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quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Irmão X: 'Dedicatória' - do livro 'Cartas e Crônicas' (Chico Xavier)

"Num belo apólogo, conta Rabindranath Tagore que um lavrador, a caminho de casa, com a colheita do dia, notou que, em sentido contrário, vinha suntuosa carruagem, revestida de estrelas. Contemplando-a, fascinado, viu-a estacar, junto dele, e, semiestarrecido, reconheceu a presença do Senhor do Mundo, que saiu dela e estendeu-lhe a mão a pedir-lhe esmolas…  — O quê? — refletiu, espantado — o Senhor da Vida a rogar-me auxílio, a mim, que nunca passei de mísero escravo, na aspereza do solo?  Conquanto excitado e mudo, mergulhou a mão no alforje de trigo que trazia e entregou ao Divino Pedinte apenas um grão da preciosa carga.  O Senhor agradeceu e partiu.  Quando, porém, o pobre homem do campo tornou a si do próprio assombro, observou que doce claridade, vinha do alforje poeirento…  O grânulo de trigo, do qual fizera sua dádiva, tornara à sacola, transformado em pepita de ouro luminescente…  Deslumbrado, gritou:  — Louco que fui!… Porque não dei tudo o que tenho ao Soberano da Vida?  Na atualidade da Terra, quando o materialismo compromete edificações veneráveis da fé, no caminho dos homens, sabemos que o Cristo pede cooperação para a sementeira do Evangelho Redivivo que a Doutrina Espírita veicula. E, entregando este livro humilde à circulação das ideias renovadoras — trabalho despretensioso que não chega a valer um grão de trigo da verdade —, imagino nestas cartas e crônicas, que passo às mãos do leitor amigo, um punhado de acendalhas para o lume da Nova Revelação, e repito, reverente, ante a bondade do Eterno Amigo:  — Ah! Senhor!… Compreendo a significação de teus apelos e a grandeza de tua munificência, mas perdoa ao pequenino servo que sou, se nada mais tenho de mim para te dar!…" - Chico Xavier e Humberto de Campos
Crédito da Imagem: Thiago Campos - Legendas: Ronald Sanson

 

"Num belo apólogo, conta Rabindranath Tagore que um lavrador, a caminho de casa, com a colheita do dia, notou que, em sentido contrário, vinha suntuosa carruagem, revestida de estrelas. Contemplando-a, fascinado, viu-a estacar, junto dele, e, semiestarrecido, reconheceu a presença do Senhor do Mundo, que saiu dela e estendeu-lhe a mão a pedir-lhe esmolas…

— O quê? — refletiu, espantado — o Senhor da Vida a rogar-me auxílio, a mim, que nunca passei de mísero escravo, na aspereza do solo?

Conquanto excitado e mudo, mergulhou a mão no alforje de trigo que trazia e entregou ao Divino Pedinte apenas um grão da preciosa carga.

O Senhor agradeceu e partiu.

Quando, porém, o pobre homem do campo tornou a si do próprio assombro, observou que doce claridade, vinha do alforje poeirento…

O grânulo de trigo, do qual fizera sua dádiva, tornara à sacola, transformado em pepita de ouro luminescente…

Deslumbrado, gritou:

— Louco que fui!… Porque não dei tudo o que tenho ao Soberano da Vida?

Na atualidade da Terra, quando o materialismo compromete edificações veneráveis da fé, no caminho dos homens, sabemos que o Cristo pede cooperação para a sementeira do Evangelho Redivivo que a Doutrina Espírita veicula. E, entregando este livro humilde à circulação das ideias renovadoras — trabalho despretensioso que não chega a valer um grão de trigo da verdade —, imagino nestas cartas e crônicas, que passo às mãos do leitor amigo, um punhado de acendalhas para o lume da Nova Revelação, e repito, reverente, ante a bondade do Eterno Amigo:

— Ah! Senhor!… Compreendo a significação de teus apelos e a grandeza de tua munificência, mas perdoa ao pequenino servo que sou, se nada mais tenho de mim para te dar!…"

 

Chico Xavier e Humberto de Campos
Uberaba, 18 de Abril de 1966
Prefácio do livro 'Cartas e Crônicas'




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

'O Anjo da Saúde', pelo Espírito Irmão X (Humberto de Campos)

 Capítulo 45 do livro "Lázaro Redivivo" - Conto Espírita do Irmão X, psicografado por Chico Xavier



"Angustiado, o Homem enfermo invocou a Proteção do Cristo e clamou em lágrimas copiosas: 

— Senhor, ampara-me o coração desalentado no círculo das provas! Esgotaram-se-me os recursos para a resistência… Não posso mais! Minhas noites são prolongadas vigílias, repletas de dor, e meus dias constituem longas horas de aflição permanente! A dor lacera-me as carnes e desarticula-me os ossos… Compadece-te, Senhor meu! Desce um raio de tua divina luz que me restaure a força física e me reerga o coração humilhado! Desiludido de todos os processos de cura, mobilizados na Terra, volto-me para o Céu, esperando-te a inesgotável misericórdia! Ajuda-me, Pastor do Bem! Vê os meus sofrimentos e auxilia-me!…

De joelhos e braços abertos, o peregrino soluçava, contemplando o firmamento.

Ouviu Jesus a oração e enviou-lhe o Anjo da Saúde, que desceu, bondoso e prestativo, surgindo aos olhos deslumbrados do infeliz enfermo.

Em êxtase, ó doente fitou o mensageiro e suplicou:

— Emissário do Médico Divino, lava-me as feridas dolorosas, levanta-me o espírito abatido! Há muitos anos sou um miserável sofredor, embora a minha confiança no Pai de Infinita Bondade! De corpo chagado e apodrecido, sinto que a esperança e a crença desertaram de minhalma! Socorre-me, por piedade, caridoso emissário do Céu!

O gênio tutelar afagou-lhe a fronte, compassivo, e exclamou:

— Meu amigo, põe a consciência nos lábios em oração e responde-me! Tens vívido de acordo com a Vontade de Deus, fugindo aos caprichos do coração? Viveste, até agora, amando o Senhor Supremo, acima de todas as coisas, e querendo ao próximo como a ti mesmo? Dedicaste teu corpo e tuas faculdades à execução das divinas leis?

Presa do antigo hábito de fugir à verdade, o Homem quis proferir qualquer frase tendente a desculpar-se; entretanto, a presença do emissário sublime empolgava-lhe o ser e não conseguia furtar-se ao império absoluto da consciência. Dominado pela realidade, respondeu em soluços:

— Não!… ainda não servi às leis do Senhor como deveria… Contudo, Anjo Bom, compadece-te de mim, a enfermidade consome os meus dias, o sofrimento devora-me!

O enviado pousou a destra na fronte do mísero, como se intentasse arrancar-lhe a verdade do fundo do coração, e interrogou:

— Estarás, porém, disposto a esquecer, de imediato, o pretérito criminoso? Desculparás, fraternalmente, sem qualquer sombra de hesitação, a todos aqueles que te desejam o mal? Auxiliarás o inimigo?

O enfermo dirigiu ao preposto celeste um olhar de terrível angústia, e porque nada respondesse, o mensageiro continuou interrogando:

— Perdoarás sempre, esquecendo ingratidões, injúrias e pedradas? Recomendarás os teus adversários à bênção do Todo-Poderoso, reconhecendo que eles são mais infelizes que tu mesmo, pela ignorância que testemunham? Exercerás a piedade, beneficiando as mãos que te ferem e olvidarás, sem esforço, a boca que calunia?

Compelido pelas forças insofreáveis da consciência, o enfermo respondeu, sem trair a verdade:

— Infelizmente, ainda não posso…

— Não emitirás pensamentos desarmônicos, ante a felicidade do próximo? — indagou o emissário, afável e benevolente. — Partilharás a alegria do vizinho e a prosperidade do amigo, como se te pertencessem também? Ajudarás ao irmão mais feliz, na consolidação da ventura que lhe coroa a existência?

O mendigo da saúde recordou suas lutas interiores, junto daqueles que lhe pareciam mais venturosos, e respondeu, sincero:

— Não posso ainda…

— Terás bastante disposição — prosseguiu afetuosamente o interlocutor — para manter viva a própria esperança? Compreendendo a paciência de Deus, que nos aguarda a iluminação há milênios incontáveis, decidir-te-ás a esperar, sem revolta, o entendimento dos teus irmãos de luta, por alguns anos? Saberás calar a desesperação, a fim de auxiliar em nome do Pai Altíssimo, mobilizando as forças que te foram confiadas?

O desventurado suspirou e disse com tristeza:

— Ainda não me é possível proceder assim…

Após intervalo mais longo, o Anjo voltou a interrogar:

 — Cultivarás o silêncio, quando a leviandade e a calúnia espalharem palavras loucas em torno de teu coração? Defenderás a saúde, evitando as reações invisíveis de pessoas que poderias ofender com as falsas e delituosas apreciações verbais?

— Ainda não sigo semelhante caminho! — exclamou o infortunado.

— Poderás viver — continuava o mensageiro — no legítimo respeito à Natureza, conservando o teu vaso carnal de manifestações na sublime posição de equilíbrio, através da temperança, e cumprindo com fidelidade o programa de serviço, em benefício de ti mesmo e dos semelhantes? Experimentas o prazer de ser útil, sinceramente despreocupado das atitudes alheias de gratidão ou recompensa?

— Ainda não! — murmurou o interpelado em tom angustioso.

O emissário envolveu o infeliz num olhar de compaixão infinita e acrescentou:

— Oh! meu amigo, ainda é cedo para deprecares o socorro dos mensageiros da saúde! Se ainda não sabes viver, perdoar, esperar, compreender, ajudar e servir, de acordo com a Vontade do Altíssimo, ainda lutarás com a enfermidade, por muito tempo. Por enquanto, não peças vantagens que não saberias receber! Roga ao Senhor te conceda a energia necessária para que te afeiçoes à lei do equilíbrio e às exigências da reflexão!

Em seguida, o emissário endereçou-lhe carinhoso gesto de adeus. O infeliz, entretanto, buscando retê-lo, exclamou em soluços:

— Oh! enviado do Céu, confiarei em Jesus! O Anjo contemplou-o, bondoso, e respondeu ternamente:

— Sim, eu sei. Isto, porém, não basta. É necessário que Jesus também possa confiar em ti…

E afastou-se, para dar conta de sua missão, nas Esferas mais altas."


Chico Xavier e Irmão X (Humberto de Campos)


Fonte: trecho do livro "Lázaro Redivivo" - Conto Espírita do Irmão X, psicografado por Francisco Cândido Xavier - citação parcial para estudo - Imagem: Wellcome Collection gallery (22-03-2018) pintura a óleo de um artista italiano (c. 1720) reprodução de obra de arte sob licença CC-BY-4.0

Recomendado: 'Qualidades da Prece', em 'O Evangelho segundo o Espiritismo'





quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Irmão X: 'Ano Novo'


"1. Quando o desvelado orientador chegou ao Planeta, encaminhando o aprendiz à experiência nova¹, o lar estava em festa, na celebração do Ano Novo.

2. Músicas alegres embalavam a casa, flores festivas enfeitavam a mesa lauta. Riam-se os jovens e as crianças, enquanto os velhos bebiam vinhos de júbilo.

3. O devotado amigo abraçou o tutelado e falou:

— Nova existência, meu filho, é qual Ano Novo. Enche-se o coração das esperanças mais belas. Troca-se o passado pelo presente. Rejubila-se a alma na oportunidade bendita. Promessas divinas florescem no coração.

4. O tempo é o tesouro infinito que o Criador concede às criaturas. Não esqueças, todavia, que a concessão de um tesouro é título de confiança e toda confiança traduz responsabilidade. Tanto prejudica a obra de Deus o avarento que restringe a circulação dos valores, como o perdulário que os dissipa, olvidando obrigações sagradas.

5. O tempo, desse modo, é benfeitor carinhoso e credor imparcial simultaneamente. Na Terra, a maioria dos homens não chegou ainda a compreendê-lo.

6. Os ignorantes perdem-no.

7. Os loucos matam-no.

8. Os maus envenenam-no.

9. Os indiferentes zombam dele.

10. Os vaidosos confundem-no.

11. Os velhacos enganam-no.

12. Os criminosos perturbam-no.

13. Riem-se dele os pândegos.

14. Os mentirosos ridicularizam-no.

15. Os tolos esquecem-no.

16. Os ociosos combatem-no.

17. Os tiranos abusam dele.

18. Os irônicos menosprezam-no.

19. Os arbitrários dominam-no.

20. Os revoltados acusam-no.

21. Aproveitam-no os trabalhadores fiéis.

22. O tempo, contudo, meu filho, pertence ao Senhor e ninguém pode subverter a ordem de Deus.

23. É por isso que, ao fim da existência, cada um recebe conforme usou o divino patrimônio.

24. Vale-te, pois, da oportunidade nova, sem olvidares o dever, convicto de que ninguém falará ou agirá no mundo, em vão.

25. O homem precipita-se. O tempo espera. O primeiro experimenta. O segundo determina.

26. Se atingiste a alegria de recomeçar, alcançarás, igualmente, o dia de acertar.

27. Lembra-te de que o tempo ensinará aos ignorantes.

28. Anulará os loucos.

29. Envenenará os maus.

30. Zombará dos indiferentes.

31. Confundirá os vaidosos.

32. Esclarecerá os velhacos.

33. Perturbará os criminosos.

34. Surpreenderá os pândegos.

35. Ridiculizará os mentirosos.

36. Corrigirá os tolos.

37. Combaterá os ociosos.

38. Ferirá os tiranos.

39. Menosprezará os irônicos.

40. Prenderá os arbitrários.

41. Acusará os revoltados.

42. Compensará os trabalhadores fiéis.

43. Calou-se o venerável ancião.

44. Havia risos à mesa doméstica, expectativa no candidato à reencarnação, sorrisos paternais no velhinho experiente.

45. O sábio abraçou novamente o discípulo e despediu-se rematando:

— Não te esqueças de que o tempo é generoso nas concessões e justo nas contas. Vai, porém, meu filho, e não temas.

46. Nesse instante, à maneira do homem, cheio de esperanças, que penetra o Ano Novo, o aprendiz reingressou na onda do nascimento."


Chico Xavier e Irmão X (Humberto de Campos), em "Pontos e Contos"


1- Nota: veja 'Da Reencarnação', em 'O Livro dos Espíritos'


Fonte: mensagem de Ano Novo do livro "Pontos e Contos", ditada pelo Espírito Irmão X e psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier. Transcrição do Capítulo 50 da obra mediúnica, com numeração de versículos para melhor estudo das palavras do texto, compreensão e compartilhamento dos ensinamentos do Espírito de Humberto de Campos, o Irmão X - Imagem: teknikel/pxhere (CC0)  com a frase do texto do meu caro amigo espiritual Humberto de Campos, o Irmão X. Ao reproduzir conteúdo deste blog, cite a origem, estará nos ajudando...


quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Humberto de Campos: 'A Última Ceia'

Afresco 'Última Ceia', de Leonardo da Vinci, na igreja de Santa Maria delle Grazie em Milão, Itália


Boa Nova - Irmão X

"1. Reunidos os discípulos em companhia de Jesus, no primeiro dia das festas da Páscoa, como de outras vezes, o Mestre partiu o pão com a costumeira ternura. Seu olhar, contudo, embora sem trair a serenidade de todos os momentos, apresentava misterioso fulgor, como se sua alma, naquele instante, vibrasse ainda mais com os altos Planos do invisível.

Os companheiros comentavam com simplicidade e alegria os sentimentos do povo, enquanto o Mestre meditava, silencioso.

2. Em dado instante, tendo-se feito longa pausa entre os amigos palradores, o Messias acentuou com firmeza impressionante:

— Amados: é chegada a hora em que se cumprirá a profecia da Escritura. Humilhado e ferido, terei de ensinar em Jerusalém a necessidade do sacrifício próprio, para que não triunfe apenas uma espécie de vitória, tão passageira quanto as edificações do egoísmo ou do orgulho humanos. Os homens têm aplaudido, em todos os tempos, as tribunas douradas, as marchas retumbantes dos exércitos que se glorificaram com despojos sangrentos, os grandes ambiciosos que dominaram à força o espírito inquieto das multidões; entretanto, eu vim de meu Pai para ensinar como triunfam os que tombam no mundo, cumprindo um sagrado dever de amor, como mensageiros de um mundo melhor, onde reinam o bem e a verdade. Minha vitória é a dos que sabem ser derrotados entre os homens, para triunfarem com Deus, na divina construção de suas obras, imolando-se, com alegria, para glória de uma vida maior.

3. Ante a resolução expressa naquelas palavras firmes, os companheiros se entreolharam, ansiosos.

O Messias continuou:

— Não vos perturbeis com as minhas afirmativas, porque, em verdade, um de vós outros me há de trair!… As mãos, que eu acariciei, voltam-se agora contra mim. Todavia, minhalma está pronta para execução dos desígnios de meu Pai.

4. A pequena assembleia fez-se lívida. Com exceção de Judas, que entabulara negociações particulares com os doutores do Templo, faltando apenas o ato do beijo, a fim de consumar-se a sua defecção, ninguém poderia contar com as palavras amargas do Messias. Penosa sensação de mal-estar se estabelecera entre todos. O filho de Iscariotes fazia o possível por dissimular as suas dolorosas impressões, quando os companheiros se dirigiam ao Cristo com perguntas angustiadas:

— Quem será o traidor? — disse Filipe, com estranho brilho nos olhos.

— Serei eu? — indagou André ingenuamente.

— Mas, afinal — objetou Tiago, filho de Alfeu, em voz alta —, onde está Deus que não conjura semelhante perigo?

5. Jesus, que se mantivera em silêncio ante as primeiras interrogações, ergueu o olhar para o filho de Cleofas e advertiu:

— Tiago, faze calar a voz de tua pouca confiança na sabedoria que nos rege os destinos. Uma das maiores virtudes do discípulo do Evangelho é a de estar sempre pronto ao chamado da Providência Divina. Não importa onde e como seja o testemunho de nossa fé. O essencial é revelarmos a nossa união com Deus, em todas as circunstâncias. É indispensável não esquecer a nossa condição de servos de Deus, para bem lhe atendermos ao chamado, nas horas de tranquilidade ou de sofrimento.

6. A esse tempo, havendo-se calado novamente o Messias, João interveio, perguntando:

— Senhor, compreendo a vossa exortação e rogo ao Pai a necessária fortaleza de ânimo; mas, por que motivo será justamente um dos vossos discípulos o traidor de vossa causa? Já nos ensinastes que, para se eliminarem do mundo os escândalos, outros escândalos se tornam necessários; contudo, ainda não pude atinar com a razão de um possível traidor em nosso próprio colégio de edificação e de amizade.

7. Jesus pousou no interlocutor os olhos serenos e acentuou:

— Em verdade, cumpre-me afirmar que não me será possível dizer-vos tudo agora; entretanto, mais tarde enviarei o Consolador, que vos esclarecerá em meu nome, como agora vos falo em nome de meu Pai.

8. E, detendo-se um pouco a refletir, continuou para o discípulo em particular:

— Ouve, João: os desígnios de Deus, se são insondáveis, também são invariavelmente justos e sábios. O escândalo desabrochará em nosso próprio círculo bem-amado, mas servirá de lição a todos aqueles que vierem depois de nossos passos, no divino serviço do Evangelho. Eles compreenderão que para atingirem a porta estreita da renúncia redentora hão de encontrar, muitas vezes, o abandono, a ingratidão e o desentendimento dos seres mais queridos. Isso revelará a necessidade de cada qual firmar-se no seu caminho para Deus, por mais espinhoso e sombrio que ele seja.

O apóstolo impressionara-se vivamente com as derradeiras palavras do Mestre e passou a meditar sobre seus ensinos.

9. As sensações de estranheza perduravam em toda a assembleia. Jesus, então, levantou-se e, oferecendo a cada companheiro um pedaço de pão, exclamou:

— Tomai e comei! Este é o meu corpo.

Em seguida, servindo a todos de uma pequena bilha de vinho, acrescentou:

— Bebei! Porque este é o meu sangue, dentro do Novo Testamento, a confirmar as verdades de Deus.

10 Os discípulos lhe acolheram a suave recomendação, naturalmente surpreendidos, e Simão Pedro, sem dissimular a sua incompreensão do símbolo, interrogou:

— Mestre, que vem a ser isso?

— Amados — disse Jesus, com emoção —, está muito próximo o nosso último instante de trabalho em conjunto e quero reiterar-vos as minhas recomendações de amor, feitas desde o primeiro dia do apostolado. Este pão significa o do banquete do Evangelho; este vinho é o sinal do espírito renovador dos meus ensinamentos. Constituirão o símbolo de nossa comunhão perene, no sagrado idealismo do amor, com que operaremos no mundo até o último dia. Todos os que partilharem conosco, através do tempo, desse pão eterno e desse vinho sagrado da alma, terão o espírito fecundado pela luz gloriosa do Reino de Deus, que representa o objetivo santo dos nossos destinos.

11. Ponderando a intensidade do esforço a ser empregado e aludindo às multidões espirituais que se conservam sob a sua amorosa direção, fora dos círculos da carne, nas Esferas mais próximas da Terra, o Cristo acrescentou:

— Imenso é o trabalho da redenção, mesmo porque tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; mas o Reino nos espera com sua eternidade luminosa!…

Altamente tocados pelas suas exortações solenes, porém, maravilhados ainda mais com as promessas daquele reinado venturoso e sem-fim, que ainda não podiam compreender claramente, a maioria dos discípulos começou a discutir as aspirações e conquistas do futuro.

12. Enquanto Jesus se entretinha com João, em observações afetuosas, os filhos de Alfeu examinavam com Tiago as possíveis realizações dos tempos vindouros, antecipando opiniões sobre qual dos companheiros poderia ser o maior de todos, quando chegasse o Reino com as suas inauditas grandiosidades. Filipe afirmava a Simão Pedro que, depois do triunfo, todos deviam entrar em Nazaré para revelar aos doutores e aos ricos da cidade a sua superioridade espiritual. Levi dirigia-se a Tomé e lhe fazia sentir que, verificada a vitória, se lhes constituía uma obrigação a marcha para o Templo ilustre, onde exibiriam seus poderes supremos. Tadeu esclarecia que o seu intento era dominar os mais fortes e impenitentes do mundo, para que aceitassem, de qualquer modo, a lição de Jesus.

13. O Mestre interrompera a sua palestra íntima com João, e os observava. As discussões iam acirradas. As palavras “maior de todos” soavam insistentemente aos seus ouvidos. Parecia que os componentes do sagrado colégio estavam na véspera da divisão de uma conquista material e, como os triunfadores do mundo, cada qual desejava a maior parte da presa. Com exceção de Judas, que se fechava num silêncio sombrio, quase todos discutiam com veemência. Sentindo-lhes a incompreensão, o Mestre pareceu contemplá-los com entristecida piedade.

14. Nesse instante, os apóstolos observaram que ele se erguia. Com espanto de todos, despiu a túnica singela e cingiu-se com uma toalha em torno dos rins, à moda dos escravos mais íntimos, a serviço dos seus senhores. E como se fossem dispensáveis as palavras, naquela hora decisiva de exemplificação, tomou de um vaso de água perfumada e, ajoelhando-se, começou a lavar os pés dos discípulos. Ante o protesto geral em face daquele ato de suprema humildade, Jesus repetiu o seu imorredouro ensinamento:

— Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque eu o sou. Se eu, Senhor e Mestre, vos lavo os pés, deveis igualmente lavar os pés uns dos outros no caminho da vida, porque no Reino do Bem e da Verdade o maior será sempre aquele que se fez sinceramente o menor de todos."


Humberto de Campos (Irmão X)

Psicografia de Francisco Cândido Xavier, em 'Boa Nova'

Nota: O livro 'Boa Nova' ditado pelo Espírito de Humberto de Campos, o 'Irmão X', ao médium Chico Xavier, focaliza passagens evangélicas de expressiva beleza, onde Jesus com seus discípulos e outras conhecidas personagens, trazem lições de sabedoria ao homem atual. Reúne trinta episódios onde o leitor será envolvido pela ternura e encanto de situações relacionadas com a presença do Cristo de Deus. Neste livro Humberto de Campos nos lembra que “todas as expressões evangélicas têm entre nós, a sua história viva. Nenhuma delas é símbolo superficial.”

Fonte: trecho do livro 'Boa Nova', de Chico Xavier e Humberto de Campos - Capítulo 25: 'A última ceia' - Citação parcial para estudo, divulgação do Espiritismo, da obra de Francisco Cândido Xavier e de seus autores espirituais, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais - Imagem: "A Última Ceia" - detalhe do afresco de Leonardo da Vinci 'A Última Ceia' (c. 1495–1498) para a igreja de Santa Maria delle Grazie em Milão, Itália (CC0)


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