Nosso conteúdo é vasto! Faça sua busca personalizada e encontre o que está procurando...

Translate

Mostrando postagens com marcador guerreiro de luz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador guerreiro de luz. Mostrar todas as postagens

domingo, 20 de dezembro de 2009

Carlos Castañeda: 'O medo na visão de Don Juan Matus'

"E o que ele pode fazer para vencer o medo?  - A resposta é muito simples. Não deve fugir. Deve desafiar o medo e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte, e o seguinte. Deve ter medo, plenamente, e no entanto não deve parar. É esta a regra! E o momento chegará em que seu primeiro inimigo recua. O homem começa a se sentir seguro de si. Seu propósito se torna mais forte. Aprender não é mais uma tarefa aterradora. Quando chega esse momento feliz, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro inimigo natural.  - Isso acontece de uma vez, Don Juan, ou aos poucos?  - Acontece aos poucos, e no entanto o medo é vencido de repente e depressa.  - Mas o homem não terá medo outra vez se lhe acontecer alguma coisa nova?  - Não. Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque em vez do medo, ele adquire a clareza... uma clareza de espírito que apaga o medo. Então o homem já conhece seus desejos; sabe como satisfazê-los. Pode antecipar os novos passos na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada se lhe oculta."

por Carlos Castañeda


"Devagar ele começa a aprender...a princípio, pouco a pouco, e depois em porções grandes. E logo seus pensamentos entram em choque. O que aprende nunca é o que ele imaginava, de modo que começa a ter medo. Aprender nunca é o que se espera. Cada passo da aprendizagem é uma nova tarefa, e o medo que o homem sente começa a crescer impiedosamente, sem ceder. Seu propósito torna-se um campo de batalha.

E assim se depara com o primeiro de seus inimigos naturais: o medo! Um inimigo terrível, traiçoeiro, e difícil de vencer. Permanece oculto em todas as voltas do caminho, rondando à espreita. E se o homem, apavorado com sua presença, foge, seu inimigo terá posto fim à sua busca.

- O que acontece com o homem se ele fugir com medo?

- Nada lhe acontece, a não ser que nunca aprenderá. Nunca se tornará um homem de conhecimento,talvez se torne um tirano, ou um pobre homem apavorado e inofensivo, de qualquer forma, será um homem vencido. Seu primeiro inimigo terá posto um fim aos seus desejos.

- E o que ele pode fazer para vencer o medo?

- A resposta é muito simples. Não deve fugir. Deve desafiar o medo e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte, e o seguinte. Deve ter medo, plenamente, e no entanto não deve parar. É esta a regra! E o momento chegará em que seu primeiro inimigo recua. O homem começa a se sentir seguro de si. Seu propósito se torna mais forte. Aprender não é mais uma tarefa aterradora. Quando chega esse momento feliz, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro inimigo natural.

- Isso acontece de uma vez, Don Juan, ou aos poucos?

- Acontece aos poucos, e no entanto o medo é vencido de repente e depressa.

- Mas o homem não terá medo outra vez se lhe acontecer alguma coisa nova?

- Não. Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque em vez do medo, ele adquire a clareza... uma clareza de espírito que apaga o medo. Então o homem já conhece seus desejos; sabe como satisfazê-los. Pode antecipar os novos passos na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada se lhe oculta.

E assim ele encontra seu segundo inimigo natural: A clareza. Essa clareza de espírito, que é tão difícil de obter, elimina o medo, mas também cega. Obriga o homem a nunca duvidar de si. Dá-lhe a segurança que ele pode fazer o que bem entender, pois ele vê tudo claramente. E ele é corajoso, porque é claro; não pára diante de nada, porque é claro. Mas tudo isso é um engano; é como uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a esse poder de faz de conta, terá sucumbido ao seu segundo inimigo e tateará com a aprendizagem. Vai precipitar-se quando devia ser paciente, ou vai ser paciente quando deveria precipitar-se. E tateará com a aprendizagem até acabar incapaz de aprender qualquer coisa a mais.

- O que acontece com um homem que é derrotado assim, Dom Juan? Ele morre por isso?

- Não morre. Seu inimigo acaba de impedi-lo de se tornar um homem de conhecimento; em vez disto, o homem pode se tornar um guerreiro valente, ou um palhaço. No entanto, a clareza, pela qual ele pagou tão caro, nunca mais se transformará de novo em trevas ou medo. Será claro enquanto viver, mas não aprenderá nem desejará nada.

- Mas o que tem de fazer para não ser vencido ?

- Tem de fazer o que fez com o medo: tem de desafiar sua clareza e usá-la só para ver, e esperar com paciência e medir com cuidado antes de dar novos passos; deve pensar acima de tudo, que sua clareza é quase um erro. E virá um momento em que ele compreenderá que sua clareza era apenas um ponto diante de sua vista. E assim ele terá vencido seu segundo inimigo, e estará numa posição em que nada mais poderá prejudicá-lo. Isto não será um engano. Não será um ponto diante de sua vista. Será o verdadeiro poder.


Ele saberá a esta altura que o poder que vem buscando há tanto tempo é seu, por fim. Pode fazer o que quiser com ele. Seu aliado está às suas ordens. Seu desejo é ordem. Vê tudo que está em volta. Mas também encontra seu terceiro inimigo; o poder.

O poder é o mais forte de todos os inimigos. E, naturalmente, a coisa mais fácil é ceder; afinal de contas, o homem é realmente invencível. Ele comanda; começa correndo riscos calculados e termina ditando regras, porque é um senhor. Um homem neste estágio quase nem nota que seu terceiro inimigo se aproxima. E de repente, sem saber, certamente terá perdido a batalha. Seu inimigo o terá transformado num homem cruel e caprichoso.

- E ele perderá o poder?

- Não ele nunca perderá sua clareza nem seu poder.

- Então o que o distinguirá de um homem de conhecimento?

- Um homem que é derrotado pelo poder, morre sem realmente saber manejá-lo. O poder é apenas uma carga em seu destino. Um homem desse não tem domínio sobre si, e não sabe quando ou como utilizar se poder.

- A derrota por algum desse inimigos é uma derrota final?

- Claro que é final. Uma vez que esses inimigos dominem o homem não há nada que ele possa fazer.

- Será possível que o homem derrotado pelo poder veja seu erro e se emende?

- Não. Uma vez que o homem cede está liquidado.

- Mas e se ele estiver temporariamente cego pelo poder, e depois o recusar?

- Isto significa que a batalha continua. Isto significa que ele ainda está tentando ser um homem de conhecimento. O indivíduo é derrotado quando não tenta mais e se abandona.

- Mas então, Dom Juan, é possível a um homem se entregar ao medo durante anos, mas no fim vencê-lo.

- Não, isso não é verdade, se ele ceder ao medo, nunca o vencerá, porque se desviará do conhecimento e nunca mais tentará. Mas se procurar aprender durante anos no meio de seu medo, acabará dominando-o, porque nunca se entregou realmente a ele.

- E como um homem poderá vencer seu terceiro inimigo, Don Juan ?

- Também tem de desafiá-lo, propositadamente. Tem de vir a compreender que o poder que parece ter adquirido na verdade nunca é seu. Deve controlar-se em todas as ocasiões, tratando com cuidado e lealdade tudo o que aprendeu. Se conseguir ver que a clareza e o poder, sem controle, são piores do que os erros, ele chegará a um ponto em que tudo estará controlado. Então saberá quando e como usar seu poder. E assim terá derrotado seu terceiro inimigo.

O homem estará então, no fim de sua jornada do saber, e quase sem perceber encontrará seu último inimigo; a velhice! Este inimigo é o mais cruel de todos, o único que ele não conseguirá derrotá-lo completamente, mas apenas afastar. É o momento em que o homem não tem mais receios, não tem mais impaciência de clareza de espírito... um momento em que todo o seu poder está controlado, mas também o momento em que ele sente um desejo irresistível de descansar, se ele ceder completamente a seu desejo de se deitar e esquecer, se ele afundar na fadiga, terá perdido a última batalha, e seu inimigo o reduzirá a uma criatura velha e débil, seu desejo de se retirar dominará toda sua clareza, seu poder e sabedoria. Mas o homem sacode sua fadiga e vive seu destino completamente, então poderá ser chamado de um homem de conhecimento, nem que seja no breve momento em que ele consegue lutar contra seu último inimigo invencível. Esse momento de clareza, poder e conhecimento é o suficiente."



domingo, 13 de setembro de 2009

Carlos Castañeda e O Caminho do Guerreiro

"Para mim, o mundo é assombroso porque é estupendo, assustador, misterioso, insondável; meu interesse é convencer você a tomar ciência de que está aqui, neste mundo maravilhoso, neste deserto maravilhoso, neste tempo maravilhoso. Quero convencer você a aprender a tornar cada ato importante e válido, já que vai ficar aqui por um curto espaço de tempo. Na verdade, curto demais para conhecer todas as maravilhas que nele existem."   (Dom Juan, em trecho extraído de 'Viagem a Ixtlan', de Carlos Castañeda')

"Para mim, o mundo é assombroso porque é estupendo, assustador, misterioso, insondável; meu interesse é convencer você a tomar ciência de que está aqui, neste mundo maravilhoso, neste deserto maravilhoso, neste tempo maravilhoso. Quero convencer você a aprender a tornar cada ato importante e válido, já que vai ficar aqui por um curto espaço de tempo. Na verdade, curto demais para conhecer todas as maravilhas que nele existem." 

(Dom Juan, em trecho extraído de 'Viagem a Ixtlan', de Carlos Castañeda')

O Caminho do Guerreiro 


"Foi no início da década de 60, quando os hippies norte-americanos começavam a colocar flores nos cabelos e o fenômeno da contracultura começava a aclamar a chegada da Era de Aquário. Nessa década, que foi um dos períodos mais marcantes da história contemporânea, surgiu um homemque difundiu idéias até então inconcebíveis pelo sistema social vigente, e que só encontraram espaço para sepropagar graças à ruptura dos padrões sociais - Carlos Castañeda - Certamente, um dos maiores precursores da new age tribe.

A juventude da época não estava interessada em dar continuidadeao velho ideal do "sonho americano", que pregava o "sucesso a qualquer preço" e uma casa confortável com todos aqueles "inutensílios" domésticos. Para muitos, a atmosfera era de inquietação e aversão ao modo capitalista de vida, responsável por guerras como a do Vietnã. A "estranha realidade" indecifrável e impalpável de que Castañeda falava, veio ao encontro da intensa busca pela liberdade total, pelo prazer contínuo, pelos estados alterados de consciência, e pela espiritualidade ligada a culturas antigas. Na verdade, o mundo estava de braços abertos para acolher aqueles que propusessem uma alternativa ao sistema.

O Divisor de Águas

No verão de 1960, o antropólogo Carlos Castañeda, da Universidade da Califórnia, foi a Nogales, no Arizona, colher informações para sua tese de pós-graduação sobre o uso de ervas medicinais e psicotrópicas por tribos mexicanas. Lá, mais precisamente num ponto de ônibus, conheceu um velho índio yaqui pertencente a uma antiga linhagem xamânica do México. O feiticeiro, que se auto intitulava Dom Juan Matus, viu em Castañeda um discípulo, iniciando-o numa jornada assustadora e arrasadora pelos mistérios de outras dimensões.

Pouco se sabe de concreto sobre a história pessoal de Castañeda até aquele encontro, uma vez que ele mesmo engendrou um grande esforço para conseguir apagá-la, a pedido de seu mestre. Alguns lhe atribuem origem peruana, enquanto ele próprio disse que nasceu no Brasil, na cidade de Mairiporã, próxima a São Paulo, no dia de Natal, em 1935.

Ao que parece, a fazenda em que viveu durante a infância era de seu avô, e sua mãe fora uma empregada da casa. Conclusões à parte, o fato é que Castañeda costumava resumir a relação dizendo que foi fruto de um "ato sexual pobre" que, segundo ele, o fez nascer com uma "escassez de energia sexual". Afirmava e escrevia que não queria bem à sua mãe, e que oscilava entre a compaixão e o desprezo por seu pai. Pelo que escreveu em seus livros, foi um rapaz tenaz, rebelde e agressivo, que voltava contra os demais sua própria frustração familiar.

Foi, então, enviado a um orfanato na Argentina e, aos quinze anos, partiu para São Francisco, Califórnia, onde viveu com uma famlia adotiva enquanto completava o bacharelado. Em 1960, casou-se com uma norte-americana, quatorze anos mais velha que ele, mas se divorciou em 73.

Quando conheceu Dom Juan, Castañeda era como qualquer outro típico homem ocidental: escravizado pela opinião alheia, dependente dos outros, egocêntrico e cheio de inseguranças que tentava obscurecer inutilmente, ostentando uma intelectualidade acadêmica que, posteriormente, percebeu não servir para nada. Em seu primeiro encontro com o brujo (curandeiro), Castañeda recebeu um olhar desconcertante, sentindo que todas suas defesas tinham sido desativadas, o que o fez se sentir extremamente frágil. Dom Juan o induziu a questionar suas certezas mais profundas, a tal ponto que diluiu o mundo pessoal de seu aprendiz. Daí viria o porquê de se "apagar a história pessoal", para que o indivíduo se liberte da "prisão da personalidade" e da importância auto-imbuída e possa mergulhar tranqüilamente pelo infinito - o nagual.

Dom Juan dizia que "ser impecável significa pôr sua vida alinhada de modo a apoiar suas decisões, e então fazer muito mais que o seu melhor para realizar estas decisões". Para isso, ensinava Castañeda a se desprender do ego, que faz as pessoas "pseudo-agirem", isto é, viverem em função do reconhecimento social.

O Mescalito e a Erva do Inferno

Castañeda contava que, quem de fato o havia escolhido como discípulo, tinha sido Mescalito, uma entidade que habitava o peiote. Sob a orientação de Dom Juan, Castañeda experimentou extraordinárias alucinações através do consumo do peiote, de cogumelos mágicos e da datura - a figueira-do-inferno. Suas experiências com as plantas psicotrópicas foram relatadas em seu primeiro livro, A Erva do Diabo, que teve repercussão imediata entre a geração,flower power. Os hippies já tinham como referência o papa do LSD, Timothy Leary, e, antes disso, Aldous Huxley, autor de As Portas da Percepção e Admirável Mundo Novo.

Durante esses "transes", Castañeda afirmava que podia se transformar em corvo, lutar contra feiticeiras poderosas, conversar com lagartos, penetrar em outras dimensões, e ser instruído por Mescalito sobre a "maneira adequada de viver". Em seus livros, ele explicava que essas plantas eram utilizadas apenas para quebrar a corrente de interpretações que formam a realidade objetiva; elas promoviam um estado de abstração pura, no qual todas as construções mentais que dão origem ao mundo do dia-a-dia desapareciam.

No entanto, ao contrário do que muitos pensam, Castañeda não fazia apologia do uso dessas "plantas sagradas", que só poderiam ser consumidas com o auxilio de um guia. Em entrevista à revista Veja, em 1986, Castañeda disse que "Dom Juan usou psicotrópicos e plantas alucinógenas como um auxílio aos ensinamentos. Uma vez atingido o objetivo, estes veículos se tornaram desnecessários". Navegar em outras dimensões, ele dizia, pode trazer revelações atemorizantes, cujos efeitos poderiam ser devastadores para a psique humana. Castañeda contou que, em suas primeiras experiências, tinha a certeza de que sem um guia teria perdido o caminho de volta à realidade consensual. Disse ainda que, se uma pessoa interrompe acidentalmente a corrente do bom senso e não consegue refazê-la, torna-se psicótica. O bruxo, explica Castañeda, consegue "viajar" voluntariamente e adquirir novas compreensões sem perder os parâmetros do mundo consensual. A "loucura controlada" é o que permite ao feiticeiro adaptar seus vastos conhecimentos à vida prática, pois todos eles só são válidos se forem pragmáticos, alegava Castañeda.

Castañeda e a Tensegridade

Castañeda adaptou uma série de movimentos corporais dos antigos xamãs mexicanos, à qual deu o nome de Tensegridade. Esses movimentos, realizados durante os transes psíquicos dos xamãs, foram descritos em seu livro Passes Mágicos.

Conta Castañeda que, quando os feiticeiros entravam em estado de profundo transe, começavam a perceber os outros homens como "bolas lurainosas", com um ponto de brilho muito intenso à altura das omoplatas. 
Perceberam que esse era o ponto para o qual a energia universal convergia, penetrando nos seres humanos na forma de informações apropriadas à nossa raça; ali acontecia a interpretação dessa energia, que é então incorporada ao nosso sistema cognitivo.

Por isso, esse ponto foi chamado de "ponto de aglutinação", e essa capacidade de vislumbrar a energia tal como ela flui naturalmente do Universo foi chamada de "visão".

Nesses estados alterados, os xamãs praticavam intuitivamente contínuos movimentos corporais, e percebiam que eles lhes davam um grande bem-estar físico e espiritual.

Assim, quando voltavam de suas vivências, começavam a organizar esses movimentos em séries. Passaram a ensiná-los e ritualizá-los de maneira muito criteriosa e sigilosa, apenas para os iniciados, com o objetivo de expandir a consciência.

Castañeda e suas companheiras - Carol Tiggs, Florinda Donner-Grau e Taisha Abelar - que também foram discípulas de Dom Juan, resolveram sistematizar e mostrar os "passes mágicos" ao mundo, contrariando as recomendações do mestre. Dessa forma, a tensegridade consiste numa série de movimentos, respirações e visualizações que visamao redirecionamento da energia latente no ser humano, de modo a equilibrar as funções do organismo e integrá-lo ao espírito.

Existem, ainda, alguns grupos de praticantes da tensegridade espalhados pelos Estados Unidos, e também outros em cidades brasileiras.

O Tonal e o Nagual

Castañeda definia o tonal como uma espécie de coleção de todas as memórias e informações contidas no consciente, formas de interpretação que têm relação com a cultura. Seria como uma ilha na qual estão presentes todas as coisas que podem ser nomeadas.

Já o nagual seria o oceano indizível existente em torno da ilha, as infinitas possibilidades, uma espécie de silêncio absoluto. Para Castañeda, a cultura ocidental não admite elementos que não se enquadrem no senso comum, na "ilha-tonal". Segundo ele,"a educação formal e informal - ou seja, aquela que é produto daintegração cultural - do homem ocidental não dá margem a nada estranho ou diferente do consenso social. Aquilo que está fora da norma do nosso bom senso é considerado anormalidade".

De tato, as duas realidades de que Castañeda falava não estão separadas uma da outra. Elas se unem para compor a totalidade, embora a maior parte da humanidade só consiga "perceber" a realidade palpável, objetiva e visível. Os xamãs do antigo México, afirmava Castañeda, eram capazes de compreender a causa primária da manifestação universal e sua força motriz - a qual chamavam de Intento. "Dom Juan dizia que quem organiza as idéias que vêm da fonte não é o xamã, mas o Intento. O xamã é, simplesmente, um condutor impecável", disse Castañeda, em entrevista à revista chilena Uno Mismo, em 1997.

O escritor sustentava que, para atingir a impecabilidade do Guerreiro, é necessário abandonar toda importância pessoal, e tornar-se consciente de que o caminho a seguir é solitário e individual; não diz respeito a mais ninguém. Dom Juan costumava dizer a seu aprendiz que "num mundo onde a Morte é a caçadora,não há tempo para arrependimentos ou dúvidas, apenas para decisões".

"Dom Juan me ensinou a viver para o agora", disse Castañeda, "a encarar a minha morte como um fato inevitável e existente em minha vida. O conceito de morte deve ser encarado como uma realidade. Ele me ensinou que, se eu me considerasse como morto, nenhuma das minhas ações teria importância pessoal, e com isso eu poderia mudar; mudanças poderiam ser feitas e tarefas ser cumpridas".

Ele dizia que os homens ocidentais não aprendem a ser responsáveis durante a infância e que, por isso, crescem infantis. Seu maior intuito, que acredita ter alcançado, era o de deixar de ser "criança-profissional" e se tornar "guerreiro-pirata". O guerreiro seria aquele que vive impecavelmente de acordo com aquilo que sente, e é imprevisível porque pode mudar de direção e seguir outro caminho a qualquer momento, se sua intuição assim o quiser. Dom Juan dizia: "Todos os caminhos são iguais. Eles não levam a lugar algum".

Castañeda morreu de câncer hepático, no dia 27 de abril de 98. Sua última obra foi O Lado Ativo do Infinito, publicado após sua morte e que fala, justamente, sobre a morte. Considerado pela revista Time o líder do renascimento espiritual dos EUA, o discípulo de Dom Juan participou de palestras, conferências, seminários e centros de praticantes da tensegridade, juntamente com suas companheiras.

Plagiado pelos diversos falsos gurus da atualidade, Castañeda era um homem simples, que fugia da publicidade, não permitia que o fotografassem ou gravassem suas entrevistas.

Por muitos anos, ele esteve "desaparecido do mapa", vivendo sob falsa identidade, isolado de seus amigos e do público, atitude que foi interpretada por alguns como "estrelismo" e, por outros, como "sabedoria". Desde o seu aprendizado com o feiticeiro Dom Juan até o fim de sua vida, Castañeda empenhou-se em trilhar o único caminho que, para ele, tinha um coração: o caminho do guerreiro.

Tonal e Nagual

Em certos rituais xamânicos (também chamados de Rodas de Cura), um dos círculos, feito de pedras, é cortado por dois eixos, resultando em quatro direções: os pontos-cardeais.

O eixo tonal é o Norte-Sul, que equilibra a sabedoria e a inocência, e o eixo nagual é o Leste-Oeste, que oferece as ferramentas extraordinárias para se funcionar entre a ilusão do corpo e a iluminação do espírito.

O ritual representa a caminhada do ser humano, que se inicia no Leste, onde tudo se encontra em plena Unidade. Segue, então, em direção ao Sul, para se defrontar com as emoções, porque tudo se divide em opostos; depois, para Oeste, afim de aprendera reconciliar e unir os opostos; segue para o Norte, onde encontra sua direção e seu propósito para, finalmente, chegar ao Centro, à Iluminação.

Sendo assim, Castañeda acreditava que a vida é conduzida por um fluxo universal, e que a única coisa que cada um pode fazer é expandir a consciência de tal modo que perceba seu espaço e seu momento. Cada um deve aprender a viver impecavelmente a dança das mudanças."

Fonte: Revista Sexto Sentido, Número 34, Páginas 6-10. - Por Nathalia Leite







Doe para continuarmos nossa obra:

Gostou?
Então contribua com qualquer valor
Use a chave PIX ou o QR Code abaixo
(Stresser Mídias Digitais - CNPJ: 49.755.235/0001-82)

O Sulpost é um veículo de mídia independente e nossas publicações podem ser reproduzidas desde que citando a fonte com o link do site: https://sulpost.blogspot.com/. Sua contribuição é essencial para a continuidade do nosso trabalho.