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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Einstein e a Religião

via Deutsche Welle em português

Einstein repensa relação
entre ciência e religião
Em fevereiro de 1923, o físico Albert Einstein, já mundialmente famoso, fez uma visita a Jerusalém. E registrou sua observação das pessoas rezando no Muro das Lamentações: "Desci até o muro do templo, onde os obtusos patrícios ficam rezando alto, com o rosto voltado para o muro, balançando o corpo para frente e para trás. Imagem miserável de uma gente com passado e sem presente".

Esta breve anotação de viagem é característica da relação de Einstein com a religião. Por um lado, ele reclama da obtusidade dos crentes; por outro, considera-os "patrícios". O cientista nascido em Ulm, no extremo sul da Alemanha, em 1879, era judeu e, mais ou menos desde 1918, sionista.

Com 17 anos, no entanto, ele já tinha se excluído da comunidade religiosa judaica e jamais voltaria a seguir qualquer confissão. Não visitava serviços religiosos e não rezava. Mesmo assim, Einstein tinha fé. Em agosto de 1932, escreveu um breve texto intitulado "Minha Profissão de Fé" e logo em seguida gravou-o em disco para a Liga Alemã dos Direitos Humanos.

A linguagem de Deus é a matemática

"Fazer parte das pessoas que podem dedicar sua valiosa força de observação e investigação a coisas objetivas e desvinculadas do tempo é uma graça especial. Como sou feliz e grato por usufruir desta graça que nos torna independentes do destino pessoal e do comportamento dos demais! Mas esta independência não deve nos cegar, no entanto, a ponto de ignorarmos os deveres que continuam nos vinculando à humanidade de antes, de agora e de depois", observa Einstein.

E prossegue: "Nossa situação no mundo parece estranha. Cada um de nós aparece para uma breve visita, involuntariamente e sem ser convidado, sem saber por quê e para quê. Na vida diária, só sentimos que o ser humano existe por causa dos outros, daqueles que amamos e de inúmeros outros companheiros de destino".

A origem da religião para Einstein é o medo. Medo de fome, doença e morte. É preciso apaziguar o Deus ou os deuses, a fim de escapar da desgraça. Em um nível mais elevado, a fé surge de sentimentos sociais. Neste caso, religião é como uma superestrutura moral que regula a vida da comunidade. Para Einstein, a religião moral é a religião dos povos com tradição cultural. Mas ele ainda distingue uma terceira forma de vivência religiosa: a religiosidade cósmica.

A religiosidade cósmica seria apenas para "indivíduos especialmente ricos e comunidades especialmente nobres". O conceito cósmico de Deus não se prende mais a imagens pessoais, de modo que não requer nem Igreja, nem dogmas, nem orações. Neste caso, Deus é um princípio. Sua linguagem é a matemática. Venerá-lo significa fazer ciência.

"Sou religioso"

"A coisa mais bela e profunda que o ser humano pode vivenciar é o sentimento do misterioso", diz Einstein. "Ele está na base da religião e das aspirações mais profundas da arte e da ciência. Quem nunca vivenciou isso me parece morto ou cego. Sentir que, por trás do vivenciável, se esconde algo inacessível à nossa mente, algo cuja beleza e sublimidade só nos alcança de forma mediada e como um fraco reflexo: isso é religiosidade. Neste sentido, sou religioso. A mim, basta pressentir estes mistérios com espanto e tentar apreender com a mente e com toda humildade uma imagem pálida da estrutura sublime do ser."

A fé de Einstein é a fé na racionalidade da construção do mundo, a crença de que é possível entrever seus princípios. Sendo assim, sua célebre frase "Deus não joga dados" não se refere a um Deus personalizado que determina arbitrariamente o destino das pessoas. É uma afirmação sobre a física, mais especificamente sobre a relação de difusão da física quântica. Na religião de Einstein, não há lugar para impasses ou afirmações difusas.

"Ciência sem religião é paralítica"

Se é que é possível explicar o mundo, somente através da razão. O que interessa a Einstein é a pura ciência, a mera teoria, mas não a aplicação prática da pesquisa. Desta forma, a questão tão fundamental do século 20 em relação à responsabilidade do cientista não compete apenas ao pesquisador. Bombas atômicas atingem todo mundo.

A ciência é apenas um instrumento para alcançar certos objetivos. "O que este instrumento cria em mãos humanas depende inteiramente da natureza dos objetivos que se mantêm vivos em meio à humanidade. Após estas metas serem fixadas, o método científico oferece os meios para atingi-las", afirma Einstein.

Justamente pelo fato de a ciência, como uma religião sem Deus personalizado, ser inteiramente independente de juízos de valor, suas metas devem ser impostas com extrema responsabilidade. No início dos anos 30, Einstein ainda dissociava rigorosamente a religião cósmica dos físicos da religião moral. Posteriormente, ele passou a ressaltar cada vez mais sua ligação.

"Religião sem ciência é cega"

O que ocasionou esta mudança de perspectiva foi a experiência da Alemanha nazista, os ataques contra o judeu Einstein, a discriminação de sua ciência como produto do pensamento judeu, a guerra mundial e o exílio nos Estados Unidos. Einstein passou a reconhecer uma interdependência cada vez maior entre religião e ciência. Para ele, a fé religiosa se tornou então uma crença na possibilidade de conhecer a verdade e com isso o verdadeiro motor do pesquisador.

É justamente isso que está por trás da famosa afirmação de 1941: "Uma ciência sem religião é paralítica, uma religião sem ciência é cega". Mesmo assim, Einstein nunca acreditou em um Deus personalizado. Ele chegou até a imaginar que a ciência haveria de abolir este conceito de Deus no futuro. Contudo, continuou acreditando na força de a religião estimular "a bondade, a verdade e a beleza nas pessoas".

Fonte: Deutsche Welle - Udo Marquardt (sm)
Texto transcrito de: http://www.dw-world.de/dw/article/0,,1555314,00.html - Imagem da mesma origem.

Refletindo sobre essa fundamental parceria entre ciência e religião, concluiu Albert Einstein

— “(...) Eu afirmo com todo o vigor que a religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa científica. Somente aquele que pode avaliar os gigantescos esforços e, antes de tudo, a paixão sem os quais as criações intelectuais científicas inovadoras não existiriam pode pesar a força do sentimento, único a criar um trabalho totalmente desligado da vida prática.

Que confiança profunda na inteligibilidade da arquitetura do mundo e que vontade de compreender, nem que seja uma parcela minúscula da inteligência a se desvendar no mundo, deviam animar Kepler e Newton para que tenham podido explicar os mecanismos da mecânica celeste, por um trabalho solitário de muitos anos. Aquele que só conhece a pesquisa científica por seus efeitos práticos vê depressa demais e incompletamente a mentalidade de homens que, rodeados de contemporâneos céticos, indicaram caminhos aos indivíduos que pensavam como eles. Ora, eles estão dispersos no tempo e no espaço.

Aquele que devotou sua vida a idênticas finalidades é o único a possuir uma imaginação compreensiva destes homens, daquilo que os anima, insufla-lhes a força de conservar seu ideal, apesar de inúmeros malogros. A religiosidade cósmica prodigaliza tais forças. Um contemporâneo declarava, não sem razão, que em nossa época, instalada no materialismo, reconhecem-se nos sábios escrupulosamente honestos os únicos espíritos profundamente religiosos
”.

"A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologia" ~Albert Einstein (1879-1955)

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A Equação de Deus possui enredo de leitura agradabilíssima e acessível aos não-iniciados em física, astronomia ou física quântica. Trata-se de um livro elaborado com rigor, mas bastante didático. Aborda um tema complexo, referente à comprovação da existência de Deus nas ciências exatas.

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