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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Planta, usada em rituais, pode curar dependentes de crack

Iboga, planta usada em rituais africanos, pode curar dependentes de crack

DROGA ALUCINÓGENA EXTRAÍDA DA RAIZ DE UMA PLANTA AFRICANA É USADA POR PAULISTANOS PARA SE LIVRAREM DO VÍCIO DA COCAÍNA, DO CRACK E DA HEROÍNA

Por cerca de quinze anos, o palestrante Gadyro Nakaya Schmeling, de 36 anos, viveu dominado pela compulsão por cocaína, heroína e crack. Isso deixou nele marcas profundas: morou na Cracolândia por oito meses, roubou e foi preso, fugiu de mais de quarenta internações e chegou a ser acorrentado pelo pai em casa. “Nada funcionava”, relembra.

Até que conheceu, pela internet, a ibogaína. Com um potente efeito alucinógeno, a substância é extraída da raiz da iboga, uma planta africana. Tem sido usada nos últimos tempos nas terapias de desintoxicação, pois amenizaria os terríveis sintomas da abstinência, a principal causa de recaída dos viciados. “Tomei uma dose única em outubro de 2012. Ela é forte e provoca uma sensação horrível, de morte. Mas nunca mais tive vontade de usar qualquer droga”, conta Schmeling.

A exemplo do que ocorreu com o consultor, várias pessoas na mesma situação estão procurando esse tratamento, ainda bastante controverso para muitos médicos. Entre outros efeitos arriscados, a ibogaína baixa muito a frequência cardíaca do usuário durante o transe, o que pode ser fatal em casos de pacientes com algum problema no coração.

Um dos centros mais conhecidos que oferecem o serviço é o Instituto Brasileiro de Terapias Alternativas (IBTA), em Paulínia, a 119 quilômetros da capital. Um terço de seus pacientes é formado por paulistanos. Ali, o tratamento de desintoxicação custa 7 200 reais e dura cinco dias. Nesse período, são ministradas cinco doses e sessões de terapia.

Segundo a diretoria da clínica, a taxa de sucesso é de 70%. “Não estocamos o produto, tudo é importado sob medida para o paciente”, explica o terapeuta Rogério de Souza, um dos responsáveis pelo local. O comerciante Rodrigo Januário Simões, de 36 anos, passou por lá em 2012. Ele bateu às portas do IBTA para tentar livrar-se do vício de uma década em cocaína. Diz ter ficado surpreso com a eficácia do negócio. “De uma hora para a outra, minha fissura sumiu”, lembra. “Passei a ter nojo da droga.”

Descoberta oficialmente em 1962 peloamericano Howard Lotsof, um adictoem heroína que aos 19 anos estava à caçade um novo “barato”, a substância é aprovada no Canadá, na Nova Zelândia, no México e na maioria dos países da América Central. Ela é contraindicada para pessoas com quadros psicóticos, que usam determinados remédios, como antidepressivos, são alérgicas ou têm problemas cardiovasculares e no fígado.

Seus altos índices de sucesso se devem, de acordo com pesquisadores, a alguns mecanismos de ação. Em um deles, ousuário se desliga do presente e tem aimpressão de sonhar acordado. “É como uma expansão da consciência, você passa a ver a vida de outro jeito e fica mais aberto à mudança”, conta o consultor Schmeling.

Além disso, há uma ação cerebral ainda incerta. As hipóteses mais correntes afirmam que acontece um aumento nas sinapses entre os neurônios e uma reorganização dos neurotransmissores, o que explicaria o fim da fissura.

Por aqui, a substância não é ilegal, mas sua comercialização para finalidades terapêuticas é proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Quando há necessidade de uso do medicamento, entretanto, o órgão regulador autoriza a importação de países onde é legalizado, desde que isso seja feito com prescrição médica e exclusivamente para uso pessoal.

Apesar dos relatos de sucesso, o consumo no Brasil ainda é bastante controverso. Em setembro deste ano, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) finalizaram o primeiro levantamento nacional sobre a ibogaína. Foram selecionados 75 dependentes químicos, entre usuários de crack, cocaína, maconha e álcool.

Todos tomaram uma ou mais doses do remédio. O resultado foi animador: 61% dos voluntários largaram a droga — nos tratamentos tradicionais, esse número despenca para 30%. “Pelo que observamos, a ibogaína é hoje a melhor opção contra o vício”, diz o médico Bruno Rasmussen Chaves, um dos autores do estudo.

De acordo com a psiquiatra Ana Cecília Marques, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas, trabalhos como esse precisam ser encarados com reserva, pois estão longe de ser conclusivos. Segundo ela, ainda se sabe muito pouco sobre a substância e não é possível fazer alegações sobre sua eficácia. “São necessários anos de pesquisas para confirmar os dados, mesmo que as primeiras evidências apontem para resultados positivos”, afirma.

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