, só poderá haver medo, desconfiança e oposição.
Político: Mas é impossível viver sem essa necessidade mútua.
Krishnamurti: Eu tenho necessidade do carteiro, mas se me sirvo dele para satisfazer um certo impulso interior, nesse caso a necessidade social se torna uma necessidade psicológica e nossa relação sofreu uma mudança radical. A necessidade psicológica torna inevitável a busca de poder, e esse poder é utilizado como meio de satisfação. O homem que é ambicioso para si mesmo ou para seu partido, ou aquele que deseja alcançar um ideal, é um fator de desintegração na sociedade.
Político: A ambição não é inevitável?
Krishnamurti: Por que admiti-la como inevitável? A crueldade do homem para com o homem é inevitável? Não desejais pôr-lhe fim?
Político: Se não sou cruel para com outros, alguém será cruel para comigo, e assim sendo tenho de manter-me por cima.
Krishnamurti: Estar por cima – eis justamente a aspiração de todo indivíduo, todo grupo, toda ideologia, e por causa dessa aspiração é que se mantêm em pleno vigor a crueldade e a violência. Como pode haver paz quando há utilização mútua? O poder de uma ideia e o poder da espada são iguais; todos os dois são destrutivos. A ideia e a crença, tal como a espada, lançam o homem contra o homem.
Político: Por que então somos dominados por esse desejo de poder?
Krishnamurti: A luta pelo poder não é um dos meios mais “respeitáveis” de fuga a nós mesmos? Cada um luta por fugir a sua própria insuficiência, sua pobreza interior, sua solidão, seu isolamento. Considerai o que sucederia se vos vísseis ameaçado de perder todo vosso poder, vossa posição, vossa riqueza? Resistiríeis à ameaça, não? Resistiríeis com violência ou com argumentos racionais e sutis. Se fôsseis capaz de, voluntariamente, abrir mão de todas vossas aquisições, vos tornaríeis o mesmo que nada, não é verdade?
Político: Parece-me que sim, e isso é muito desalentador. Naturalmente eu não desejo ser o mesmo que nada.
Krishnamurti: E tendes assim a ostentação exterior, sem nenhuma substância interior, sem o incorruptível tesouro interior. Desejais a exibição exterior, e outro também a deseja, e desse conflito resulta o ódio e o medo, a violência e a deterioração. Vós, com vossa ideologia, sois tão vazio como a oposição, e é por isso que vos estais destruindo mutuamente, em nome da paz, da eficiência, do emprego adequado ou em nome de Deus. Como quase todo mundo deseja estar de cima, edificamos uma sociedade de violência, conflito, inimizade.
Político: Mas como erradicar tudo isso?
Krishnamurti: Não sendo ambicioso, ávido de poder, de nome, posição; sendo o que sois, sendo simples, sendo ninguém. O pensar negativo é o supremo grau de inteligência.
Político: Mas a crueldade e a violência que campeiam no mundo não podem ser eliminadas por meu esforço individual. E não levaria um tempo infinito, até que todos os outros fossem transformados?
Krishnamurti: Os outros sois vós mesmo. Esta pergunta nasce do desejo de evitar vossa transformação imediata, não é verdade? Para podermos ir longe, temos que começar pelo que está perto. Mas na verdade não desejais transformar-vos; desejais que as coisas continuem como estão, principalmente se estais “por cima” e, assim, dizeis que levará um tempo infinito para se transformar o mundo. O mundo sois vós mesmo; o mundo não poderá ser transformado enquanto não estiverdes transformado. A felicidade está na transformação e não na avidez.
Político: Mas eu sou regularmente feliz. Naturalmente há em mim coisas de que não gosto, mas não tenho tempo nem disposição para me ocupar com elas.
Krishnamurti: Só um homem feliz pode criar uma nova ordem social; mas não é feliz aquele que está identificado com uma ideologia ou crença, ou que está todo absorvido em qualquer atividade social ou individual. A felicidade não é um fim em si mesma. Ela vem com a compreensão “do que é”. A felicidade que se compra é meramente satisfação; a felicidade conquistada pela ação, pelo poder, é mera sensação. E como a sensação se acaba depressa, há sempre a ânsia de mais e cada vez mais. Enquanto o mais for um meio para a felicidade, o fim será sempre a insatisfação, o conflito, o sofrimento. A felicidade não é uma lembrança; é o estado que se torna existente com a Verdade, sempre nova, nunca contínua."
Jiddu Krishnamurti (1895/1986) foi um filósofo, escritor, orador e educador indiano. Proferiu discursos que envolveram temas como revolução psicológica, meditação, conhecimento, liberdade, relações humanas, a natureza da mente, a origem do pensamento e a realização de mudanças positivas na sociedade global.
O médium J. Raul Teixeira conta que certo dia ia a uma conferência numa cidade importante do Brasil, e ao dirigir-se para almoçar num restaurante, com os seus anfitriões, enquanto esperavam que o semáforo abrisse para atravessarem larga avenida, ele via uma mulher andrajosa ali ao lado, no caixote do lixo a procurar comida e a separar o lixo mais limpo do mais sujo. Tal cena causou-lhe tamanha impressão, que perdeu a vontade de almoçar, embora a necessidade de o fazer.
Enquanto tentava se recompor mentalmente, já no restaurante, pensando naquele ser que nada tinha, e ele ali num restaurante com os seus amigos, apareceu-lhe, através do fenômeno da vidência espiritual, um espírito amigo que o acompanha na sua tarefa doutrinária, que o acalmou, referindo que mesmo que fosse dar comida àquela senhora ela recusaria.
E o Espírito, em breves pinceladas contou a história daquela mulher, que nesta vida era a reencarnação de um famoso político brasileiro, ainda hoje muito conceituado, e que por ter prejudicado tanto o povo, tinha reencarnado numa condição miserável, devido ao mecanismo do complexo de culpa que fez, após a morte do corpo de carne, no mundo espiritual (onde não conseguimos esconder nada, nem de nós, nem dos outros), voltando numa condição miserável para aprender a valorizar aquilo que ele tanto desprezara na vida anterior: as dificuldades financeiras do próximo. Curiosamente, o nome desse famoso político estava afixado nesse local, dando nome à avenida, e essa mulher, por um mecanismo de fixação inconsciente, não largava aquele local onde outrora lhe prestaram grandes homenagens. Não era um castigo divino, mas sim uma decorrência da Lei de Causa e Efeito, onde cada um colhe de acordo com os seus atos, pensamentos e sentimentos.
Para o filósofo hindu Jiddu Krishnamurti, a revolução humana ocorrerá através de uma mudança na mente de cada indivíduo. Nascido na cidade de Madanapalle (Índia), ele foi educado pela sociedade teosófica e, aos 13 anos de idade, já era considerado um dos grandes mestres mundiais. Durante sua vida, ele viajou pelo mundo para falar com as pessoas. Escreveu diversos livros e fundou escolas em muitos países. Seu principal intuito era o de trazer a reflexão sobre a sociedade em que vivemos, para que possamos alcançar uma maior compreensão sobre os conflitos que nos permeiam.
Ele faleceu em 1986, aos 90 anos de idade. Apesar de ser visto por muitos como um líder espiritual, ele sempre fugiu desse rótulo, pois acreditava que cada um de nós deve ser responsável pela própria mudança, longe de religiões, mestres, gurus ou líderes. Em 1929, em uma de suas palestras, Krishnamurti afirmou: “A verdade é uma terra sem caminho”. Ou seja, não se pode chegar a ela através de uma instituição religiosa, do estudo da Psicologia ou de um ritual espiritual, mas, sim, pelo espelho das relações humanas, da compreensão da mente e do autoconhecimento.
Ele falava constantemente sobre a necessidade urgente de uma transformação na sociedade e que essa mudança está na consciência individual do ser humano. Em suas falas, o indiano, que levava sempre um ar de serenidade no rosto, questionava sobre o comportamento humano na sociedade agressiva e competitiva em que vivemos (em crise, que já não pode mais viver com base nas velhas tradições, e que precisa de mudança).
Ele afirmava: “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”. Se a nossa sociedade está doente, então a cura está dentro de cada um de nós. Essa cura começa quando passamos a entender quais são os problemas que nos afetam. Para o filósofo, a meditação é de extrema importância para o autoconhecimento e a limpeza de nossas mentes:
“Nossas mentes estão distorcidas, foram moldadas pela cultura em que vivemos, pelas estruturas religiosas e econômicas, pela comida que comemos etc. Nós damos à mente uma determinada estrutura e, ao condicioná-la, este condicionamento vira uma distorção. Unicamente quando não existe distorção, a mente pode ver com clareza, pureza, inocência e de maneira completa. O primeiro passo é ter a capacidade de olhar sem nenhuma distorção e a arte de escutar, o que significa que a mente deve estar em absoluta quietude, sem nenhum movimento”.
“Estamos tentando, como toda essa discussão é retórica, ver se podemos fazer com que aconteça uma transformação radical da mente. Não aceitar as coisas como elas são, entendê-las, mergulhar nelas, examiná-las. Use o seu coração, a sua mente e tudo o que você tem para descobrir um jeito diferente de viver. Mas isso depende de você e mais ninguém. Porque, para isso, não há professor, aluno, líder, guru, mestre ou salvador que lhe ajude. Você mesmo é o professor, o aluno, o mestre, o guru, o líder etc. VOCÊ É TUDO! E... Entender é transformar o que há.”
52. A humanidade vive, neste momento, uma viragem histórica,
que podemos constatar nos progressos que se verificam em vários campos. São
louváveis os sucessos que contribuem para o bem-estar das pessoas, por exemplo,
no âmbito da saúde, da educação e da comunicação. Todavia não podemos esquecer
que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia
precariamente, com funestas consequências. Aumentam algumas doenças. O medo e o
desespero apoderam-se do coração de inúmeras pessoas, mesmo nos chamados países
ricos. A alegria de viver frequentemente se desvanece; crescem a falta de
respeito e a violência, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. É
preciso lutar para viver, e muitas vezes viver com pouca dignidade. Esta mudança
de época foi causada pelos enormes saltos qualitativos, quantitativos, velozes
e acumulados que se verificam no progresso científico, nas inovações
tecnológicas e nas suas rápidas aplicações em diversos âmbitos da natureza e da
vida. Estamos na era do conhecimento e da informação, fonte de novas formas dum
poder muitas vezes anônimo.
Não a uma economia da exclusão
53. Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro
para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a
uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é
possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia,
enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode
tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam
fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e
da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência
desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas:
sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado,
em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora.
Assim teve início a cultura do «descartável», que aliás chega a ser promovida.
Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas duma
realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à
sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder
já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos,
«sobras».
54. Neste contexto,
alguns defendem ainda as teorias da «trickle-down» que pressupõem que todo o
crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo
produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi
confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingenua na bondade
daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema
econômico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder
apoiar um estilo de vida que exclui os outrosou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização
da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos
compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos
outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma
responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar
anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que
ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de
possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma
alguma.
Não à nova idolatria do dinheiro
55. Uma das causas desta situação está na relação
estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre
nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos
esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da
primazia do ser humano. Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de
ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do
dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objetivo
verdadeiramente humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia,
põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência
duma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas
necessidades: o consumo.
56. Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente,
os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz.
Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos
mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos
Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova
tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e
implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os
respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia,
e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma
corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões
mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende
a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja
frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado
divinizado, transformados em regra absoluta.
Não a um dinheiro que governa em vez de servir
57. Por detrás desta atitude, escondem-se a rejeição da
ética e a recusa de Deus. Para a ética, olha-se habitualmente com um certo
desprezo sarcástico; é considerada contraproducente, demasiado humana, porque
relativiza o dinheiro e o poder. É sentida como uma ameaça, porque condena a
manipulação e degradação da pessoa. Em última instância, a ética leva a Deus
que espera uma resposta comprometida que está fora das categorias do mercado.
Para estas, se absolutizadas, Deus é incontrolável, não manipulável e até mesmo
perigoso, na medida em que chama o ser humano à sua plena realização e à
independência de qualquer tipo de escravidão. A ética – uma ética não
ideologizada – permite criar um equilíbrio e uma ordem social mais humana.
Neste sentido, animo os peritos financeiros e os governantes dos vários países
a considerarem as palavras dum sábio da antiguidade: «Não fazer os pobres
participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são
nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos».[55]
58. Uma reforma financeira que tivesse em conta a ética
exigiria uma vigorosa mudança de atitudes por parte dos dirigentes políticos, a
quem exorto a enfrentar este desafio com determinação e clarividência, sem
esquecer naturalmente a especificidade de cada contexto. O dinheiro deve
servir, e não governar! O Papa ama a todos, ricos e pobres, mas tem a
obrigação, em nome de Cristo, de lembrar que os ricos devem ajudar os pobres,
respeitá-los e promovê-los. Exorto-vos a uma solidariedade desinteressada e a
um regresso da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano.
Não à desigualdade social que gera violência
59. Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas,
enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e
entre os vários povos será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da
violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de
oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno
fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão. Quando a
sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si
mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que
possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas
porque a desigualdade social provoca a reação violenta de quantos são excluídos
do sistema, mas porque o sistema social e econômico é injusto na sua raiz.
Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a
injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as
bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça. Se
cada acção tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade
sempre contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal cristalizado nas
estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro
melhor. Estamos longe do chamado «fim da história», já que as condições dum
desenvolvimento sustentável e pacífico ainda não estão adequadamente
implantadas e realizadas.
60. Os mecanismos da economia atual promovem uma exacerbação
do consumo, mas sabe-se que o consumismo desenfreado, aliado à desigualdade
social, é duplamente daninho para o tecido social. Assim, mais cedo ou mais
tarde, a desigualdade social gera uma violência que as corridas armamentistas
não resolvem nem poderão resolver jamais. Servem apenas para tentar enganar
aqueles que reclamam maior segurança, como se hoje não se soubesse que as armas
e a repressão violenta, mais do que dar solução, criam novos e piores
conflitos. Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos próprios males, os
pobres e os países pobres, com generalizações indevidas, e pretendem encontrar
a solução numa «educação» que os tranquilize e transforme em seres domesticados
e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os excluídos veem
crescer este câncer social que é a corrupção profundamente radicada em muitos
países – nos seus Governos, empresários e instituições – seja qual for a ideologia
política dos governantes.
"In this context, some people continue to defend trickle-down theories
which assume that economic growth, encouraged by a free market, will
inevitably succeed in bringing about greater justice and inclusiveness
in the world,”
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