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sábado, 16 de maio de 2015

Busca da Verdade




A busca da verdade: Onde se trata da natureza do espírito humano, e do uso que ele deve fazer deste para evitar o erro nas ciências (1674-75) é a obra principal de Nicolas Malebranche. 

É composta por seis livros, e dezesseis Esclarecimentos e além de um opúsculo sobre ótica. 

Os títulos dos livros são, respectivamente: Dos sentidos, Da imaginação, Do entendimento ou do espírito puro, Das inclinações, Das paixões e Do método. 

 No capítulo IV do Livro I, Malebranche expõe assim o programa de sua Busca: Em primeiro lugar, falaremos dos erros dos sentidos; em segundo, dos erros da imaginação; em terceiro, dos erros do entendimento puro; em quarto, dos erros das inclinações; em quinto, dos erros das paixões. Ao cabo, depois de termos tentado livrar o espírito dos erros aos quais está sujeito, hemos de dar um método geral para nos conduzirmos na busca da verdade.
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Fonte: Tradução para o português[editar | editar código-fonte] A Busca da Verdade (Textos escolhidos). São Paulo: Paulus, Discurso, 2004. Tradutor: Plínio Smith.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Helena Blavatsky e a Sabedoria Divina

Retrato autografado de Madame Blavatsky (reprodução/internet)



Em pleno século 19, uma mulher desafiou as diferentes religiões em seus aspectos dogmáticos e corporativos, mostrando que todas elas são imperfeitas e nenhuma possui contato exclusivo com o mundo divino. Mas a escritora russa-ucraniana Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891) também mostrou que cada grande religião tem, em sua essência, contato interior com a sabedoria eterna e universal que é patrimônio comum de toda a humanidade.

Retomando o termo criado por Amônio Sacas de Alexandria nos séculos dois e três da era cristã, Helena usou a palavra “teosofia” para referir-se a essa sabedoria primordial, e fundou, em Nova Iorque em 1875, o movimento esotérico moderno.

Ela também desafiou os dogmas científicos da época, e retomou a tradição clássica segundo a qual a religião, a ciência e a filosofia devem ser reconhecidas como inseparáveis em um universo em que cada coisa tem vida e movimento em seu interior e está ligada a todas as outras partes do cosmo.

Sensitiva, durante alguns anos promoveu fenômenos parapsicológicos para mostrar em um plano prático que o universo não tem apenas três dimensões e que a vida é maior do que o mundo dos cinco sentidos. Trabalhando em contato com raja-iogues dos Himalaias - sábios que operam em um plano intuitivo da consciência - Blavatsky trabalhou pela compreensão não-dogmática de que todos os seres humanos são irmãos, sem distinção de raça, credo, sexo, ideologia ou condição social.

Em troca, foi desprezada, chamada de doida, charlatã e mentirosa. Também foi incompreendida e atacada dentro do próprio movimento teosófico que ela fundou.

Em 1885, no auge de uma campanha clerical contra suas idéias universalistas que desbancavam crenças dogmáticas, Helena Blavatsky foi alvo de uma investigação por parte da Society for Psychical Research (Sociedade de Pesquisas Psíquicas, SPP), de Londres, e qualificada como um caso “fascinante” de fraude.

Quase cem anos depois do “processo”, levando em conta certos estudos e evidências, a SPP contratou um expert em fraudes e falsificações, Vernon Harrison, para re-examinar a “condenação” de H.P. Blavatsky.

A investigação técnica reverteu diametralmente a posição da SPP, e Harrison escreveu um livro com suas conclusões. Ele testemunhou que, realmente, houve fraude; não da parte de Blavatsky, mas dos seus acusadores. As provas contra Blavatsky é que foram forjadas. Em 1986, a Society for Psychical Research (SPR) de Londres fez uma autocrítica pública, integral e sem meias palavras. Embora tardia, a reparação serviu para restabelecer a verdade. [1] Os mais desinformados, no entanto, ainda hoje tratam Blavatsky com base nas calúnias e preconceitos do século 19.

Menos de 150 anos depois da sua morte, está documentado o fato de que a vida e o trabalho de Helena P. Blavatsky causaram um forte impacto positivo na história do pensamento humano. Porém, muito do que ela escreveu e publicou em vida ainda está por ser compreendido e decodificado mais claramente. Há previsões segundo as quais a importância de Blavatsky será melhor percebida no futuro. [2]

HPB escreveu incansavelmente sua vida toda ― cartas, artigos e livros. A publicação dos seus artigos e textos curtos, os “Escritos Reunidos” (Collected Writings) só terminou na década de 1980 e ocupou 15 volumes. Suas obras ocupam no total quase 30 volumes, com destaque para “A Doutrina Secreta”, “A Chave Para a Teosofia”, “Ísis Sem Véu” e “A Voz do Silêncio”.

A seguir, um diálogo com o conjunto da obra de HPB:


1) O que significa a palavra Teosofia?

R: Significa “sabedoria divina”, ou sabedoria dos deuses, assim como a teogonia é a genealogia dos deuses. A palavra theos significa “um deus” em grego, um dos seres divinos ― certamente não “Deus” no sentido atribuído em nossos dias ao termo. Portanto, não é “sabedoria de Deus”, como traduzido por alguns, mas sabedoria divina, a sabedoria possuída pelos deuses.

2) Qual é a origem do nome?

R: Ele nos foi transmitido pelos filósofos de Alexandria, conhecidos como os amigos da verdade, filaleteus, de filo, amigo, e aletéia, verdade. O nome Teosofia data do terceiro século de nossa era e foi introduzido por Amônio Sacas e seus discípulos, os quais iniciaram o sistema teosófico eclético.

3) O objetivo dos teosofistas de Alexandria era o mesmo dos teosofistas modernos: criar uma percepção e um espaço de vivência da fraternidade universal de todos os seres humanos, com base em uma ética comum e no reconhecimento de certas verdades eternas presentes nas diferentes filosofias, religiões e ciências. Mas a meta não é fácil e não me parece possível alcançá-la sem autoconhecimento. Como podemos educar-nos sem dogmas, trocando desejos menores pela busca da paz e da verdade?

R: Quando o desejo busca o que é puramente abstrato, quando o desejo perdeu todo traço ou tonalidade de “eu”, então ele tornou-se puro.

O primeiro passo para essa pureza é eliminar o desejo pelas coisas materiais, já que elas só podem ser apreciadas pela personalidade separada. O segundo passo é deixar de desejar para si até mesmo coisas abstratas como poder, conhecimento, amor, felicidade ou fama; porque, afinal de contas, elas são todas egoístas.

A própria vida ensina essas lições; porque todos esses objetos de desejos tornam-se frutos do Mar Morto no momento em que são alcançados. Isto nós aprendemos por experiência própria. A percepção intuitiva captura a verdade positiva de que a satisfação é alcançável só no infinito; a vontade torna essa convicção um fato real na consciência, até que, afinal, todo desejo está centrado no que é Eterno.

4) O que é preciso fazer, então, para alcançar o verdadeiro autoconhecimento?

R: A primeira condição para obter autoconhecimento é tornar-nos profundamente conscientes da nossa ignorância; sentir com cada fibra do nosso coração que somos incessantemente auto-iludidos.

O segundo requisito é a convicção ainda mais profunda de que tal conhecimento ― um conhecimento seguro e intuitivo ― pode ser obtido pelo esforço.

O terceiro e mais importante é uma determinação indômita de obter e enfrentar esse conhecimento. O autoconhecimento desse tipo não pode ser alcançado através do que normalmente se chama de “auto-análise”. Ele não é obtido pelo raciocínio ou por qualquer processo cerebral, porque ele é o despertar da consciência da natureza divina no ser humano.

Obter esse conhecimento é uma realização maior do que ter domínio sobre os elementos da natureza ou conhecer o futuro.

5) O que você está descrevendo é inseparável do despertar da intuição. Como se pode desenvolver a verdadeira intuição?

R: Em primeiro lugar, exercitando-a. E, em segundo lugar, não usando-a para propósitos meramente pessoais. Exercitá-la significa que ela deve ser seguida através de erros e derrotas, até que, a partir das tentativas sinceras de usá-la, ela adquire força própria. Isso não significa que podemos fazer coisas erradas e deixar os resultados de lado, mas quer dizer que, estabelecendo nossa consciência sobre uma base correta pela adoção da regra de ouro [3] , nós abrimos espaço para a intuição e aumentamos a sua força.

Inevitavelmente, no início cometeremos erros, mas se formos sinceros em seguida a intuição brilhará com mais clareza e não errará. Deveríamos acrescentar o estudo das obras daqueles que trilharam esse caminho no passado e descobriram o que é real e o que não é. Eles dizem que o Eu Superior [4] é a única realidade. O cérebro deve ter acesso a visões mais amplas da vida (...).


6) A filosofia esotérica formulada por você ensina que a evolução da humanidade faz parte da evolução do planeta, e que tudo no cosmo (assim como na vida de cada indivíduo) obedece a ciclos, com períodos regulares de atividade e descanso, de atividade externa e recolhimento interior. Tanto as pessoas como os universos reencarnam: tudo é cíclico.

Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se recicla. E na obra “A Doutrina Secreta”, publicada em 1888, você afirma que o eixo da Terra sofre alterações periodicamente, o que causa profundas mudanças geológicas...

R: A doutrina de que os mundos e as raças são destruídos periodicamente, ora pela água, ora pelo fogo (vulcões e terremotos), e que se renovam depois, é tão velha quanto o homem.

Manu, Hermes, os Caldeus e a antigüidade toda acreditavam nisso. A superfície do globo terrestre já foi mudada duas vezes pelo fogo e duas vezes pela água, desde que o homem apareceu por aqui. Assim como a terra necessita de repouso e de renovação, de forças novas e de mudança do solo, assim também sucede com os oceanos.

Daí resulta uma redistribuição periódica da terra e da água, mudança de clima, etc., tudo provocado por alterações geológicas e seguido finalmente de um deslocamento do eixo da Terra.

Podem os astrônomos encolher os ombros à idéia de uma mudança periódica na inclinação do eixo da Terra, e sorrir da conversa, que se lê no Livro de Enoch, entre Noé e seu “avô” Enoch; mesmo assim, a alegoria continua indicando um fato geológico e astronômico. Ocorre uma mudança periódica na inclinação do eixo da Terra, e a sua mudança fixa está registrada em um dos grandes Ciclos Secretos. Tal como ocorre em muitas outras questões, a ciência se aproxima gradualmente do nosso modo de pensar.

7) Independentemente dos ciclos geológicos inevitáveis, o ser humano parece ter uma boa dose de responsabilidade em relação ao equilíbrio ecológico e às crises ambientais. A decadência da Grécia e de Roma antigas, por exemplo, foi em grande parte conseqüência da destruição de suas florestas.

Henrique Roessler, um pioneiro da defesa ambiental no Brasil, afirmou em 1957: “A História mostra que os povos que se desfizeram de seus recursos naturais, entre os quais o maior é a floresta (...), desapareceram do mundo” [5]. Tendo vivido na Índia, o que é que você pode dizer a respeito?

R: Todos os patriotas hindus lamentam a decadência do seu país, mas poucos compreendem a causa real do fato. Mais do que a dominação estrangeira, o excesso de impostos ou a economia descuidada, a causa é a destruição das florestas. O desmatamento das montanhas e encostas é um crime contra a nação, e vai dizimar a população mais eficazmente do que seria possível pela espada de qualquer invasor estrangeiro. (...)

Basta olhar as páginas da história para ver que a ruína e a total extinção do poder nacional seguem-se à destruição das florestas tão certamente como a noite segue o dia. A Natureza dá os meios para o progresso humano; e suas leis nunca podem ser violadas sem desastre.

NOTAS:


[1] “H.P. Blavatsky and the S.P.R., an examination of the Hodgson Report of 1885”, livro de Vernon Harrison, membro da SPR. Theosophical University Press, Pasadena, Califórnia, EUA, 1997, 78 pp.
[2] Sobre o impacto do trabalho de HPB na história humana e na cultura do século 20, veja a parte sete da biografia “Helena Blavatsky, a vida e a influência extraordinária da fundadora do movimento esotérico moderno”, de Sylvia Cranston, Ed. Teosófica, Brasília, 1997, 678 pp. Essa é a tradução de uma das 18 biografias que há sobre Blavatsky em língua inglesa.
[3] A regra de ouro aparece no Novo Testamento: “Tudo aquilo que vocês quiserem que os homens lhes façam, façam vocês a eles, porque essa é a Lei” (Mt 7:12). No entanto, esse princípio ético não surgiu com o cristianismo. Cinco séculos antes de Jesus, na velha China, Confúcio ensinava: “O que não desejo que me façam os outros, tampouco desejo fazê-lo, eu, aos outros.” [“Lun-Yu, ou Conversas Filosóficas”, de Confúcio, obra também conhecida como “Os Analectos”, capítulo 5, versículo 11: ver Los Grandes Libros, Confúcio, Ed. Siglo Veinte, Buenos Aires, 1943, p. 94.]
[4] Eu Superior: “Higher Self” no original em inglês; a Alma Imortal, o Ser Superior, o verdadeiro Ser.
[5] “O Rio Grande do Sul e a Ecologia, crônicas escolhidas de um naturalista contemporâneo”, Henrique Luiz Roessler, edição da AGAPAN, Porto Alegre, 1984, 219 pp., ver p. 93.
NOTA BIBLIOGRÁFICA:

As fontes das respostas acima são as seguintes, respectivamente: 1) “A Chave Para a Teosofia”, Helena P. Blavatsky, Ed. Teosófica, Brasília, 1991, 261 pp., ver p. 15; 2) “A Chave Para a Teosofia”, obra citada, mesma página; 3) “Collected Writings”, Helena P. Blavatsky, Theosophical Publishing House, Índia, 1990, volume VIII, p. 129; 4) “Collected Writings”, H. P. Blavatsky, Theosophical Publishing House, Índia, 1990, volume VIII, p. 108; 5) “Collected Writings”, obra citada, volume IX, reimpressão de 1986, página 400-H; 6) “A Doutrina Secreta”, H. P. Blavatsky, edição em seis volumes, Ed. Pensamento, SP, 1981, volume IV, p. 295; 7) Revista “The Theosophist”, Bombay, Índia, edição de novembro de 1879, p. 42. Uma edição facsimilar da coleção do primeiro ano dessa revista é distribuída pela Theosophy Company, de Los Angeles, EUA. É desta edição a tradução do texto acima, realizada por Joaquim Soares.

Fonte: http://www.vislumbresdaoutramargem.com/ (reprodução para estudos)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Blavatsky e a Sociedade Teosófica

por Gilberto Schroeder

Helena Petrovna Blavatsky foi uma das figuras mais importantes do mundo místico do século 19, trazendo para o Ocidente uma série de pensamentos que modificaram o desenvolvimento do espiritualismo no século 20, e que continuam fazendo história.

"Helena Petrovna Blavatsky foi uma das figuras mais importantes do mundo místico do século 19, trazendo para o Ocidente uma série de pensamentos que modificaram o desenvolvimento do espiritualismo no século 20, e que continuam fazendo história.

Ainda que as idéias de reencarnação, carma e da existência de civilizações extremamente desenvolvidas no passado da humanidade ainda causem discussões entre cientistas e pesquisadores menos ortodoxos, não há dúvida de que essas noções já se encontram de tal forma difundidas nas culturas do planeta, que já não assustam ou causam tanto espanto.

Hoje em dia é comum ler artigos ou ouvir pessoas falando sobre a Lemúria e outras civilizações que teriam existido há milhares ou mesmo milhões de anos, e a noção da reencarnação já está até mesmo sendo, aos poucos, incorporada à psicologia, com a terapia de vidas passadas e outros procedimentos semelhantes.

As coisas eram um pouco diferentes na época em que Helena Petrovna Blavatsky fundou a Sociedade Teosófica e começou a tornar essas noções mais conhecidas e populares no mundo ocidental.

A segunda metade do século 19 foi marcada, no chamado mundo espiritualista, por momentos importantes, que tiveram repercussão em praticamente todas as atividades e estudos espirituais do século seguinte.

A começar com as comunicações estabelecidas pelas irmãs Fox, em 1848, a idéia de se comunicar com os espíritos se espalhou rapidamente pelo mundo, especialmente na Europa; a partir de 1856, começavam a ser publicados os livros de Allan Kardec, com O Livro dos Espíritos. E, em 1875, era fundada a Sociedade Teosófica, por Helena Petrovna Blavatsky, Henry S. Olcott e William Q. Judge.

Uma espécie de contraponto a essas atividades foi o desenvolvimento científico ocorrido na mesma época. Em 1859, era publicado o livro A Origem das Espécies, de Charles Darwin, que provocaria uma verdadeira revolução na biologia do século seguinte, ainda que a controvérsia a respeito da teoria se estendesse ao início do século 20 e, de certa forma, prossiga até hoje.

Em 1869, a Sociedade Dialética de Londres iniciava seus trabalhos de pesquisa sobre os fenômenos psíquicos e, em 1870, o famoso cientista William Crookes também iniciava seus experimentos no mesmo campo. Em 1882, essas pesquisas atingiriam um nível ainda mais profundo com a criação da Sociedade para Pesquisas Psíquicas.

No entanto, o aparente choque entre as posturas científica e espiritual não impediu que a Sociedade Teosófica - a exemplo do espiritismo e outros ramos de pesquisa ligados à espiritualidade - se estabelecesse como uma influência fundamental nos estudos que se desenvolveriam no século 20. Assim, não é exagero dizer que a Sociedade Teosófica também é uma das bases da chamada Nova Era e das novas posturas espirituais.

Além disso, também pode ser considerada como o ponto de partida para as pesquisas da chamada "história alternativa da Terra", que teve expoentes como Charles Fort, com o seu O Livro dos Danados (1919), e mais recentemente com Robert Charroux, Erich von Daniken, Charles Berlitz e tantos outros autores.

Unidade Essencial

Para alguns estudiosos, as noções divulgadas por Blavatsky tiveram um peso ainda maior do que as do espiritismo na propagação e popularização das idéias de reencarnação e de carma, até então praticamente desconhecidas no Ocidente, apesar de serem conhecidas tanto na filosofia platônica quanto no judaísmo e nos primórdios do cristianismo.

Em A Chave para a Teosofia, Blavatsky diz que todos os homens têm, física e espiritualmente, a mesma origem, e esse é o ensinamento fundamental da Sociedade Teosófica. Seu objetivo principal é demonstrar que a unidade essencial de toda a vida é um fato da natureza, formando o núcleo de uma fraternidade universal.

Além disso, como a humanidade é de uma única e mesma essência - infinita, não-criada e eterna, quer seja chamada de Deus ou Natureza - nada pode afetar uma nação ou um homem sem que afete igualmente todas as demais nações e homens. Assim, a Sociedade encoraja o estudo de religiões, ciências e filosofias, ancestrais e modernas, para ajudar a promover um melhor entendimento entre as pessoas e o reconhecimento dessa unidade de vida.

Se as diferentes religiões e filosofias forem estudadas e comparadas sem preconceitos e sem paixão, a humanidade poderá chegar à Verdade, especialmente se conseguir encontrar os vários pontos em comum entre essas religiões e pensamentos. Também faz parte dos objetivos da Sociedade o incentivo à investigação e à partilha dessas verdades naturais, que são as leis e forças espirituais, psicológicas e materiais, encontradas no cosmo e nos seres humanos.

Como cada pessoa é uma parte do todo, ela também contém, de forma latente ou expressa, todas as qualidades e atributos do cosmo, de modo que uma das maneiras de se entender o universo e tudo o que ele contém é compreendendo a si mesmo da forma mais profunda e completa.

Em suas recomendações, a Sociedade também apresenta uma advertência contra a busca deliberada de poderes psíquicos. Ainda que os seres humanos devam procurar entendê-los, como parte de sua natureza, essa procura pode distrair a pessoa dos objetivos mais profundos para o crescimento humano, levando ao desequilíbrio no desenvolvimento da consciência.

Viagens

Nascida na Rússia em 12 de agosto de 1831, Helena Petrovna von Hahn deu início a mais de vinte anos de viagens por todo o mundo logo após seu casamento com Nikifor P. Blavatsky, em 1849, de quem tomou o sobrenome com que ficou conhecida. Essas viagens foram fundamentais para seu contato com as mais variadas tradições místicas, ainda que seus biógrafos ressaltem o fato de que, desde cedo, ela já estava acostumada a conhecer diferentes culturas: seu pai, Peter von Hahn, era capitão e, como tal, freqüentemente transferido de uma cidade para outra.

Já na infância, manifestava interesse pelas lendas, além de ter contato com a literatura por intermédio da mãe, Helena Andreyevna Hahn - uma escritora bastante conhecida na época - e da imensa biblioteca dos avós maternos, a princesa Helena Dolgorujova e o governador Andrey de Fadeyev. Nessa biblioteca, havia centenas de livros sobre filosofia e esoterismo.

Após a morte da mãe, quando Blavatsky tinha apenas onze anos, ela foi criada pela avó, de modo que teve ainda mais acesso aos livros e começou a desenvolver um contato com o chamado "mundo metafísico", que ia além do que ela havia aprendido nas leituras.

Ela também dizia que sentia uma presença que iria guiá-la, mantendo-a segura, presença que posteriormente reconheceu como sendo o seu mestre, com o qual estabeleceu uma conexão que se tornou fundamental em sua vida.

O casamento foi forçado, e Helena não permitiu que ele se consumasse, conseguindo fugir do marido, da avó e do pai, iniciando sua jornada pelo mundo por conta própria, à procura de quem pudesse lhe dar o conhecimento e sabedoria que tanto desejava. Encontrou ocultistas em Atenas e Cairo, viveu entre os dervixes, os drusos (membros de uma seita secreta da Síria e Líbano), beduínos e sufis.


Apenas em 1851, na Inglaterra, ela disse ter encontrado a quem chamou de "mestre dos meus sonhos", que posteriormente ela revelaria ser o mestre indiano que a acompanhava desde a infância. Ele lhe disse que a Sociedade Teosófica estava para ser formada, e que desejava que ela fosse a fundadora.

Encontro com o Mestre

As viagens e estudos posteriores incluíram contatos com os indígenas norte-americanos, o vudu, antigas civilizações amazônicas e as religiões da Índia. Ela tentou chegar ao Tibete através do Nepal, querendo encontrar seu mestre em seu retiro em Tashilhunpo, mas a entrada só lhe foi permitida em 1856, e sua vivência no país foi relatada no livro Ísis Sem Véu.

Blavatsky retomou à Rússia em 1858, causando espanto devido às manifestações que provocava, ainda que afirmasse não ser uma médium, mas apenas "uma mediadora entre os mortais e seres dos quais nada conhecemos". De todo modo, uma série de fenômenos parecia ocorrer à sua volta: descobria o que as pessoas pensavam, gerava notas musicais, fazia objetos se moverem à distância.

Diz-se que essa utilização de suas energias provocou uma transformação em sua saúde e, menos de um ano após ter voltado à Rússia, ficou gravemente enferma. Quatro anos depois, ficou em estado ainda pior, mas nas duas ocasiões ela teve uma cura tida como misteriosa. Mais que isso, após essa segunda doença ela passou a ser capaz de controlar os fenômenos e detê-los com sua vontade.

Em 1867, ela retomou à Índia e finalmente pôde se encontrar com seu mestre Morya, e também com o mahatma Koot Hoomi, que também se tornou seu professor. Ela passou três anos estudando com eles, aprendendo a ler e a traduzir para o inglês os mais sagrados textos tibetanos e senzar (senzar é o nome da linguagem secreta sacerdotal).

Entre esses, estava O Livro dos Preceitos Dourados (The Book of the Golden Precepts), dos quais ela traduziu fragmentos com o título The Voice of the Silence (A Voz do Silêncio); e o ainda mais famoso The Book of Dzyan (O Livro Perdido de Dzyan: O Livro Perdido de Dzyan), cujas estrofes, ou estâncias, formam a base de sua A Doutrina Secreta.

Antiga Sabedoria

Blavatsly deixou o Tibete em 1870, dirigindo-se ao Cairo, onde tentou organizar uma sociedade de investigação de fenômenos mediúnicos, logo deixada de lado devido à grande quantidade de fraudes perpetradas pelos médiuns locais.

Um ano depois, seu mestre disse que ela deveria ir para os EUA, exatamente onde tinham se iniciado os fenômenos ligados à comunicação com os espíritos, que nessa época já estavam sendo bastante investigados sob o ponto de vista científico. Ao chegar em Nova York, leu artigos escritos pelo advogado Henry S. Olcott, referindo-se a manifestações que ocorriam na casa dos irmãos Eddy. Ela se encontrou com eles e tentou mostrar-lhes que as aparições não eram de espíritos, mas sim, materializações de entidades astrais inferiores.

Outro advogado, William Q. Judge, foi atraído para o grupo, e Blavatsky começou a ensinar a eles o que havia aprendido sobre espiritualismo. Os três seriam os principais fundadores da Sociedade Teosófica, em 1875.

Nos dois anos seguintes, Blavatsky dedicou seu tempo a escrever, elaborando o seu primeiro livro, Ísis Sem Véu, publicado em 1877, que atingiu um sucesso inesperado. E já em 1879, a Sociedade Teosófica transferia seu centro para Bombaim, na Índia, onde enfrentou novas dificuldades, uma vez que dedicava grande afeição a todas as religiões locais, consideradas pagãs pelos cristãos. 

Blavatsky foi acusada de odiar os cristãos, de imoralidade e até mesmo de ser uma espiã do governo russo. Se isso não bastasse, alguns hindus também a criticavam por aceitar pessoas que não tinham a fé hindu e que acreditavam em magia. No entanto, como o estudo sem quaisquer preconceitos era uma das bases da Sociedade, eles continuaram a trabalhar sem dar atenção às acusações e críticas, unindo-se apenas às pessoas que pensavam e agiam de acordo com esses preceitos.

A Doutrina Secreta
Uma das grandes preocupações de Blavatsky foi com a atenção que o público dava para a manifestação de fenômenos, mais do que para os ensinamentos de seus mestres e para a sabedoria tradicional.

Nesse sentido, as declarações de A.P. Sinnett também foram prejudiciais. Blavatsky e Olcott conheceram Sinnett em 1879, época em que ele era editor do jornal The Pioneer e muito interessado nos fenômenos psíquicos, que ele tinha presenciado em Londres.

Sinnett e sua esposa juntaram-se à Sociedade Teosófica e, no ano seguinte, presenciaram uma série de fenômenos que tiveram como centro a própria Blavatsky, que creditava o ocorrido aos seus mestres.

Assim, Sinnett iniciou um contato de quatro anos com os mestres, que resultou nas chamadas "Cartas dos Mahatmas", que tratavam especialmente de ensinamentos filosóficos e éticos do conhecimento ancestral. Mas com sua tendência para abordar os fenômenos, Sinnett acabou chamando a atenção do público para os poderes psíquicos de Blavatsky, exatamente o que ela não queria.

Em 1884, os médicos disseram que Blavatsky teria que ir para um clima mais ameno, uma vez que sua saúde estava bastante debilitada com as constantes viagens e problemas crônicos nos rins. Antes de partir para a Europa, Blavatsky e a Sociedade tiveram mais probemas, sendo acusados de fraude num relatório da Society for Psychical Research, assinado por Richard Hodgson.

Ela chegou a ser acusada de ter inventado os mahatmas e suas cartas. Mais do que nunca, Blavatsky entendia que precisava terminar sua obra principal, A Doutrina Secreta, e resolveu se mudar para Londres em 1887, publicando a obra no ano seguinte.

Em seus últimos anos de vida, Blavatsky tentou de todas as formas reforçar a posição da Sociedade Teosófica no mundo, inclusive enfrentando problemas internos que ameaçavam o entendimento da verdadeira mensagem. As dissensões internas acabariam por provocar um rompimento de fato da Sociedade, mas Blavatsky não chegou a ver esse momento. Ela faleceu em 1891.

Annie Besant - considerada a continuadora da obra de Blavatsky - ficou à frente da seção européia da Sociedade Teosófica, e William Q. Judge (1851 - 1896) da seção norte-americana, com Olcott presidindo até sua morte, em 1907. Algumas fontes afirmam que o próprio Judge encabeçou um movimento de separação ao fundar a The Theosophical Society in America, que posteriormente mudaria o nome para Universal Brotherhood and Theosophical Society.

Outra ramificação da Sociedade foi a Sociedade Geral Antroposófica, fundada por Rudolf Steiner (1861 - 1925). Mas Besant é considerada a sucessora de fato. Ela conheceu Blavatsky em 1890, mas já estudava temas ligados à espiritualidade e aos fenômenos psíquicos desde 1886. Deu grande importância ao aspecto educacional da teosofia, fundando o Hindu Central College, em Benares, e a Universidade Nacional Indiana, em Adyar, na Índia.

Um dos maiores problemas com relação à sua liderança foi sua afirmação de que um novo messias reencarnaria na pessoa do seu discípulo Krishnamurti, afirmação que provocou a separação de Steiner."

Gilberto Schroeder

Desde 1971, a líder da Sociedade Teosófica é Grace F. Knoche, com a sede em Pasadena, EUA.

Mais sobre a Teosofia, Madame Blavatsky e sua obra:

Site: http://www.sociedadeteosofica.org.br/

Livros:

- A Doutrina Secreta (6 volumes) - Pensamento
- Síntese da Doutrina Secreta - Pensamento 
- Ísis Sem Véu (4 volumes) - Pensamento
- A Doutrina Mística - Século XXI
- Glossário Teosófico - Ground
- A Chave para a Teosofia - Teosófica
- Fundamentos da Filosofia Esotérica – Teosófica

Imagem: A médium Espírita Helena Petrovna Blavatsky e o Coronel Henry Steel Olcott em 1888. (domínio público)

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