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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O Presente e os Magos


Se não souberes esperar, não encontrarás o inesperado, pois é inencontradiço e de difícil acesso~Heráclito, Fr. 18

Para a maioria de nós, a Epifania, ou o Dia de Reis evoca o momento no qual os Magos visitam o menino Jesus, oferecendo-lhe, cada um, um presente.

A meditação que segue quer pensar este presente e este presentear, para tentar talvez resgatar algo que ficou soterrado sob a avalanche da troca quase compulsiva dos objetos no qual se transformou o nosso hábito de dar presentes de natal.

Em sua etimologia, a palavra “Epifania” nos fala de um vir à luz, de um aparecer que ao aparecer se mostra no brilho da aparência (phainein: revelar, mostrar; phainestai: aparecer, e no ato de aparecer mostrar-se, revelar-se no brilho da aparência, e o prefixo grego epi: sobre, a; indica um subir, uma elevação). A palavra “Epifania” nos fala, portanto, do brilhar de uma Luz que des-cobre a nós. Esta eclosão da Luz, este brilhar-para, acontece em um momento que não provém de uma decisão nossa, mas de uma atenção nossa.

E sucedeu que a estrela – que tinham visto no Oriente – os precedia, até que chegando sobre o lugar onde se achava o Menino, parou. Vendo novamente a estrela, sentiram uma grandíssima alegria. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe, e prostrados Lhe prestaram homenagens. A seguir, abrindo os seus cofres, ofereceram-Lhe de presente ouro, incenso e mirra~Mateus 2, 9-12

Os Magos são sábios, na compreensão arcaica da palavra: aquele que discerniam os sinais do tempo, que liam a fala oracular do Cosmos. Os Magos são aqueles que estão atentos, receptivos e abertos ao relampejar do inesperado no comum e cotidiano. Lêem o sinal nos céus e empreendem a longa viagem, atravessando o deserto na fidelidade à estrela. E quando a estrela pára e se detém sobre a casa onde há uma criança e uma mãe, esta cena aparentemente tão comum, o coração deles é habitado por uma grande alegria: estando verdadeiramente presentes, podem receber a Presença que se mostra a nós a cada instante como dom, como presente do presente.

Assim, repensando o Fragmento de Heráclito que citamos no início de nossa reflexão, podemos dizer que o inesperado presenteia quem sabe esperar.

O presente do Mago, do sábio, é a própria sabedoria de acolhermos a presença do momento presente. Estar presente é estar acordado, no sentido de desperto e atento, e também no sentido de estar afinado, sintonizado com a Presença que se presenteia enquanto inesperado, porque não somos nós que controlamos o Tempo, mas este que se dá a nós. Luz e sombra. Ganho e perda. Silêncio. Palavra. Todos presentes do Tempo.

Dizemos: estou esperando um bebê. Aqui, a espera é acompanhamento amoroso de um processo de gestação, de um ser que se dará à Luz.

Saber esperar é abrir-se para a revelação do mundo enquanto Epifania, luminosidade que se manifesta no mais comum e cotidiano a uma consciência que a albergue. Neste momento o Mago nos visita, nos habita. O presente dos Magos, é a aceitação e o reconhecimento da manifestação do sagrado no presente.

Mas esta Presença sempre presente só a podemos receber quando abrimos mão de nossa pré-ocupação. Quando renunciamos à cobrança do passado e à ansiedade do futuro. Então livres, porque desapegados, nos encontramos na ambiência da manjedoura, na plenitude do simples.

Saber esperar é também acolher o fato de que não é sempre que o presente dos Magos nos presenteia, porque nem sempre o podemos acolher: tal é nossa condição. Assim, os Magos nos visitam e se vão. Retomar a errância na fidelidade a uma estrela é sempre e novamente fazer a experiência da falta, da busca e da esperança. Quando aprendemos novamente a aceitar e amar a própria viagem, novamente a estrela ilumina o que sempre esteve Aqui.

Um comentário:

subten.lobo@hotmail.com disse...

omoloko umbandista gosto muito do assunto do conteudo eu quro saber.