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segunda-feira, 6 de outubro de 2025

O pecado não existe! Evangelho de Maria Madalena (MM 7,11-28)

Maria Madalena e o Evangelho Esquecido: “O pecado não existe”

Por Ronald Sanson Stresser Junior

Há quase dois mil anos, uma mulher ousou compreender o divino para além das fronteiras da culpa. O nome dela era Maria Madalena, e sua voz ecoa — apesar dos séculos de silenciamento — como um convite ao retorno do ser ao seu próprio centro.

O texto conhecido como Evangelho de Maria Madalena, descoberto em papiros no Alto Egito em 1945, traz uma revelação que desconcerta o mundo cristão ainda hoje: “O pecado não existe.”

Trata-se de um evangelho gnóstico, escrito provavelmente por volta de 150 d.C., em um tempo em que o cristianismo ainda não era poder, mas experiência. Quando o “seguir Jesus” era sinônimo de mergulhar dentro de si, não de obedecer a dogmas.

A mulher que compreendeu o invisível

Madalena não aparece ali como a prostituta arrependida que a tradição forjou, mas como a discípula mais íntima do Mestre — aquela que o compreendeu em profundidade.

É a ela que Jesus, já ressuscitado, confia os segredos da alma. É a ela que os homens — Pedro à frente — questionam:

“Já que tu te fazes intérprete dos elementos e dos acontecimentos do mundo, dize-nos: o que é o pecado no mundo?”

E o Mestre responde, segundo o texto:

“Não há pecado. Sois vós que fazeis existir o pecado, quando agis conforme os hábitos de vossa natureza adúltera.”

O “adúltero” de que fala Jesus não se refere à carne, mas à idolatria — ao ato de adorar o que é ilusório, de absolutizar o relativo e relativizar o Absoluto. O pecado, portanto, não é uma ofensa a Deus, mas um afastamento do centro, um desvio da harmonia original entre o ser humano e o cosmos.

O retorno ao centro

“Eis por que estais doentes e morreis: é a consequência de vossos atos”, continua o texto.

A doença, a morte, o sofrimento — tudo seria, nesse olhar, fruto da desarmonia, da ignorância de nossa natureza divina. Quem caminha em Deus não adoece, porque vive em equilíbrio; quem se afasta do centro, vive dividido — e o diabo, palavra que literalmente significa “aquele que divide”, instala-se na consciência.

Para Maria, voltar às raízes é voltar ao Sagrado. É reunir o fragmentado, é permitir que o Bem — que é o próprio Cristo — una novamente os elementos da nossa natureza dispersa.

“Jesus veio ao nosso meio a fim de nos unir às nossas raízes”, ensina o evangelho. Eis o sentido mais puro da redenção: não o perdão de um crime, mas a lembrança de quem somos.

A coragem do feminino

O Evangelho de Maria Madalena confronta, de modo radical, o institucionalismo patriarcal que viria a dominar a Igreja nascente.

Nele, o feminino é a ponte com o divino. Não o feminino submisso, mas o feminino da intuição, da escuta e da liberdade interior — aquele que reconhece o Mistério sem precisar domesticá-lo.

Talvez por isso Pedro tenha se incomodado. Talvez por isso a história oficial tenha calado sua voz por séculos. Mas nenhuma fogueira foi capaz de queimar essa chama.

A nova compreensão do “pecado”

Quando o Mestre diz “quem puder, compreenda”, ele parece falar conosco — homens e mulheres de um tempo igualmente dividido. O pecado, nesta leitura, não é algo que se faz, mas algo que se esquece: a lembrança de que somos um com o Todo.

O Bem — ou Deus, ou o Amor — não vem de fora para nos punir, mas de dentro para nos curar. Permanecer no centro, como diz o texto, é já viver sem pecado. É deixar que a graça flua sem resistência. É caminhar sem culpa, mas com consciência.

Um evangelho para o novo tempo

Em tempos de intolerância e dogmas travestidos de fé, o Evangelho de Maria Madalena ressurge como uma brisa lúcida no deserto espiritual da humanidade. Ele não destrói a fé — ele a devolve ao coração. E nos recorda de que o verdadeiro templo é a consciência desperta, onde Deus não é medo, mas presença.

Madalena nos convida à reconciliação com nós mesmos. A compreender que o Bem não está em um altar, mas no instante em que cessamos de nos dividir. E, quando isso acontece, o pecado realmente deixa de existir.

“Quem puder, compreenda.” — Evangelho de Maria Madalena, 7, 28

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Oração a Santa Maria Madalena




"Em verdade vos digo que, onde quer que este evangelho for pregado em todo o mundo, também será referido o que ela fez, para memória sua." (Mt. 26:13)


Pecadora e provavelmente ex-prostituta. Santa Maria Madalena foi purificada por Cristo. Como prova de seu amor, começou a seguir os passos de Jesus, sendo testemunha de todas as fases de Sua vida adulta. A partir daí tornou-se amiga e confidente do Salvador e sua missão era prestar serviço Àquele que a salvara. Maria Madalena acompanhou Cristo até o Calvário e ficou aos Seus pés na cruz, no momento da crucificação.

Maria Madalena é a prova da bondade de Jesus Cristo, do seu amor e compaixão por todos os filhos de Deus. Ela que sofreu a repressão de uma sociedade hipócrita, foi salva pelas mãos do Messias e passou a dedicar a sua existência às vontades Divinas, sendo também a primeira a ver Jesus depois de sua ressurreição, segundo a Bíblia (Jo. 20, 1-18).

Depois de Jesus Cristo ter ressuscitado e ascendido aos céus, Maria Madalena passou o resto de sua vida em penitência e oração, mal se alimentando.  A “Apostola dos Apóstolos”, migrou então à Europa, com outros discípulos, tendo desembarcado em Marselha, e seguido para Burgundy. 

Viveu até o final de sua vida numa gruta em Sainte Baume, França. Como não se nutria os anjos vinham permanentemente em seu auxílio. Maria Madalena foi assistida na hora de sua morte por Maximinus, um bispo que lhe deu a extrema unção e a enterrou. Quando faleceu, sua alma foi levada para o céu por um cortejo de Anjos, quando ela então se encontrou-se novamente com Jesus.

Ela é a padroeira dos pecadores arrependidos, dos convertidos, das mulheres, das pessoas ridicularizadas por sua piedade, dos boticários, dos cabeleireiros, dos curtumeiros, dos fabricantes de perfumes, dos farmacêuticos, dos fabricantes de luvas,  da vida contemplativa, das mães solteiras e contra a tentação sexual. Maria Madalena  tornou-se igualmente a padroeira de várias Ordens religiosas, sendo venerada pelos Padres Predicadres.

Oração

“Santa Maria Madalena, o Deus Todo Poderoso, cujo Filho vos purificou de corpo e alma, fostes chamada para ser testemunha da Sua ressurreição. Misericordiosamente vos foi concedida a graça de serdes purificada de todas as enfermidades físicas e morais. Fazei com que também eu, pobre pecador, conheça o poder da vida infinita. 

Trazei até mim a bênção do Espírito Santo que vive e reina, o poder do Deus único e de Seu Filho Jesus Cristo. Agora, e para sempre. 

Amém!”

Para fortalecer sua fé

"Luminosa, a aurora desperta e o triunfo de Cristo anuncia.
Tu, porém, amorosa, procuras ver e ungir o seu Corpo, ó Maria.
Quando O buscas, correndo ansiosa, vês o anjo envolvido em luz forte; ele diz que o Senhor está vivo e quebrou as cadeias da morte.
Mas o amor tão intenso prepara para ti recompensa maior: crês falar com algum jardineiro, quando escutas a voz do Senhor. 

Estiveste de pé junto à cruz, com a Virgem das Dores unida; testemunha e primeira enviada és agora do Mestre da vida.
Bela flor de Magdala, ferida pelo amor da divina verdade, faze arder o fiel coração com o fogo de tal caridade.
Dai-nos, Cristo, imitarmos Maria em amor tão intenso, também, para um dia nos céus entoarmos Vossa glória nos séculos. 

Amém!"

À Maria Madalena para obter o perdão e a amizade de Cristo

"Santa Maria Madalena, vós que ouvistes da boca de Jesus estas palavras: “Muito lhe foi perdoado porque muito amou… vai em paz, os teus pecados estão perdoados”, alcançai-me de Deus o perdão dos meus erros e pecados, deixai-me participar do ardente amor que inflamou o vosso coração, para que eu seja capaz de seguir a Cristo até o Calvário, se for preciso e assim, mais cedo ou mais tarde, tenha a felicidade de abraçar e beijar os pés do divino Mestre.

Como Jesus ressuscitado vos chamou pelo nome: “Maria”, que ele chame também pelo meu nome… e eu nunca mais me desviarei do seu amor, com recaídas nos erros do meu passado.

Santa Maria Madalena, eu vos peço esta graça, por Cristo Nosso Senhor. 

Amém!"

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Origens Apócrifas do Cristianismo



Por Gilberto Schroeder

O sacerdote franciscano Jacir de Freitas Faria, mestre em exegese bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, realizou um estudo profundo das origens do cristianismo a partir do legado dos evangelhos apócrifos.

O livro das Origens Apócrifas do Cristianismo, do Frei Jacir de Freitas Faria, OFM (Ordem dos Frades Menores), é o volume 16 da série Teologias Bíblicas (Paulinas), que tem como objetivo aprofundar os estudos sobre as grandes correntes teológicas existentes no Primeiro e Segundo Testamentos. Ou, como explica Frei Jacir, “como o povo da Bíblia foi percebendo a revelação histórica de Deus na sua caminhada”.

Jacir diz que se “impôs” a nobre tarefa de estudar as origens do cristianismo que os evangelhos apócrifos nos legaram, porque é importante “olhar para trás”. O estudioso explica que “em nossos dias, cresce cada vez mais o desejo de redescobrir valores perdidos ou deixados de lado pela tradição cristã. Olhar par trás não significa cumprir a sina da mulher de Ló’, isto é, tornar-se uma estátua de sal. Olhar para trás significa deixar-se salgar pelo sal das primeiras comunidades, purificar-se de conceitos historicamente consagrados, sobretudo em relação à atuação das mulheres da primeira hora do cristianismo”.

Conversamos com Frei Jacir para saber mais respeito de seus estudos e outros temas relacionados aos evangelhos apócrifos.

O que são, exatamente, os textos apócrifos do cristianismo? Como considerar textos como o de O Livro de Enoch e O Livro de Noé, citados por alguns autores como sendo apócrifos? Eles estariam entre os apócrifos do que você chamou de Primeiro Testamento, ou Antigo Testamento?
Quando alguém usa o substantivo apócrifo, logo pensa em algo falso, recheado de mentiras. Na linguagem bíblica, apócrifo passou a significar texto não canônico (oficial) e, por conseguinte, não inspirado. Temos apócrifos do Primeiro e do Segundo Testamentos. Não considerando os inúmeros fragmentos de textos, podemos falar de 52 livros do Primeiro Testamento e 60 do Segundo. Esta classificação é também discutida.

A tradição protestante se encarregou de chamar os apócrifos também de pseudepígrafos, isto é, falsos escritos atribuídos à pessoa de notável autoridade na tradição, como Adão, Henoc, Moisés, etc. Os apócrifos, segundo a tradição protestante, são os livros excluídos da lista dos livros inspirados dos judeus, sendo que os cristãos os incluíram no cânon grego do Primeiro Testamento. A tradição católica, por sua vez, chamou estes livros de deuterocanônicos. São eles: Tobias, Judite, Sabedoria, 1 e 2 Macabeus, Eclesiástico e Baruc. Assim, os pseudepígrafos, oriundos do judaísmo e de uso restrito em determinados grupos, são os apócrifos para os católicos.

Creio que melhor seria não usar a terminologia pseudepígrafo, pois este substantivo tem uma conotação pejorativa. Na Bíblia canônica, também temos textos com teor de pseudepígrafo, isto é, o texto foi atribuído a um autor, mas não é de sua autoria. Cânticos dos Cânticos, O Livro de Enoch, assim como Livro dos Jubileus; Vida de Adão e Eva; I Henoque; II Henoque; Apocalipse de Abraão; Testamento de Abraão; Testamento de Jacó, etc, são considerados livros apócrifos do Segundo Testamento. Na lista dos livros apócrifos do Segundo Testamento, temos, por exemplo, evangelho de Maria Madalena, Tomé, Pedro etc, sejam eles de origem gnóstica ou não.

Em seu livro As Origens Apócrifas do Cristianismo, você diz que é preciso olhar para trás e estudar as origens do cristiuanismo, especialmente por meio dos evangelhos apócrifos. Essa é uma postura comum no cristianismo? É comum associarmos a palavra apócrifo a algo “proibido” ou “não verdadeiro”, especialmente quando citado por fontes católicas. Um exemplo clássico disso é o próprio Livro de Enoch, que também quase sempre é citado por pesquisadores que se referem à atuação de seres extraterrestre no passado longínquo da humanidade.
Quando eu defendo os apócrifos do Segundo Testamento, quero dizer que eles são importantes para resgate das origens do cristianismo. Sei que esta não é uma postura comum no meio cristão, seja ele católico ou não. Os apócrifos do Segundo Testamento, muitos deles preciosidades que não entraram no Cânon, podem e devem ser considerados também como voz alternativa de grupos heréticos, aqueles que pensavam diferente. Isto é a definição de “herético”.

É nom ser herético. Mesmo que neles não contenham verdades absolutas, mesmo que eles questionem, desinstalem a opinião sedimentada, vale a pena redescobri-los e lê-los de modo crítico e ecumênico. Jesus, Pedro, Madalena e os apóstolos, visto sob a ótica desses escritos, ganham uma nova feição, não menos importante que aquela que é objeto de nossa fé. Sabendo que a segunda é superior à primeira.

Com a minha pesquisa, quero convocar as pessoas a tomar consciência que nos apócrifos há exageros, mas não só isto. Deixemos de lado o que simplesmente é aberração nos apócrifos e tenhamos a coragem de dialogar com eles. A nossa tradição de fé que se perpetuou na oralidade, bem como em muitos dogmas, tem também fundamento nos livros apócrifos. A relação homem e mulher, tão debatida em nossos dias, encontra luzes no evangelho luzes no evangelho de Maria Madalena. Este o tema que discuto e aprofundo no meu próximo livro sobre os apócrifos, que está para ser lançado no próximo mês de março (2005). Ele leva o título de o Outro Pedro e a Outra Madalena Segundo os Apócrifos: Uma Leitura de Gênero, e está sendo publicado pela Editora Vozes.

Fala-se, também, que em alguns textos apócrifos – ou em um texto especifico, possivelmente entre os apócrifos encontrados em Nag Hammadi – é dito que Jesus Cristo pretendeu formar uma igreja – entendida como uma entidade, uma organização. Diz-se, ainda, que esse texto não é divulgação porque não é do interesse da Igreja Católica que esse conhecimento se torne público. Isso existe de fato? E sobre os rumores – ou boatos – de que existe um texto que pode ser atribuído ao próprio Cristo?
Os relatos sobre Jesus são uma ínfima parte daquilo que Jesus fez ou disse. A escolha dos fatos a serem escritos está relacionada com a experiência da comunidade que os escreve, após tê-lo guardado na memória.


Jesus nunca escreveu nada sobre ele. Nunca saberemos, de fato, toda a sua história, mas interpretações dela. Creio que distinguir a fala do Jesus histórico do da fé é tarefa não muito fácil. O que era dado de fé virou dado histórico e vice-versa. Estudos exegéticos e históricos mais recentes estimam que somente 18% das palavras atribuídas a Jesus nos evangelhos foram efetivamente pronunciadas por ele. Os evangelhos canônicos, pela sua beleza literária histórica e incontestável inspiração, continuam como obras fidedignas de nossa fé em Jesus, mas urge considerar os apócrifos.

A fundação da Igreja como instituição foi uma decorrência lógica da pregação, vida, morte e ressurreição de Jesus. Quem nele acreditou nos legou esta fé. Agora, dizer que Jesus, como nos tempos modernos, tinha como objetivo fundar uma Igreja é um exagero.

Sobre a definição de textos apócrifos, diz-se também que um texto apócrifo pode ser um texto falso ou falsificado no conteúdo ou titulo. O que isso significa, exatamente? Como definir se um texto é falso?
É difícil distinguir. Antigamente, acreditava-se que os textos sagrados eram ditados do alto. Hoje, não mais podemos acreditar nisto. Os apócrifos forma importantes, mas eles jamais poderão substituir a Bíblia. No entanto, com o avanço das ciências, não se permoite mais um estudo apenas piedoso dos textos sagrados. Não que todo estudo bíblico seja sempre piedoso, mar urge estudar, dialogar de forma responsável também com a literatura apócrifa, não somente com a canônica.

É verdade que os primeiro cristãos e seus sucessores, usando do bom senso, souberam selecionar os testemunhos escritos sobre a vida de Jesus e de seus seguidores. Um livro que não era usado por muitas comunidades tinha menos valor do que aquele que era amplamente conhecido. E também é claro que a seleção dos livros para entrar na Bíblia obedeceu a critérios de inspiração. Por outro lado, também não deixaram de entrar em jogo os interesses das lideranças cristãs e judaicas. Não exageramos quando afirmamos que os apóstolos, humanos como nós, disputaram o poder de mando na comunidade. E, nessa batalha, as mulheres foram deixadas de laldo. Embora muitas delas tenham feito valer a sua opinião, elas forma desprezadas. Até o século II da era Comum (E.C.), entre grupos de cristãos gnósticos, as mulheres exerciam mistérios de direção nas comunidades (mestras, sacerdotisas); depois disso, era considerado herege que se concedesse poder às mulheres.

Existem apócrifos que cobrem a fase da vida de Jesus da qual sempre diz que pouco ou nada se sabe? Em caso positivo, quais são esses textos e o que eles dizem de importante?
A infância de Jesus, que os evangelhos canônicos não mencionam, está presente nos apócrifos com narrativas que falam das façanhas pueris. São histórias incríveis de um menino que mata, pune, brinca, ressuscita. Histórias desse menino prodígio estão presentes em evangelhos como Pseudo-Tomé; Evangelho arménio da infância; Evangelho da Infância do Salvador; Evangelho do Pseudo-Mateus; Evangelho árabe da infância, etc. A piedade popular não suportou essas histórias. O evangelho História de José, o Carpinteiro fala que Jesus tinha 18 quando José morreu. Jesus encomendou o corpo de seu velho adotivo. José morreu com 111 anos de idade, segundo a tradição apócrifa.

Quanto ao Evangelho de Maria Madalena, sobre o qual sua pesque se aprofunda, que novas informações importantes ele apresenta? Existem referências ao amor (físico) entre Jesus e Maria Madalena? Qual seria o verdadeiro papel e importância de Maria Madalena para cristianismo?
A tradição apócrifa gnóstica conservou, para a relação entre Maria Madalena e Jesus, conceitos, no mínimo, controvertidos. A comunidade de Felipe assim descreve: “Eram três que acompanhavam sempre o Senhor: sua mãe Maria, a irmã dela, e Madalena, que é chamada de sua companheira. Com efeito, era “Maria” sua irmã, sua mãe e consorte”.

O entendimento desse texto diverge entre os tradutores. Alguns entendem que Maria era o nome da irmã de Maria, a mãe de Jesus. Outros dizem que Maria era também o nome de uma irmã de Jesus, tradição anotada por Epifânio. Também os apócrifos sobre Maria afirmam que Maria, a mãe de Jesus, teve uma outra irmã, de nome Maria, que se tornou a esposa de Cleofas, informação também anotada em Jó 19, 25. Na verdade, três Marias são importantes na vida de Jesus: a sua mãe, sua irmã e sua companheira. O último apelativo se refere a Maria Madalena. No evangelho de Maria Madalena, Pedro reconhece que Jesus amava Madalena diferentemente das outras mulheres (página 10, 1-3). Ele pergunta apavorado: “Será que Ele verdadeiramente a escolheu e a preferiu a nós?” (página 17,20). Levi, na defesa de Madalena, e reconhecendo que ela era a amada do Senhor, dá puxão de orelha em Pedro, quando lhe diz: “Pedro, tu sempre um irascível. Vejo-te agora te encarniçar contra a mulher, como o fazem nossos adversários. Pois bem! Se o mestre tornou-a digna, quem és tu para rejeitá-la? Seguramente, o mestre a conhece muito bem... Ele a amou mais que a nós”. No Evangelho de Felipe, uma outra informação surpreende os ouvidos menos avisados: “A companheira de Cristo é Maria Madalena. O Senhor amava Maria Madalena mais que todos os discípulos, e a beijava na boca repetida vezes. Os discípulos lhe disseram: ‘Por que a amas mais que a nós?’ O Salvador respondeu dizendo: ‘Como é possível que eu não vos ame tanto quanto a ela?’” (página 63,34-64,5).

O apócrifo Perguntas de Maria e outros escritos da época revelam que certos gnósticos admitiam que Madalena era amante, parceira sexual ou esposa carnal de Jesus. Opinião considerada exagerada, a qual vem contestada em Pistis Sophia. Esses textos nos colocam, inevitavelmente, na discussão em torno à relação matrimonial: entre Jesus e Madalena. A discussão sobre essa temática tem alargado nos últimos decênios. Muitas hipóteses tem sido levantadas. O que dizer de tudo isso? Com certeza, a duvida vai permanecer para sempre. Dos evangelhos canônicos decorre que Jesus estava muito próximo das mulheres, desprezadas pelas correntes machistas da sociedade judaica. Jesus foi humano com elas, mostrou paixão para com Marta e Maria, libertou Madalena da possessão, etc.

Dos evangelhos apócrifos, descortina um Jesus que não só está próximo das mulheres, mas as ama com sua sexualidade, não necessariamente genital. Para os gnósticos, a união entre o masculino e o feminino era vista numa esfera espiritual de superação da divisão corpórea. Jesus e Madalena eram vistos como exemplo dessa integração. O beijo entre eles, a expressão desse desejo espiritual. Por isso, se diz que o beijo comunicava o saber. Um se transformava no outro, Madalena podia transmitir os ensinamentos do Mestre/Amado.

Esse modo de explicar o fato do beijo não tem o objetivo de suavizar a nossa visão “puritana” e “negativa” do corpo e dizer que o beijo entre eles era simbólico. Outras explicações são possíveis. O que devemos compreender é que, nos apócrifos, Jesus é visto como um homem que ama uma mulher, como todos os homens do seu tempo. Onde está o erro nisso? Jamais Jesus teria proibido essa relação humana e divina. Poderia até ter dito que alguns, para se dedicarem de forma integral ao Reino, optam pela vida sem relação sexual. Não duvido que isso seja possível. Por outro lado, não podemos negar o corpo. A sexualidade está em todos nós. O Eros precisa ser despertado sempre em nossas relações. Jesus soube fazer isso. Não necessariamente de forma genital.

Assim, acredito no amor entre Jesus e Madalena. Um amor que integra tudo em todos: um amor sublime e humano. O papel de Madalena, a amada de Jesus, e não a prostituta, como quiseram muitos, é o de devolver a dignidade á mulher. Madalena é mulher paixão, ternura e vigor.

Fonte: Revista Sexto Sentido nº 51, páginas 8-13. "As Origens Apócrifas do Cristianismo" - Jacir de Freitas Faria – Ed. Paulinas

"Não minha, Senhor. Não é minha, mas sim TODA TUA a Glória"

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