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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Desenvolvendo a compaixão

por Sua Santidade o Dalai-Lama

Alguns de meus amigos me disseram que, ainda que o amor e a compaixão sejam bons e maravilhosos, eles não são realmente muito relevantes. Nosso mundo, eles dizem, não é um lugar onde estas convicções têm muita influência ou poder. Eles defendem que a raiva e o ódio são partes tão inerentes à natureza humana, que a humanidade será sempre dominada por eles. Não concordo.

Nós humanos existimos em nossa forma atual por algo em torno de cem mil anos. Acredito que, se durante esse tempo a mente humana tivesse sido primordialmente controlada por raiva e ódio, nossa população teria decrescido. Todavia, hoje, apesar de todas as nossas guerras, nos damos conta que nossa população é a maior de todos os tempos. Isto claramente me diz que o amor e a compaixão predominam no mundo.

E, é por isso que eventos desagradáveis são notícia. As atividades compassivas são tão comuns em nossa vida diária, que são dadas como certas e, portanto, largamente ignoradas.

Até aqui discuti principalmente os benefícios mentais da compaixão, mas, ela também contribui para a boa saúde física. De acordo com minha experiência pessoal, estabilidade mental e bem-estar físico estão diretamente relacionados. Inquestionavelmente, raiva e agitação nos tornam mais suscetíveis à doença. Ao contrário, se a mente está tranquila e ocupada com pensamentos positivos, o corpo não será presa fácil da doença.

Porém, é claro que também é verdade, que todos temos uma faceta inata autocentrada que inibe nosso amor por outrem. Portanto, visto que desejamos a felicidade verdadeira, que é produzida apenas por uma mente calma, e, visto que tal paz mental é produzida apenas por uma atitude compassiva, como é que podemos desenvolver isso? Obviamente, não nos é suficiente simplesmente pensarmos quão boa é a compaixão! Necessitamos empreender um esforço combinado para alcançá-la; precisamos utilizar todos os eventos de nossa vida diária para transformar nossos pensamentos e comportamento.

Primeiramente, devemos compreender claramente o que entendemos como compaixão. Muitas formas de sentimento compassivo são confundidas com desejo e apego. Por exemplo, o amor que os pais sentem por seus filhos é frequente e fortemente associado com suas próprias carências emocionais, não sendo, desse modo, totalmente compassivo. Assim também, no casamento, o amor entre marido e mulher, especialmente no início, quando cada parceiro ainda não conhece bem o caráter mais profundo do outro, depende mais do apego do que de genuíno amor. Nosso desejo pode ser tão forte que a pessoa a quem estamos apegados nos parece boa, quando, na verdade, ele ou ela é muito negativo. Adicionalmente costumamos exagerar pequenas qualidades positivas. Assim, quando a atitude de um parceiro muda, o outro, frequentemente se desaponta e, sua atitude também se modifica. Esta é uma indicação de que o amor foi mais motivado por carência pessoal do que por genuíno interesse pelo outro indivíduo.

A verdadeira compaixão não é apenas uma resposta emocional, mas, um compromisso firme fundamentado na razão. Portanto, uma atitude verdadeiramente compassiva em relação aos outros não se modifica, mesmo que eles se comportem negativamente.

É claro que não é nada fácil desenvolver esse tipo de compaixão! Para começar, consideremos os seguintes fatos:

Quer as pessoas sejam bonitas e amigáveis, ou pouco atraentes e desagradáveis, em última análise, são todos seres humanos, assim como nós mesmos. Como nós mesmos, elas querem a felicidade e, não querem sofrer. Além disso, o direito delas de sobrepujar o sofrimento e, ser felizes, é igual ao nosso próprio. Ora, quando você reconhece que todos os seres são iguais, tanto no seu desejo de felicidade, quanto no seu direito de obtê-la, você automaticamente sente proximidade e empatia para com elas. Ao acostumar sua mente a esse sentimento de altruísmo universal, você desenvolve um senso de responsabilidade pelos outros: o desejo de ajudá-los ativamente a superar os problemas deles. Este desejo também não é seletivo, ele se aplica igualmente a todos. Por serem eles seres humanos, que experimentam dor e prazer, tanto quanto você, não há fundamentação lógica para qualquer discriminação entre eles, ou mesmo, para alterar sua preocupação para com eles, caso eles se comportem negativamente.

Deixem-me enfatizar que está ao nosso alcance, dados o tempo e a paciência, desenvolver esse tipo de compaixão. É claro que nossa faceta autocentrada, nosso apego distintivo ao sentimento de um "eu", auto-existente e independente, trabalham fundamentalmente para inibir nossa compaixão. Com efeito, a verdadeira compaixão pode ser experimentada apenas quando esse tipo de entendimento do "eu" é eliminado. Porém, isto não significa que não podemos começar e progredir agora.

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