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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Jesus antes dos 30

Edição293 - julho de 2011

Os anos ocultos de Jesus. O que ele fez antes dos 30 anos?


A Bíblia não conta. Mas a história e a arqueologia têm muito a dizer...

"O Novo Testamento contém 27 livros, 7.956 versículos e 138.020 palavras. E uma única referência à juventude de Jesus. 

O Evangelho de Lucas nos conta que, aos 12 anos, ele viajou com os pais de Nazaré a Jerusalém para celebrar o Pessach, a Páscoa judaica. 

Quando José e Maria retornavam a Nazaré, perceberam que Jesus tinha ficado para trás. Procuraram o garoto durante 3 dias e decidiram voltar ao Templo, onde o encontraram discutindo religião com os sacerdotes. 
"E todos que o ouviam se admiravam com sua inteligência" (Lc 2:42-49)
Isso é tudo. Jesus só volta a aparecer no relato bíblico já adulto, por volta dos 30 anos, ao ser batizado no rio Jordão por João Batista. É quando o conhecemos realmente. Da infância, as Escrituras falam sobre o nascimento em Belém, a fuga com os pais para o Egito - para escapar de uma sentença de morte impetrada por Herodes, rei dos judeus - e a volta para Nazaré. Da vida adulta, o ajuntamento dos apóstolos e a pregação na Galileia, além do julgamento e da morte em Jerusalém. Mas o que aconteceu com Jesus entre os 12 e os 30 anos? Qual foi sua formação, o que moldou seu pensamento nesses 18 "anos ocultos"? Afinal, o que ele fez antes de profetizar na Galileia?

A notícia para quem deseja reconstruir o Jesus histórico é que novas análises dos Evangelhos, documentos históricos e achados arqueológicos nos dão pistas sobre a sociedade da época. E dessa forma podemos chegar mais perto de conhecer o homem de Nazaré. E entender o que passava em sua cabeça.


O pedreiro cheio de irmãos 

Uma coisa é certa. Aos 13 anos, Jesus celebrou o bar mitzvah, ritual que marca a maioridade religiosa do judeu. E é bem provável que ele tenha seguido a profissão de José, seu pai. Carpinteiro? Talvez não. "Em Marcos, o mais antigo dos Evangelhos, Jesus é chamado de tekton, que no grego do século 1 designava um trabalhador do tipo pedreiro, não necessariamente carpinteiro", diz John Dominique Crossan, um dos maiores especialistas sobre o tema. Para o historiador, os autores de Mateus e Lucas, que se basearam em Marcos, parecem ter ficado constrangidos com a baixa formação de Jesus. E deram um jeito de melhorar a coisa. Mateus (13:55) diz que o pai de Jesus é que era tekton. E Lucas omitiu todo o versículo.

As mesmas passagens de Marcos e Mateus informam que Jesus tinha 4 irmãos (Tiago, José, Simão e Judas), além de irmãs (não nomeadas). Mas dá para ir mais longe a partir dessa informação. "Se os nomes dos Evangelhos estão corretos, a família de Jesus era muito orgulhosa da tradição judaica. Seus 4 irmãos tinham nomes de fundadores da nação de Israel", diz a historiadora Paula Fredriksen, da Universidade de Boston. "Seu próprio nome em aramaico, Yeshua, recordava o homem que teria sido o braço direito de Moisés e liderado os israelitas no êxodo do Egito, mais de mil anos antes."

Assim, a família teria pelo menos 9 pessoas, mas nem por isso era pobre. Nazaré ficava a apenas 8 km de Séforis - um grande centro comercial onde o rei Herodes, o Grande, governava a serviço de Roma. Com a morte dele, em 4 a.C., militantes judeus se revoltaram contra a ordem política. Deu errado: o general romano Varus chegou da Síria para reprimir os rebeldes. E seu amigo Gaio completou o serviço, queimando a cidade. "Homens foram mortos, mulheres estupradas e crianças escravizadas", diz Crossan. Mas a destruição de Séforis teve um lado positivo: Herodes Antipas, filho do "o Grande", transformou o lugar num canteiro de obras. Isso trouxe uma certa abundância de empregos para a região. Um pequeno boom econômico. Então o ambiente ao redor da família de Jesus não era de privações. "A reconstrução da cidade deve ter gerado muito trabalho para José", diz Paula Fredriksen.

Jesus nasceu no ano da destruição da cidade, 4 a.C. Ou perto disso. O Evangelho de Mateus diz que Jesus nasceu no tempo de Herodes, o Grande (4 a.C. ou antes). Lucas coloca o nascimento na época do primeiro censo que o Império Romano promoveu na Judeia. E isso aconteceu, segundo as fontes históricas romanas, em 6 a.C. A única certeza, enfim, é que "foi por aí" que Jesus nasceu. E que o ódio contra o que os romanos tinham feito em Séforis permeava o ambiente onde ele viveu. "Não é difícil imaginar que Jesus pensou muito sobre os romanos enquanto crescia", diz Crossan.

Na década de 20 d.C., quando Jesus estava nos seus 20 e poucos anos, o sentimento antirromano cresceu mais ainda. Pôncio Pilatos assumiu o governo da Judéia cometendo o maior pecado que poderia: desdenhar da fé dos judeus no Deus único.

Mas, em vez de se unir contra o romano, os judeus se dividiram em seitas. Os saduceus, por exemplo, eram os mais conservadores. Os fariseus eram abertos a ideias novas, como a ressurreição - quando os justos se ergueriam das tumbas para compartilhar o triunfo final de Deus. Os essênios viviam como se o fim dos tempos já tivesse começado: moravam em comunidades isoladas, que faziam refeições em conjunto seguindo estritas leis de pureza. Já os zelotes defendiam a luta armada contra os romanos.

Em qual dessas seitas Jesus se engajou na juventude? Não há consenso entre os pesquisadores. Para alguns, porém, existem semelhanças entre a dos essênios e o movimento que Jesus fundaria - ambas as comunidades viviam sem bens privados, num regime de pobreza voluntária, e chamavam Deus de "pai". Essa hipótese ganhou força com a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, em 1947. Eles trouxeram detalhes sobre uma comunidade asceta de Qumran, que viveu no século 1 e estaria associada aos essênios. O achado ar-queológico não provou a ligação entre Jesus e essa seita. Até porque os essênios eram sujeitos reclusos, ao passo que Jesus foi pregar entre as massas da Galileia e Jerusalém.

Jesus podia não ser essênio. Mas, para alguns estudiosos, seu mentor foi.


João, o mestre 

Dois dos 4 Evangelhos começam a falar de João Batista antes de mencionar Jesus. É em Marcos e João. O homem que batizaria Cristo aparece descrito como um profeta que se vestia como um homem das cavernas ("em pelos de camelo") e que vivia abaixo de qualquer linha de pobreza traçável ("comia gafanhotos e mel silvestre").

Para a historiadora britânica Karen Armstrong, outra grande especialista no tema, isso indica que João pode ter sido um essênio. A vocação "de esquerda" que Jesus mostraria mais tarde, inclusive, pode vir da ligação do mestre João com a "sociedade alternativa" dos essênios. "É mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus", ele diria mais tarde.

Os Evangelhos não falam de João como mestre de Jesus. Nada disso. Ele apenas reconhece Jesus como o Messias na primeira vez que o vê. Os textos sagrados também informam que ele usava o batismo como expediente para purificar seus seguidores, que deviam confessar seus pecados e fazer votos de uma vida honesta.

Então Jesus aparece pedindo para ser batizado. Na Bíblia, esse é o primeiro momento em que vemos o Messias após aqueles 18 anos de ausência.

Depois de purificado nas águas do rio Jordão, Jesus parte para sua vida de pregação, curas e milagres. A vida que todos conhecem.

Para quem entende esse relato à luz da fé, isso basta. Mas é pouco para quem tenta montar um panorama da vida de Jesus, um retrato puramente histórico de quem, afinal, foi o homem da Galileia que sairia da vida para entrar na Bíblia como o Deus encarnado. E uma possibilidade é que Jesus tenha sido um discípulo de João Batista. Discípulo e sucessor.

As evidências: tal como João Batista, Jesus via o mundo dividido entre forças do bem e do mal. E anunciava que Deus logo interviria para acabar com o sofrimento e inaugurar uma era de bondade. Em suma: tanto um como o outro eram o que os pesquisadores chamam de "profetas apocalípticos". E se os Evangelhos jogam tanta luz sobre João Batista (Lucas fala inclusive sobre o nascimento do profeta, assim como faz com Jesus), a possibilidade de que a relação deles tenha sido mais profunda é real.

O grande momento de João Batista na Bíblia, porém, não é o batismo de Jesus. É a sua própria morte. Morte que abriria as portas para o nosso Yeshua, o Jesus da vida real, começar o que começou.


E Yeshua vira Cristo 

João Batista podia se vestir com pele de animal e se alimentar de gafanhotos. Mas tinha a influência de um grande líder político. Prova disso é que morreu por ordem direta de Antipas. O Herodes júnior tinha violado o 10º mandamento da lei judaica: "Não cobiçarás a mulher do próximo". Não só estava cobiçando como estava de casamento marcado com a ex-mulher do irmão, Felipe. João condenou a atitude do rei publicamente. E acabou executado.

Mateus deixa claro como Jesus, então já com seus 12 discípulos e em plena pregação, recebeu a notícia: "Ouvindo isto, retirou-se dali para um lugar deserto, apartado; e, sabendo-o o povo, seguiu-o a pé desde as cidades". Logo na sequência, o Cristo emenda o maior de seus milagres. Sentido com a fome da multidão que ia atrás dele, pegou 5 pães e dois peixes (tudo o que os apóstolos tinham) e foi dividindo. Passava os pedaços aos discípulos, e os discípulos à multidão. "E os que comeram foram quase 5 mil homens, além das mulheres e crianças" (Mateus 14:21). Horas depois, no meio da madrugada, outro milagre de primeiro escalão: Jesus apareceria para os apóstolos andando sobre as águas.

Esses episódios, claro, são parte da vida conhecida de Jesus (ou da mitologia cristã, em termos técnicos). Mas deixam claro: a morte de João foi importante a ponto de ter sido seguida de dois dos grandes episódios da saga de Cristo.

O filho do pedreiro assumiria o vácuo religioso deixado pelo profeta. Agora sim: Yeshua caminharia com as próprias pernas. E começaria a virar Jesus Cristo. "Ele não só assumiu o manto de João, mas alterou sua doutrina. A diferença interessante entre João Batista e Jesus Cristo é que Jesus ergueu o manto caído de Batista e continuou seu programa mudando radicalmente sua visão", diz Crossan.

Ele continua: "João dizia que Deus estava chegando. Mas João foi executado e Deus não veio". Ou seja: para o pesquisador, Jesus teria ficado tão chocado ante a não-intervenção divina que mudou sua visão sobre o que o Reino de Deus significava.

"João Batista havia imaginado uma intervenção unilateral de Deus. Jesus imaginou uma cooperação bilateral: as pessoas deveriam agir em combinação com Deus para que o novo reino chegasse", diz o pesquisador. Ou seja: não adiantaria esperar de braços cruzados. O negócio era fazer o Reino dos Céus aqui e agora. Como? Primeiro, extinguindo a violência. Mas e se alguém me der um soco, senhor? "Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra" (Lucas 6:29). Depois, amando ao próximo como a ti mesmo, ajudando ao pior inimigo se for necessário, como fez o bom samaritano da parábola famosa... Em suma, a essência da doutrina cristã.


A natividade 

Agora, um aparte: chamar de "anos ocultos" apenas a juventude de Jesus é injustiça. O nascimento também é uma incógnita completa. A começar pela data de nascimento: 25 de dezembro era a data em que os romanos celebravam sua festa de solstício de inverno, a noite mais longa do ano. Não porque gostassem de noites sem fim, mas porque ela marcava o começo do fim do inverno. Praticamente todos os povos comemoram esse acontecimento desde o início da civilização - nossas festas de fim de ano, a semana entre o Natal e o Ano-Novo são um reflexo disso. O dia em que Jesus nasceu não consta na Bíblia - foi uma imposição da Igreja 5 séculos depois, para coincidir o nascimento do Messias com a festa que já acontecia mesmo - com troca de presentes e tudo.

"Na verdade, não sabemos nada histórico sobre Jesus antes de sua vida pública, já que os dois primeiros capítulos de Mateus e Lucas [os que relatam o nascimento] são basicamente parábolas, não história", diz Crossan. De acordo com Mateus, José soube num sonho que Maria daria à luz um menino concebido pelo Espírito Santo. Quando Jesus nasce, magos surgem do Oriente e seguem uma estrela que os conduz a Jerusalém. Lá, eles ficam sabendo que o Cristo nasceu em Belém. Seguindo a estrela, os magos chegam à cidade para adorar o menino e lhe regalam com ouro, incenso e mirra. Mas Herodes fica perturbado com o nascimento e manda soldados matarem todos os bebês de até 2 anos em Belém. Assim, José foge com a família para o Egito e depois vai morar em Nazaré, na Galileia, onde Jesus é criado.

"Não há nenhum relato, em qualquer fonte antiga, sobre o rei Herodes massacrar crianças em Belém, ou em seus arredores, ou em qualquer outro lugar. Nenhum outro autor, bíblico ou não, menciona isso", diz o teólogo americano Bart D. Ehrman no livro Quem Foi Jesus? Quem Jesus Não Foi?

No relato de Lucas, o anjo Gabriel vai à casa de Maria, em Nazaré, e lhe avisa que daria à luz um futuro rei. E que o "Filho de Deus" se chamaria Jesus. Maria era uma virgem prometida a José, e o anjo lhe explicou que o filho seria gerado pelo Espírito Santo. Lucas diz que naquela época, "quando Quirino era governador da Síria", um decreto do imperador Augusto obrigou os súditos a se registrar no primeiro censo do Império. Todo mundo devia retornar à cidade de origem para se alistar. Como os ancestrais de José eram de Belém, ele foi com Maria grávida para lá. Jesus nasceu em Belém pouco depois, e foi envolvido em panos na manjedoura. Lá o menino recebeu a visita de pastores e foi circuncidado aos 8 dias, para depois passar a infância em Nazaré.

"Os problemas históricos em Lucas são ainda maiores", diz Ehrman. "Temos registros do reinado de Augusto, e em nenhum deles há referência a um censo para o qual todos teriam de se registrar retornando ao lar dos ancestrais."

Ok, mas afinal por que Mateus e Lucas fazem Jesus nascer em Belém? Bom, de acordo com uma profecia do livro de Miqueias, do Antigo Testamento, o salvador viria de lá. Por que de lá? Porque era a cidade do rei Davi, o mais lendário dos soberanos de Israel.

Depois que o general Pompeu invadiu a Judeia, em 63 a.C., e fez dela província do Império Romano, os profetas passaram a dizer que um rei da linhagem de Davi inauguraria o "reino de Deus". Chamavam essa figura de "o ungido" - já que Davi e outros reis israelitas haviam sido ungidos com óleo. Os Evangelhos foram escritos em grego, o inglês da época. E em grego "ungido" é christos. O Cristo tinha que nascer em Belém. Yeshua provavelmente era de Nazaré mesmo.

Os Evangelhos, por sinal, são obra de autores desconhecidos. É apenas uma convenção dizer que foram escritos por Marcos (secretário do apóstolo Pedro), Mateus (o coletor de impostos), João (o "discípulo amado") e Lucas (o companheiro de viagem de Paulo). Além disso, os escritores não foram testemunhas oculares. "O autor de Marcos escreveu por volta do ano 70. Mateus e Lucas, de 80. E João, no final dos 90", diz Karen Armstrong. E claro: "Eram cristãos. Eles não estavam imunes a distorcer as histórias à luz de suas crenças", diz Ehrman. Afinal, "evangelho" deriva da palavra grega euangélion, que significa "boas novas". O objetivo dos autores não era escrever a biografia de Jesus, e sim propagar a nova fé. Levando isso em conta, chegamos a outra polêmica: os anos considerados como os mais conhecidos da vida de Jesus também são cheios de episódios misteriosos. Vejamos.


Yeshua sai da vida para entrar na Bíblia 

Talvez tenha sido em busca de audiência que Yeshua rumou com os discípulos da Galileia para Jerusalém, por volta do ano 30 d.C. Depois de 3 anos pregando na periferia, já seria hora de atuar no palco principal.

Jerusalém era o pivô do fermento espiritual judaico, e milhares de judeus iam para lá na Páscoa. Os Evangelhos nos dizem que Jesus causou um tumulto no local, destruindo as banquinhas de câmbio (que trocavam moedas estrangeiras dos romeiros por dinheiro local cobrando uma comissão), já que seria uma ofensa praticar o comércio em pleno Templo de Jerusalém, o lugar mais sagrado da Terra para os judeus. Por perturbar a ordem pública, ele foi condenado à cruz. Parece historicamente sólido, mas o episódio central do Novo Testamento também é fonte de reinterpretações.

No julgamento, por exemplo, a multidão teria pedido que Barrabás, um assassino, fosse solto em vez de Jesus - já que era "costume" da Páscoa. Esse costume, porém, não é mencionado em nenhum lugar, exceto nos Evangelhos. Além disso, Jesus pode não ter sido exatamente crucificado, mas "arvorificado". É a teoria (controversa, é verdade) do arqueólogo Joe Zias, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Suas pesquisas indicam que as vítimas dos romanos eram mais comumente crucificadas em árvores, pregando uma tábua de madeira no tronco para prender os braços do condenado. Seja como for, não há por que duvidar de que ele tenha sido executado. Roma usava e abusava do expediente para tentar manter o controle das regiões que conquistava. Segundo Flávio Josefo, historiador judeu do século 1, numa só ocasião 2 mil judeus foram executados

A história de Jesus não acaba aí, claro. "Alguns discípulos estavam convencidos de que ele ressuscitara. E que sua ressurreição anunciava os últimos dias, quando os justos se reergueriam das tumbas", diz Armstrong. Para esses judeus cristãos, Jesus logo retornaria para inaugurar o novo reino. O líder do grupo era Tiago, irmão de Jesus, que tinha boas relações com fariseus e essênios. E o movimento se expandiu. Quando Tiago morreu, em 62, Jerusalém vivia o auge da crise política. Em 66, romanos perseguiram os judeus com medo de uma insurgência. Os zelotes se rebelaram e conseguiram manter as tropas do Império afastadas por 4 anos. Com medo de que a rebelião judaica se espalhasse, Roma esmagou os revoltosos. Em 70, o imperador Vespasiano sitiou Jerusalém, arrasou o Templo e deixou milhares de mortos.

"Não temos ideia de como seria o cristianismo se os romanos não tivessem destruído o Templo", diz Armstrong. "Sua perda reverbera ao longo dos livros que formam o Novo Testamento. Eles foram escritos em resposta à tragédia."

Para os pesquisadores, então, os textos sagrados refletem a realidade da Judeia do final do século 1 - e não a do início, a que Jesus viveu de fato. Por exemplo: Barrabás personificaria os sicários, judeus que saíam armados de punhais para matar romanos na calada da noite, como uma forma de vingança pela destruição do Templo. E que por isso mesmo eram assassinos amados pela população.

Quer dizer: Barrabás seria um personagem típico da década de 70 d.C., inserido no episódio da morte de Jesus, fato que aconteceu na década de 30 d.C, num momento em que o ódio aos romanos e o louvor a quem se dispusesse a matá-los não eram tão violentos.

Até a época em que os Evangelhos foram escritos, o movimento de Jesus era apenas um entre as várias seitas judaicas. Os primeiros cristãos se diziam "o verdadeiro Israel" e não tinham intenção de romper com a corrente principal do judaísmo. Mas tudo mudou com a destruição do Templo.

Ela intensificou a rivalidade entre as facções judaicas. "Em sua ânsia por alcançar o mundo gentio (o dos não-judeus), os autores dos Evangelhos estavam dispostos a absolver os romanos da execução de Jesus e declarar, com estridência crescente, que os judeus deviam carregar a culpa", diz Armstrong. João, o Evangelho mais virulento, declara que os judeus são "filhos do Diabo" (João 8:44). Até o autor de Lucas, que tinha uma visão mais positiva do judaísmo, deixou claro que havia um bom Israel (os seguidores de Jesus) e um Israel mau - os fariseus.

A rixa com os fariseus tem lógica, já que eram competidores diretos dos judeus cristãos. "Num extremo do judaísmo estavam os saduceus, a ala mais conservadora. No outro, os essênios, a mais radical. Já os fariseus e os judeus cristãos estavam no meio. Eles lutavam pela mesma coisa: a liderança do povo, que estava entre as duas pontas", diz Crossan.

Não é surpresa, aliás, que os livros do Novo Testamento contenham tantas contradições entre si. "Quando os editores finais do Novo Testamento juntaram esses textos, no início da Idade Média, não se incomodaram com as discrepâncias. Jesus havia se tornado um fenômeno grande demais nas mentes dos cristãos para ser atado a uma única definição", diz Armstrong. Os Evangelhos atribuídos a Marcos, Lucas, Mateus e João seriam finalmente selecionados para o cânon da Igreja. Dezenas de outros evangelhos ficaram de fora.

Só no século 2, quase 100 anos após a morte de Jesus, começam a aparecer relatos sobre ele no centro do Império. Um deles é uma carta do político romano Plínio ao imperador Trajano. Plínio cita pessoas conhecidas como "cristãs" que veneravam "Cristo como Deus". Outra fonte é o historiador romano Tácito, que menciona os "cristãos (...), conhecidos assim por causa de Cristo (...), executado pelo procurador Pôncio Pilatos". Suetônio, que escreveu pouco depois de Tácito, informa sobre uma perseguição de cristãos, "gente que havia abraçado uma nova e perniciosa superstição". Uma "superstição" cuja mensagem convenceria cada vez mais gente, a ponto de, no século 4, o imperador romano em pessoa (Constantino, no caso) converter-se a ela. E o resto é história. Uma história que chega ao seu segundo milênio. Com 2 bilhões de seguidores."


domingo, 13 de setembro de 2009

Carlos Castañeda e O Caminho do Guerreiro

"Para mim, o mundo é assombroso porque é estupendo, assustador, misterioso, insondável; meu interesse é convencer você a tomar ciência de que está aqui, neste mundo maravilhoso, neste deserto maravilhoso, neste tempo maravilhoso. Quero convencer você a aprender a tornar cada ato importante e válido, já que vai ficar aqui por um curto espaço de tempo. Na verdade, curto demais para conhecer todas as maravilhas que nele existem."   (Dom Juan, em trecho extraído de 'Viagem a Ixtlan', de Carlos Castañeda')

"Para mim, o mundo é assombroso porque é estupendo, assustador, misterioso, insondável; meu interesse é convencer você a tomar ciência de que está aqui, neste mundo maravilhoso, neste deserto maravilhoso, neste tempo maravilhoso. Quero convencer você a aprender a tornar cada ato importante e válido, já que vai ficar aqui por um curto espaço de tempo. Na verdade, curto demais para conhecer todas as maravilhas que nele existem." 

(Dom Juan, em trecho extraído de 'Viagem a Ixtlan', de Carlos Castañeda')

O Caminho do Guerreiro 


"Foi no início da década de 60, quando os hippies norte-americanos começavam a colocar flores nos cabelos e o fenômeno da contracultura começava a aclamar a chegada da Era de Aquário. Nessa década, que foi um dos períodos mais marcantes da história contemporânea, surgiu um homemque difundiu idéias até então inconcebíveis pelo sistema social vigente, e que só encontraram espaço para sepropagar graças à ruptura dos padrões sociais - Carlos Castañeda - Certamente, um dos maiores precursores da new age tribe.

A juventude da época não estava interessada em dar continuidadeao velho ideal do "sonho americano", que pregava o "sucesso a qualquer preço" e uma casa confortável com todos aqueles "inutensílios" domésticos. Para muitos, a atmosfera era de inquietação e aversão ao modo capitalista de vida, responsável por guerras como a do Vietnã. A "estranha realidade" indecifrável e impalpável de que Castañeda falava, veio ao encontro da intensa busca pela liberdade total, pelo prazer contínuo, pelos estados alterados de consciência, e pela espiritualidade ligada a culturas antigas. Na verdade, o mundo estava de braços abertos para acolher aqueles que propusessem uma alternativa ao sistema.

O Divisor de Águas

No verão de 1960, o antropólogo Carlos Castañeda, da Universidade da Califórnia, foi a Nogales, no Arizona, colher informações para sua tese de pós-graduação sobre o uso de ervas medicinais e psicotrópicas por tribos mexicanas. Lá, mais precisamente num ponto de ônibus, conheceu um velho índio yaqui pertencente a uma antiga linhagem xamânica do México. O feiticeiro, que se auto intitulava Dom Juan Matus, viu em Castañeda um discípulo, iniciando-o numa jornada assustadora e arrasadora pelos mistérios de outras dimensões.

Pouco se sabe de concreto sobre a história pessoal de Castañeda até aquele encontro, uma vez que ele mesmo engendrou um grande esforço para conseguir apagá-la, a pedido de seu mestre. Alguns lhe atribuem origem peruana, enquanto ele próprio disse que nasceu no Brasil, na cidade de Mairiporã, próxima a São Paulo, no dia de Natal, em 1935.

Ao que parece, a fazenda em que viveu durante a infância era de seu avô, e sua mãe fora uma empregada da casa. Conclusões à parte, o fato é que Castañeda costumava resumir a relação dizendo que foi fruto de um "ato sexual pobre" que, segundo ele, o fez nascer com uma "escassez de energia sexual". Afirmava e escrevia que não queria bem à sua mãe, e que oscilava entre a compaixão e o desprezo por seu pai. Pelo que escreveu em seus livros, foi um rapaz tenaz, rebelde e agressivo, que voltava contra os demais sua própria frustração familiar.

Foi, então, enviado a um orfanato na Argentina e, aos quinze anos, partiu para São Francisco, Califórnia, onde viveu com uma famlia adotiva enquanto completava o bacharelado. Em 1960, casou-se com uma norte-americana, quatorze anos mais velha que ele, mas se divorciou em 73.

Quando conheceu Dom Juan, Castañeda era como qualquer outro típico homem ocidental: escravizado pela opinião alheia, dependente dos outros, egocêntrico e cheio de inseguranças que tentava obscurecer inutilmente, ostentando uma intelectualidade acadêmica que, posteriormente, percebeu não servir para nada. Em seu primeiro encontro com o brujo (curandeiro), Castañeda recebeu um olhar desconcertante, sentindo que todas suas defesas tinham sido desativadas, o que o fez se sentir extremamente frágil. Dom Juan o induziu a questionar suas certezas mais profundas, a tal ponto que diluiu o mundo pessoal de seu aprendiz. Daí viria o porquê de se "apagar a história pessoal", para que o indivíduo se liberte da "prisão da personalidade" e da importância auto-imbuída e possa mergulhar tranqüilamente pelo infinito - o nagual.

Dom Juan dizia que "ser impecável significa pôr sua vida alinhada de modo a apoiar suas decisões, e então fazer muito mais que o seu melhor para realizar estas decisões". Para isso, ensinava Castañeda a se desprender do ego, que faz as pessoas "pseudo-agirem", isto é, viverem em função do reconhecimento social.

O Mescalito e a Erva do Inferno

Castañeda contava que, quem de fato o havia escolhido como discípulo, tinha sido Mescalito, uma entidade que habitava o peiote. Sob a orientação de Dom Juan, Castañeda experimentou extraordinárias alucinações através do consumo do peiote, de cogumelos mágicos e da datura - a figueira-do-inferno. Suas experiências com as plantas psicotrópicas foram relatadas em seu primeiro livro, A Erva do Diabo, que teve repercussão imediata entre a geração,flower power. Os hippies já tinham como referência o papa do LSD, Timothy Leary, e, antes disso, Aldous Huxley, autor de As Portas da Percepção e Admirável Mundo Novo.

Durante esses "transes", Castañeda afirmava que podia se transformar em corvo, lutar contra feiticeiras poderosas, conversar com lagartos, penetrar em outras dimensões, e ser instruído por Mescalito sobre a "maneira adequada de viver". Em seus livros, ele explicava que essas plantas eram utilizadas apenas para quebrar a corrente de interpretações que formam a realidade objetiva; elas promoviam um estado de abstração pura, no qual todas as construções mentais que dão origem ao mundo do dia-a-dia desapareciam.

No entanto, ao contrário do que muitos pensam, Castañeda não fazia apologia do uso dessas "plantas sagradas", que só poderiam ser consumidas com o auxilio de um guia. Em entrevista à revista Veja, em 1986, Castañeda disse que "Dom Juan usou psicotrópicos e plantas alucinógenas como um auxílio aos ensinamentos. Uma vez atingido o objetivo, estes veículos se tornaram desnecessários". Navegar em outras dimensões, ele dizia, pode trazer revelações atemorizantes, cujos efeitos poderiam ser devastadores para a psique humana. Castañeda contou que, em suas primeiras experiências, tinha a certeza de que sem um guia teria perdido o caminho de volta à realidade consensual. Disse ainda que, se uma pessoa interrompe acidentalmente a corrente do bom senso e não consegue refazê-la, torna-se psicótica. O bruxo, explica Castañeda, consegue "viajar" voluntariamente e adquirir novas compreensões sem perder os parâmetros do mundo consensual. A "loucura controlada" é o que permite ao feiticeiro adaptar seus vastos conhecimentos à vida prática, pois todos eles só são válidos se forem pragmáticos, alegava Castañeda.

Castañeda e a Tensegridade

Castañeda adaptou uma série de movimentos corporais dos antigos xamãs mexicanos, à qual deu o nome de Tensegridade. Esses movimentos, realizados durante os transes psíquicos dos xamãs, foram descritos em seu livro Passes Mágicos.

Conta Castañeda que, quando os feiticeiros entravam em estado de profundo transe, começavam a perceber os outros homens como "bolas lurainosas", com um ponto de brilho muito intenso à altura das omoplatas. 
Perceberam que esse era o ponto para o qual a energia universal convergia, penetrando nos seres humanos na forma de informações apropriadas à nossa raça; ali acontecia a interpretação dessa energia, que é então incorporada ao nosso sistema cognitivo.

Por isso, esse ponto foi chamado de "ponto de aglutinação", e essa capacidade de vislumbrar a energia tal como ela flui naturalmente do Universo foi chamada de "visão".

Nesses estados alterados, os xamãs praticavam intuitivamente contínuos movimentos corporais, e percebiam que eles lhes davam um grande bem-estar físico e espiritual.

Assim, quando voltavam de suas vivências, começavam a organizar esses movimentos em séries. Passaram a ensiná-los e ritualizá-los de maneira muito criteriosa e sigilosa, apenas para os iniciados, com o objetivo de expandir a consciência.

Castañeda e suas companheiras - Carol Tiggs, Florinda Donner-Grau e Taisha Abelar - que também foram discípulas de Dom Juan, resolveram sistematizar e mostrar os "passes mágicos" ao mundo, contrariando as recomendações do mestre. Dessa forma, a tensegridade consiste numa série de movimentos, respirações e visualizações que visamao redirecionamento da energia latente no ser humano, de modo a equilibrar as funções do organismo e integrá-lo ao espírito.

Existem, ainda, alguns grupos de praticantes da tensegridade espalhados pelos Estados Unidos, e também outros em cidades brasileiras.

O Tonal e o Nagual

Castañeda definia o tonal como uma espécie de coleção de todas as memórias e informações contidas no consciente, formas de interpretação que têm relação com a cultura. Seria como uma ilha na qual estão presentes todas as coisas que podem ser nomeadas.

Já o nagual seria o oceano indizível existente em torno da ilha, as infinitas possibilidades, uma espécie de silêncio absoluto. Para Castañeda, a cultura ocidental não admite elementos que não se enquadrem no senso comum, na "ilha-tonal". Segundo ele,"a educação formal e informal - ou seja, aquela que é produto daintegração cultural - do homem ocidental não dá margem a nada estranho ou diferente do consenso social. Aquilo que está fora da norma do nosso bom senso é considerado anormalidade".

De tato, as duas realidades de que Castañeda falava não estão separadas uma da outra. Elas se unem para compor a totalidade, embora a maior parte da humanidade só consiga "perceber" a realidade palpável, objetiva e visível. Os xamãs do antigo México, afirmava Castañeda, eram capazes de compreender a causa primária da manifestação universal e sua força motriz - a qual chamavam de Intento. "Dom Juan dizia que quem organiza as idéias que vêm da fonte não é o xamã, mas o Intento. O xamã é, simplesmente, um condutor impecável", disse Castañeda, em entrevista à revista chilena Uno Mismo, em 1997.

O escritor sustentava que, para atingir a impecabilidade do Guerreiro, é necessário abandonar toda importância pessoal, e tornar-se consciente de que o caminho a seguir é solitário e individual; não diz respeito a mais ninguém. Dom Juan costumava dizer a seu aprendiz que "num mundo onde a Morte é a caçadora,não há tempo para arrependimentos ou dúvidas, apenas para decisões".

"Dom Juan me ensinou a viver para o agora", disse Castañeda, "a encarar a minha morte como um fato inevitável e existente em minha vida. O conceito de morte deve ser encarado como uma realidade. Ele me ensinou que, se eu me considerasse como morto, nenhuma das minhas ações teria importância pessoal, e com isso eu poderia mudar; mudanças poderiam ser feitas e tarefas ser cumpridas".

Ele dizia que os homens ocidentais não aprendem a ser responsáveis durante a infância e que, por isso, crescem infantis. Seu maior intuito, que acredita ter alcançado, era o de deixar de ser "criança-profissional" e se tornar "guerreiro-pirata". O guerreiro seria aquele que vive impecavelmente de acordo com aquilo que sente, e é imprevisível porque pode mudar de direção e seguir outro caminho a qualquer momento, se sua intuição assim o quiser. Dom Juan dizia: "Todos os caminhos são iguais. Eles não levam a lugar algum".

Castañeda morreu de câncer hepático, no dia 27 de abril de 98. Sua última obra foi O Lado Ativo do Infinito, publicado após sua morte e que fala, justamente, sobre a morte. Considerado pela revista Time o líder do renascimento espiritual dos EUA, o discípulo de Dom Juan participou de palestras, conferências, seminários e centros de praticantes da tensegridade, juntamente com suas companheiras.

Plagiado pelos diversos falsos gurus da atualidade, Castañeda era um homem simples, que fugia da publicidade, não permitia que o fotografassem ou gravassem suas entrevistas.

Por muitos anos, ele esteve "desaparecido do mapa", vivendo sob falsa identidade, isolado de seus amigos e do público, atitude que foi interpretada por alguns como "estrelismo" e, por outros, como "sabedoria". Desde o seu aprendizado com o feiticeiro Dom Juan até o fim de sua vida, Castañeda empenhou-se em trilhar o único caminho que, para ele, tinha um coração: o caminho do guerreiro.

Tonal e Nagual

Em certos rituais xamânicos (também chamados de Rodas de Cura), um dos círculos, feito de pedras, é cortado por dois eixos, resultando em quatro direções: os pontos-cardeais.

O eixo tonal é o Norte-Sul, que equilibra a sabedoria e a inocência, e o eixo nagual é o Leste-Oeste, que oferece as ferramentas extraordinárias para se funcionar entre a ilusão do corpo e a iluminação do espírito.

O ritual representa a caminhada do ser humano, que se inicia no Leste, onde tudo se encontra em plena Unidade. Segue, então, em direção ao Sul, para se defrontar com as emoções, porque tudo se divide em opostos; depois, para Oeste, afim de aprendera reconciliar e unir os opostos; segue para o Norte, onde encontra sua direção e seu propósito para, finalmente, chegar ao Centro, à Iluminação.

Sendo assim, Castañeda acreditava que a vida é conduzida por um fluxo universal, e que a única coisa que cada um pode fazer é expandir a consciência de tal modo que perceba seu espaço e seu momento. Cada um deve aprender a viver impecavelmente a dança das mudanças."

Fonte: Revista Sexto Sentido, Número 34, Páginas 6-10. - Por Nathalia Leite







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