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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Você se sente bem sozinho(a), consigo mesmo(a)?

Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.

Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas ações, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.

Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomodação mútua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha será. Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre.

A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.

Ademais, quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será, essencial e inevitavelmente. Assim, é um benefício para ela se à solidão física corresponder a intelectual. Caso contrário, a vizinhança frequente de seres heterogêneos causa um efeito incômodo e até mesmo adverso sobre ela, ao roubar-lhe seu «eu» sem nada lhe oferecer em troca. Além disso, enquanto a natureza estabeleceu entre os homens a mais ampla diversidade nos domínios moral e intelectual, a sociedade, não tomando conhecimento disso, iguala todos os seres ou, antes, coloca no lugar da diversidade as diferenças e degraus artificiais de classe e posição, com frequência diametralmente opostos à escala hierárquica da natureza.

Nesse arranjo, aqueles que a natureza situou em baixo encontram-se em ótima situação; os poucos, entretanto, que ela colocou em cima, saem em desvantagem. Como consequência, estes costumam esquivar-se da sociedade, na qual, ao tornar-se numerosa, a vulgaridade domina.

Arthur Schopenhauer, in ‘Aforismos para a Sabedoria de Vida’
via Citador

terça-feira, 2 de junho de 2009

Paulo Coelho: 'O Guerreiro da Luz e Seu Mundo'


"Os guerreiros da luz mantêm o brilho nos olhos. Estão no mundo que Deus lhes entregou, fazem parte da vida de outras pessoas, e começaram suas jornadas sem alforje e sem sandálias. Muitas vezes são covardes. Nem sempre agem certo. Os guerreiros da luz sofrem por coisas inúteis, têm atitudes mesquinhas, e às vezes se julgam incapazes de crescer. Freqüentemente acreditam-se indignos de qualquer bênção ou milagre. Os guerreiros da luz nem sempre têm certeza do que estão fazendo aqui. Muitas vezes passam noites em claro, achando que suas vidas não têm sentido. Por isso são guerreiros da luz. Porque erram. Porque se perguntam. Porque procuram uma razão – e com certeza vão encontrá-la.

Usando a loucura a seu favor:

Um guerreiro da luz estuda com muito cuidado a posição que pretende conquistar. Por mais difícil que seja o seu objetivo, sempre existe uma maneira de superar os obstáculos. Ele verifica os caminhos alternativos, afia sua espada, e procura encher seu coração da perseverança necessária para enfrentar o desafio.

Mas, à medida que avança, o guerreiro se dá conta que existem dificuldades com as quais não contava. Se ficar esperando o momento ideal, nunca sairá do lugar; porque muita gente vive lhe dizendo que é uma loucura fazer o que pretende.

O guerreiro então usa um pouco de loucura, porque, tanto na guerra quanto no amor, não é possível prever tudo.

Aceitando a solidão da luta:

O guerreiro da luz sabe que ninguém é tolo, e a vida ensina a todos – mesmo que isto exija tempo. Então ele trata o seu próximo de acordo com qualidades que vê, e procura mostrar a todos o quanto cada um é capaz.

Alguns companheiros comentam: “Existem pessoas ingratas, você não devia ajudar os outros.” O guerreiro não se abala com isto. E continua estimulando o seu próximo, porque é uma maneira de ajudar a si mesmo.

Tomando decisões com coragem:

Um guerreiro da luz não adia suas decisões. Ele reflete bastante antes de agir; considera seu treinamento, sua responsabilidade, e seu dever para com as pessoas que ama. Procura manter a serenidade, e analisa cada passo como se fosse o mais importante.

Entretanto, no momento em que toma uma decisão, o guerreiro segue adiante: não tem mais dúvidas sobre o que escolheu, nem muda de percurso se as circunstâncias forem diferentes do que imaginava. Tudo que faz é adaptar-se ao caminho, às vezes agindo com a solidez de uma rocha, às vezes deixando-se levar como as águas de um rio que sabe aonde vão.

Se sua decisão foi correta, vencerá o combate – mesmo que dure mais do que o previsto. Se sua decisão foi errada, ele será derrotado, e terá que recomeçar tudo de novo – com mais sabedoria.

Mas um guerreiro da luz, quando começa, vai até o fim.

Utilizando a energia:

O guerreiro da luz sabe que é impossível viver em estado de completo relaxamento. Aprendeu com o arqueiro que, para disparar sua flecha à distância, é preciso manter o arco bem esticado. Aprendeu com as estrelas que só a explosão interior permite seu brilho.

O guerreiro repara que o cavalo, no momento de ultrapassar um obstáculo, contrai todos os seus músculos. Por isso, jamais confunde tensão com nervosismo. "

Paulo Coelho



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